02 outubro 2006

A morte de um sonho não é menos triste do que a morte

Aqui onde trabalho ( e a minha mãe
- Desde quando escrever é trabalho?)
aqui onde trabalho, quer dizer lá fora, junto ao portão do sítio onde
trabalho, os pombos levam a vida a fazer cócó no automóvel. O senhor
do armazém ao lado previne que os dejectos dos pombos estragam a
pintura.
( - O ácido, doutor, o ácido)
de modo que lá venho eu, com água e paninho, esfregar
conscienciosamente aquela espécie de giz branco, aprovado por um
compincha de garrafa de cerveja na mão, a beber pelo gargalo na porta
da mercearia. Gosto deste sítio de pequeno comércio, desta espécie de
aldeia, engastada no centro de Lisboa, que à noite se enche de
travestis mirabolantes a mostrarem o rabo a pretendentes tímidos,
gosto da loja de candeeiros, da loja de electrodomésticos, da loja dos
chineses, cheia de inutilidades delicadas, das várias pensõezitas para
estadias a taxímetro, do cabeleireiro da esquina, com fotografias
desbotadas, de caracóis e franjas, onde nunca vi ninguém entrar. Só
não gosto dos pombos mas consolo-me imaginando o que seria do
automóvel se os elefantes voassem.
Ao lado do portão o muro do hospital, velho, escuro, coberto de musgo.
Viúvas perfumadas, na pastelaria a cem metros, debatendo-se com bolos
de creme. O quiosque de revistas, com artigos de novelas e
apresentadoras de televisão, suponho que filhas das viúvas dos bolos,
e a empregada do quiosque sentada num banquinho de cozinha no meio
desses disparates coloridos. Restaurantezecos de televisor ligado ao
futebol, o empregado a desenhar oitos na mesa com o esfregão, a
cozinheira mulata, de touca, abanando os calores com o jornal e no
jornal, a toda a largura, O SOLTEIRÃO MAIS APETECIDO CONFESSA-SE.
Cortinas de crochet, gatos de gesso, lugares acanhados, sombrios onde
o solteirão mais apetecido não mora de certeza, toldos que os pombos
pingam também, na falta do meu automóvel a jeito.
(- O ácido, doutor, o ácido)
as prateleiras poeirentas dos penhores e os seus despojos de
naufrágio, fios de oiro, budas, litografias piedosas, uma criatura de
óculos e sexo indefinido no escuro do balcão, espécie de coruja
cinzenta tentando habituar-se ao dia. Pois nestas redondezas passo eu
as tardes, a espremer o miolo
( - Desde quando é que escrever é trabalho?)
para folhinhas de bloco, uma pessoa crescida, que patetice, a fazer
redacções de menino, tinha razão mãe, desde quando é que escrever é
trabalho, devia desenhar casas e árvores na margem do papel, não é
trabalho, claro, qual trabalho, devia desenhar casas e árvores na
margem do papel, qual trabalho, uma reinação, uma coisa de garotos,
escrever qualquer pessoa escreve, mãe, onde está a dificuldade, só a
quantidade de cartas que andam para aí, relatórios, telegramas,
postais, listas de supermercado, qualquer pessoa escreve, devia ter um
ofício de gente um emprego que se visse, uma ocupação que se desse ao
respeito, num escritório, por exemplo, onde os pombos não me sujassem
o automóvel, eu de fato, gravata, penteado, normal, com uma secretária
a trazer-me cafés, a receber
- Façam favor, façam favor
a administração de outra companhia de seguros, eu competente,
decidido, vigoroso,
eu tacos de golfe, eu barco, eu relógio com pulseira de oiro, eu de
chofer que limpe o cócó dos pombos por mim, eu de amante produtora de
moda, eu de magazine de negócios na cama, desde quando é que escrever
é trabalho, realmente, blocozinhos que não valem um chavo,
esferográficas de deitar fora, jeans, a minha mãe a suspirar,
desgostosa
-Artistas
a resignar-se
- Pelo menos não bebe, vá lá
artistas ou seja criaturas inúteis, que fazem eles que preste, só
depois de mortos
os apreciam, nem relógio usa, barcos só se for de papel, não liga a
nada, faz livros, qual trabalho, até admira que não coma a sopa dos
pobres, o que a gente sonha para um filho e, vai na volta, prosas,
andou a estudar para médico, acabou
o curso sabe Deus como e com a mania das redacções não faz uso dele, a
morte de um sonho não é menos triste do que a morte, demos-lhe um
enxada para a vida, médico, e não usa, não quer saber, não se
interessa, você, mãe, que compreendeu logo a sua desdita quando, ao ir
espreitar-me no exame de admissão ao liceu, deu comigo instalado ao
contrário na carteira, a olhar o tecto, foi sempre tão esquisito este
meu filho, com dois, três anos, ficava na varanda horas seguidas, a
olhar, dava a impressão que o mundo inteiro não passava de uma varanda
para ele, se quiserem encontrá-lo é aquele ali, com uma garrafinha de
água e um pano, a esfregar o automóvel do cócó dos pombos e a
interromper-se, de vez em quando, para olhar, esquecido da
garrafinha, do pano, do automóvel, o tecto do céu, como se continuasse
instalado ao contrário na carteira que não há, nas tintas
(imagine-se a vergonha)
para uma carreira de gente.

-António Lobo Antunes-

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