22 maio 2008

...E senti que estava estourando. Rebentando todo por dentro. Rebentando aquela dor tão grande que passara o dia ameaçando...

..um dos livros (e filmes) que recordo com carinho... de um tempo que já não existe...








Num canto de uma cerca uma coisa me chamou a atenção. Era uma
meia preta e furada de mulher. Abaixei e apanhei. Rodei ela
na mão e ela ficou fininha. Guardei a meia na caixa,
pensando: “dá uma bela cobra”.
Mas briguei comigo mesmo. “Outro dia. Hoje, de jeito
nenhum"...
Cheguei perto da casa dos Villas-Boas. A casa tinha um jardim
grande e o chão era todo cimentado. Serginho rodava entre os
canteiros numa bela bicicleta. Botei o rosto na grade
espiando:
Era toda vermelha e com pedaços e riscos amarelos e azuis. O
metal alumiava de brilhante. Serginho viu e ficou se exibindo
para mim. Corria, fazia curvas, dava freada que chegava a
chiar. Então se aproximou de mim.
- Gostou?
- É a bicicleta mais linda do mundo.
- Venha para perto do portão que você ainda vê melhor.
Serginho era da idade e da mesma aula que Totoca. Fiquei com
vergonha dos meus pés descalços porque ele calçava uns
sapatos de verniz, usava meia branca e ligas de elástico
vermelho. O brilho do sapato refletia tudo. Até os olhos de
Papai começaram a me olhar no brilho. Engoli em seco.
- Que foi, Zezé? Você está esquisito.
- Nada. De perto ela é mais bonita. Você ganhou de Natal?
- Ganhei. Ele desceu da bicicleta para conversar melhor e
abriu o portão.
- Ganhei foi coisa. Uma vitrola, três ternos, um
monte de livros de histórias, caixa de lápis de cor das
grandes. Uma caixa com todos os jogos, um avião que mexe a
hélice. Dois barcos com vela branca...
Abaixei a cabeça e me lembrei do Menino Jesus que só gostava
de gente rica como Totoca falara.
- Que foi, Zezé?
- Nada.
- E você... ganhou muita coisa? Balancei a cabeça,
negativamente, sem poder responder.
- Mas nada? Nada mesmo?
- Esse ano não houve Natal lá em casa. Papai ainda está
desempregado.
- Não é possível. Vocês nem tiveram castanhas, avelãs, nem
vinho?...
- Só rabanada que Dindinha fez e café. Serginho ficou
pensativo.
- Zezé, se eu convidar, você aceita? Estava adivinhando o que
era. Mas mesmo sem ter comido nada não tinha vontade.
- Vamos lá dentro. Mamãe faz um prato para você. Tem tanta
coisa, tanto doce...
Não me arriscava. Tinha sido muito judiado nesses dias. Por
mais de uma vez já tinha escutado:
- “Já não lhe disse para não trazer moleque de rua pará
dentro de casa?”
- Não, muito obrigado.
- Está bem. E se eu pedir a Mamãe para fazer um
pacote de castanhas e coisas para você levar para seu
irmãozinho, você leva?
- Também não posso. Tenho que acabar de trabalhar. Serginho
só então descobriu a minha caixinha de engraxar onde me
sentara.
- Mas ninguém engraxa no Natal...
- Eu passei o dia e só consegui ganhar dez tostões e
assim mesmo cinco deram de esmola. Tenho que ganhar ainda
dois tostões.
- Para quê, Zezé?
- Não posso contar. Mas preciso muito mesmo.
Ele sorriu e teve uma idéia generosa.
- Quer engraxar o meu? Eu lhe dou dez tostões.
- Também não posso. Eu não cobro dos amigos.
- E se eu lhe der, isto é, se eu lhe emprestar os duzentos
réis?
- Posso demorar a pagar?
- Como você quiser. Pode até me pagar depois em
bola de gude.
- Assim, sim. Ele meteu a mão no bolso e me deu um níquel.
- Não se incomode que eu ganhei muito dinheiro. Estou com o
cofre cheinho.
Passei a mão na roda da bicicleta.
- Ela é linda mesmo.
- Quando você crescer e souber andar eu deixo dar uma volta,
tá?
- Tá.
Saí em desabalada carreira para a venda do Miséria e Fome,
chacoalhando a caixa de engraxate.
Entrei de furacão, com medo que ele já fosse fechar.

- O senhor tem ainda daquele cigarro caro? Ele apanhou duas
carteiras quando viu o dinheiro na palma de minha mão.
- Isto não é para você, é, Zezé? Uma voz por trás falou:
- Que idéia! Um pequeno desse tamanho! Sem se virar ele
contestou.
- Porque você não conhece esse freguês. Esse danado é capaz
de tudo.
- É para Papai. Sentia uma felicidade enorme rolando as
carteiras na palma da mão.
- Essa ou essa?
- Você é quem sabe.
- Passei o dia trabalhando para comprar este presente de
Natal para Papai.
- Verdade, Zezé? E o que ele te deu?
- Nada, coitado. Ele está ainda desempregado, o senhor sabe.
Ele ficou emocionado e ninguém falou no bar.
- Qual o senhor gostava mais se fosse o senhor?
- As duas são lindas. E qualquer pai gostaria de receber um
presente desse jeito.
- O senhor me embrulha essa, por favor. Ele embrulhou mas
estava meio esquisito quando me
deu o pacotinho. Parecia querer dizer uma coisa e não
conseguia.
Dei o dinheiro e sorri.
- Obrigado, Zezé.
- Boas-festas para o senhor!... Corri de novo até em casa. A
noite tinha chegado também. Havia a luz acesa do lampião
apenas na cozinha. Todos tinham saído, mas
papai estava sentado na mesa olhando o vazio da parede.
Apoiava o rosto na palma da mão e o cotovelo na mesa.
- Papai.
- O que é, meu filho? Não havia rancor nenhum em sua voz.
- Onde você andou o dia todo? Mostrei a caixa de engraxar.
Coloquei a caixa no chão e meti a mão no bolso tirando o
pacotinho.
- Veja, Papai, comprei uma coisa linda para o senhor. Ele
sorriu compreendendo o quanto custara aquilo.
- O senhor gosta? Era a mais bonita. Ele abriu a carteira e
cheirou o fumo, sorrindo, mas não conseguia dizer nada.
- Fume um, Papai. Fui até ao fogão apanhar um fósforo.
Risquei um e aproximei do cigarro em sua boca.
Me afastei para assistir a sua primeira tragada. E foi me
dando uma coisa. Joguei o fósforo apagado no chão. E senti
que estava estourando. Rebentando todo por dentro. Rebentando
aquela dor tão grande que passara o dia ameaçando.
Olhei Papai. O seu rosto barbado, os seus olhos. Só pude
falar.
- Papai... Papai... E a voz foi sendo consumida pelas
lágrimas e soluços. Ele abriu os braços e estreitou-me
ternamente.
- Não chore, meu filho. Você vai ter muito que chorar pela
vida, se continuar um menino assim tão emotivo...
Eu não queria, Papai... Eu não queria dizer... aquilo.
- Eu sei. Eu sei. Não fiquei zangado porque no fundo você
tinha razão.
Me embalou, um pouco mais."


"O Meu Pé de Laranja-Lima"
José Mauro de Vasconcelos

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