26 maio 2008

...quando eu escutei essa história dela fiquei tão triste que prometi que quando fosse poeta e sábio eu ia ler minhas poesias para ela...

Ela falava com uma voz cansada, cansada, e eu estava com
muita pena dela. Mamãe nasceu trabalhando. Desde os seis anos
de idade quando fizeram a Fábrica que puseram ela
trabalhando. Sentavam Mamãe bem em cima de uma mesa e ela
tinha que ficar limpando e enxugando ferros. Era tão
pequenininha que fazia molhado em cima da mesa porque não
podia descer sozinha... Por isso ela nunca foi à Escola e nem
aprendeu a ler. Quando eu escutei essa história dela fiquei
tão triste que prometi que quando fosse poeta e sábio eu ia
ler minhas poesias para ela...
E o Natal se anunciava pelas lojas e armarinhos. Já tinham
desenhado Papai Noel -em tudo que era vidro de porta. Tinha
gente comprando cartão para que quando chegasse a hora não
enchesse demais de gente tudo quanto era casa de comércio. Eu
tinha uma esperança lá longe que dessa vez o Menino Deus
fosse nascer. Ele mesmo para mim. Enfim quando eu ficasse da
idade da razão, talvez eu melhorasse um pouco.
- É aqui. Todos ficaram encantados. A casa era um pouco
menor. Mamãe ajudada por Totoca destorceu um arame que
prendia o portão e foi aquele avança. Glória soltou a minha
mão e esqueceu-se que estava ficando mocinha. Desabalou à
carreira e abraçou a mangueira.
- A mangueira é minha. Peguei primeiro. Antônio fez a mesma
coisa com o pé de tamarindo. Não sobrara nada para mim. Olhei
quase chorando para Glória.
- E eu, Godóia?
- Corre lá no fundo. Deve ter mais árvore, bobo. Corri, mas
só encontrei um capinzal crescido. Um bando de laranjeira
velha e espinhuda. Junto do valão tinha um pequeno pé de
Laranja Lima.

Fiquei desapontado. Todos estavam visitando os cômodos e
determinando para quem seriam os quartos.
Puxei a saia de Glória.
- Não tinha nada mais.
- Você não sabe procurar direito. Espere aí que vou achar uma
árvore para você.
E logo depois ela veio comigo. Examinou as laranjeiras.
- Você não gosta daquela? Olhe que é uma bela laranjeira.
Não gostava de nenhuma mesmo. Nem daquela. Nem daquela e nem
de nenhuma. Todas tinham muito espinho.
- Pra ficar com essas feiúras eu ainda preferia o pé de
Laranja Lima.
- Onde? Fomos lá.
- Mas que lindo pezinho de Laranja Lima! Veja que não tem nem
um espinho. Ele tem tanta personalidade que a gente de longe
já sabe que é Laranja Lima. Se eu fosse do seu tamanho, não
queria outra coisa.
- Mas eu queria um pé de árvore grandão.
- Pense bem, Zezé. Ele é novinho ainda. Vai ficar um baita pé
de laranja. Assim ele vai crescer junto com você. Vocês dois
vão se entender como se fossem dois irmãos. Você viu o galho?
É verdade que o único que tem, mas parece até um cavalinho
feito pra você montar.

Estava me sentindo o maior desgraçado da vida. (...)"
José Mauro de Vasconcelos
"O Meu Pé de Laranja-Lima"

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