...ainda guardavas na algibeira as palavras da infância com que entraras um dia no meu corpo e na minha vida...

Já nem silêncios nos restam
de tudo o que antecipadamente nos sobrava
das madrugadas limpas
onde o canto das aves nos ensinava
o caminho de casa
hoje os teus olhos perderam-se pelas ameaças da noite
e sei que só eu espero ainda o milagre
de um gesto perfeito (outros dirão perdido)
que traga de volta à minha pele as marcas do suor
com que falavas de mim como de um país
a que irias sempre regressar
- mas isso era no tempo em que
ainda guardavas na algibeira as palavras da infância
com que entraras um dia no meu corpo e na minha vida
e tudo tinha um destino tranquilo
de uma criança a atirar pedras à lua
Alice Vieira
(...o 1º poema do seu último livro "O que dói às aves"... ainda não o consegui arrumar na estante, e já há mais de uma semana que está para aqui, ao meu lado... volta e meia lá o abro e leio mais um poema... já vou na 2a volta, mas como a minha memória é de galinha, parecem-me sempre novos...)




Sem comentários:
Enviar um comentário