23 maio 2009

...há coisas que um homem não pode aguentar...





Crónica do cálice de bagaço



A mulher levou-lhe o filho para casa dos pais, informou que queria viver a vida dela, meteu a roupa na mala, foi-se embora.

- Não lhe vou pedir batatinhas

(diz-me ele)

há coisas que um homem não pode aguentar.

Não aguenta, de facto, carrega nuns bagaços que o ajudem, insiste

- Há coisas que um homem não pode aguentar

e os bagaços não ajudam lá muito, já experimentou calmantes, trazer pequenas, ir ao bar de alterne com os amigos e nada disso ajuda muito também.

- Quem é que ela pensa que é?

(pergunta-me ele)

explique você que tem estudos quem é que ela pensa que é?

Não penso seja o que for, não a conheço, dois miúdos disputam uma bicicleta na rua, um coxo dá à bomba à perna doente, avançando contra a maré do passeio: não anda, marca penaltis a chutar a perna defeituosa, e ao imaginar a trajectória da bola invisível o

- Quem é que ela pensa que é?

longíssimo. Uma palmada no balcão

trá-lo de volta:

- Está-me a ouvir ao menos? Não deixou uma blusa para amostra

no momento em que o coxo consegue um pontapé perfeito, não esses tortos, para o céu, como se Deus jogasse. Limpa o balcão com um resto de toalha, a apagar a palmada

- Desculpe lá amigo, a gente exalta-se

seguido de uma tosse até ficar roxo porque o bagaço se enganou no caminho. Endireita-se a esfregar na manga lágrimas de engasgado, em que aproveita para incluir uma da alma

- Não lhe vou pedir batatinhas

e engrena na descrição dos fins de semana sozinho, almoço com o jornal, jantar com a televisão, um amigo de vez em quando, músico na filarmónica da polícia, a quem o clarinete anda a tirar o fôlego

- Soprar de manhã à noite cansa

também partidário do bagaço

(o coxo some-se na esquina num último remate)

que se lhe planta à mesa de cotovelos na toalha, mudo como um gato pingado ou a falar da filha solteira, que o clarinete pensa que engravidou de um padre:

- De quem é a barriga?

ordena ele e a filha atrás do cotovelo

- Não me bata senhor

a esposa do músico que se foi embora também

- Uma desgraçada

acerca da qual aprendo que tinha uma névoa no olho direito que os médicos não foram capazes de consertar e portanto torcia a cabeça, como os periquitos, para dar fé do mundo

- Tanto a torceu que se foi embora com um ourives para a Covilhã

a dissolver-se nos fundos de uma loja. A garrafa não parou de viajar entre a prateleira e o copo

- É servido?

demora-se um momento

- A Covilhã, amigo

no tom em que se fala dos Camarões ou da Tailândia

- Cabe na cabeça de alguém morar na Covilhã?

e o copo quase até cima porque a Covilhã o assusta, experimenta concebê-la

- Será como Aveiro?

onde a mãe dele nasceu e os barcos passeiam nas avenidas

- A minha mãe contava que os barcos passeavam nas avenidas

e eu a imaginar paquetes em alamedas, becos, ondas de encontro aos prédios, peixes nas árvores:

- A minha mãe de Aveiro, o meu pai de Coimbra

não bem Coimbra, uma aldeia perto

- Vinte quilómetros, nunca lá pus os pés

e o bagaço de regresso à prateleira com um letreiro colado a adesivo As bebidas expostas são para consumo no estabelecimento, e pelos vistos são. Pelo menos a garrafa a três dedos do fim

- Que se lixe o fígado, ouviu?

a apontar o próprio cinto

- Que se lixe o fígado

e a mulher a viver a vida dela enquanto ele lixa o fígado. No Centro de Saúde há um cartaz com um fígado são e um fígado doente, lado a lado, e o fígado doente uma esponja esburacada. A enfermeira anunciou-lhe que derivado à esponja esburacada a barriga cresce e ele a esmurrar o tórax, vitorioso

- Ainda está lisinha

(quantos golos terá marcado o coxo, desde que nasceu até agora?)

ao fim do dia desce uma placa de ferro sobre a porta, tranca-a com um cadeado, vai para casa espiar o guarda--fatos vazio, a cama do filho vazia, um frasco de perfume esquecido na mesa de cabeceira, circula de compartimento em compartimento a farejar ausências. Tenho uma
ideia vaga da mulher, pequena, ruiva, uma ideia do filho

(Nelson)

acocorado num degrau, no Carnaval em que o mascararam de Gato das Botas, com bigodes de carvão nas bochechas e o rapaz triste de não ser Príncipe ou Astronauta. Recordo-me do pai, ultrajado com as pretensões espaciais do filho

- Se te apetece um foguetão sai mais barato dar-te uma chapada que vês logo as estrelas

de modo que o Gato das Botas resignado aos bigodes de carvão e à cauda feita de um rolo de vedar janelas. A vizinha de fada e o Nelson, de Gato das Botas apenas, deve ter indignado a ruiva, despertado o instinto malévolo de viver sozinha

- Na galderice como as outras

a prometer-se a si mesma um explorador lunar. Mete a rolha no gargalo com um soco feroz

- Até já me informaram que arranjou um carteiro como se fosse emprego tocar campainhas e meter envelopes em buracos

confronta-me com a possibilidade tenebrosa

- Que raio de mulher se interessa por um camelo que mete envelopes em buracos?

e a lembrança do frasco de perfume esquecido a aumentar, de chinelos conjugais no corredor, de outra escova de dentes no copo, e de repente uma vozinha de pavio de círio

- Você sabe o que é ter saudades de uma escova de dentes, amigo?

Por acaso sei, enfim julgo que sei mas calo-me. Uma escova de dentes cor de rosa, com pêlos brancos um bocadinho desgrenhados, uma escova de dentes linda a iluminar-me uma zona escondida da alma. Procuro trocos na algibeira, peço

- Dê-me aí um calicezito de bagaço

que não me importa que o meu fígado se torne uma esponja esburacada. A gente tem de morrer de qualquer coisa, não é?

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