...há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo....tu olhaste-me com o teu sorriso breve e repreensivo...

A chuva embate com fúria contra as janelas, às rajadas do vento. Estou mais só, sem a passagem de mim para lá da vidraça. Se tu viesses. Ainda que trouxesses a tua pequena ruga de irritação. E se te sentasses aqui comigo à braseira a ouvir a tempestade. E eu te tomasse uma tua mão, abandonada e fria. E houvesse calor bastante em fitar o teu olhar. E soubesses como era bom eu olhar-te. E inventássemos a harmonia de estarmos assim um com o outro até sempre, a ouvir a chuva e o vento. E ficarmos assim em silêncio por já termos dito tudo.
Onde menos te encontro é onde tu exististe. Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja, para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo. Porque tu foste de um mundo incorruptível onde o tempo não passa e é aí que tu moras no eterno de ti. Mas nem sempre consigo ver-te na emoção que me abala ao lembrar a tua imagem. Como nem sempre me emociona ouvir certas músicas ou olhar um quadro ou reler um poema. Ou olhar uma estrela, uma flor. Há em nós o dom perverso de só raramente ver o outro lado das coisas onde mora o seu mistério. Lembro-me assim de às vezes procurar na tua face a outra face que lá não estava e era a mais bela de ti.
O amor é tão monótono… Porque ele é o cimo sensível de uma imensidade de coisas que se esqueceram. Como falar desse mínimo que é o vértice de todo um mundo que o sustenta? Falar de nada, que é o todo nele? Podia dizer o teu nome infinitamente na multiplicação do que nele me ressoa. E é assim o que mais me apetece, dizê-lo, dizê-lo. E ouvir nele o maravilhoso que me abala todo o ser. Poderia escrever o teu nome ao longo do que escrevo e teria talvez dito tudo. Mas eu queria desse tudo dizer também o que aí se oculta. Dizer o meu enlevo e a razão de ele me existir. As tuas mãos nas minhas. O incrível miraculoso de eu dizer o teu rosto. O ardor de um meu dedo na tua pele. Na tua boca. O terrível dos meus dedos nos teus cabelos. O prazer horrível até à morte da minha entrada no teu corpo.
As sombras crescem a toda a roda, a noite vem aí. Vejo em baixo o jardim arrasado. Quando cheguei eu disse-me vou arranjá-lo de novo. Criar nos canteiros lilases e rosas. Armar uma grade para as trepadeiras. Criar árvores novas. Recompor a vida por sobre as ruínas. Mas nada ainda fiz. E eu digo-te boa tarde. Boa noite. Ver-te-ei amanhã?
Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. E um dia perguntei-te se tinhas guardado estas cartas. Tu olhaste-me com o teu sorriso breve e repreensivo.
Rasguei-as, naturalmente, disseste, e porque havia de guardá-las?
Vergílio Ferreira
in "Para Sempre"
(...o excerto foi "roubado" do blogue "A dança dos erros", que contém algumas das coisas fantásticas da blogosfera... mas às vezes é preciso usar as palavras dos outros para me descrever...)




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