12 junho 2009

...percebeu que tinha enlouquecido...



Estava no cinema, a ver um filme, quando uma onda de escuridão se abateu sobre a sua cabeça. O mundo apagou-se durante uns segundos. Percebeu que tinha enlouquecido. Olhou à sua volta para ver se tinha acontecido o mesmo a toda gente que estava no cinema, mas toda a gente que estava no cinema, mas todas as outras pessoas estavam absortas a ver o filme. Correu para a rua, porque a escuridão do cinema, combinada pela escuridão que ia dentro da sua cabeça, era demasiado.

- E depois? - perguntei-lhe.

- Uma imensa escuridão - disse ela.

Mas a maioria das pessoas entra progressivamente, fazendo uma série de perfurações na membrana entre o cá e o lá até surgir uma abertura. E quem consegue é que consegue resistir a uma abertura?

No universo paralelo as leis da física ficam suspensas. O que sobe não tem que necessariamente descer; um corpo em descanso não tende a permanecer em descanso; nem todas as acções provocam inevitavelmente uma reacção semelhante de sentido oposto. O tempo também é diferente. Pode correr em círculos, recuar, saltar do agora para o antes. Até a organização das moléculas é fluída: as mesas podem ser relógios, as faces, flores.

Mas estes factos só se descobrem depois.

Outra singularidade do universo paralelo é que é invisível deste lado, mas quem lá está dentro vê facilmente o mundo donde veio. Às vezes, esse mundo parece enorme e ameaçador, tremebundo como um monte de gelatina; outras vezes, parece um mundo em miniatura, fascinante, a girar numa órbita cintilante. Um mundo que não pode ser ignorado. Nunca.



Susanna Kaysen

in "Vida Interrompida"
(Girl, Interrupted)

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