28 junho 2009

...saí da moldura... eu vou com as aves...





No mais fundo de ti,


eu sei que traí, mãe.



Tudo porque já não sou



o menino adormecido



no fundo dos teus olhos.







Tudo porque tu ignoras



que há leitos onde o frio não se demora



e noites rumorosas de águas matinais.



Por isso, às vezes, as palavras que te digo



são duras, mãe,



e o nosso amor é infeliz.







Tudo porque perdi as rosas brancas



que apertava junto ao coração



no retrato da moldura.



Se soubesses como ainda amo as rosas,



talvez não enchesses as horas de pesadelos.







Mas tu esqueceste muita coisa;



esqueceste que as minhas pernas cresceram,



que todo o meu corpo cresceu,



e até o meu coração



ficou enorme, mãe!



Olha – queres ouvir-me?



–às vezes ainda sou o menino



que adormeceu nos teus olhos;



ainda aperto contra o coração



rosas tão brancas



como as que tens na moldura;







ainda oiço a tua voz:



Era uma vez uma princesa



no meio de um laranjal…



Mas – tu sabes – a noite é enorme,



e todo o meu corpo cresceu.



Eu saí da moldura,



dei às aves os meus olhos a beber.



Não me esqueci de nada, mãe.



Guardo a tua voz dentro de mim.



E deixo-te as rosas.



Boa noite.



Eu vou com as aves







(e de facto apetecia-me desaparecer... talvez os problemas e as confusões que enfrento desaparecessem... embora duvide, porque muitas delas estão dentro de mim...)

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