09 julho 2009

...a ausência desincorpora...








A Ausência desincorpora - e assim faz a Morte
Escondendo os indivíduos da Terra
A Superstição ajuda, tal como o amor
A Ternura diminui à medida que a experimentamos

Emily Dickinson
in "Poemas e Cartas"


...as longas viagens dão-me sempre para pensar em coisas para as quais o tempo raramente chega, noutras circunstâncias; e hoje, não foi excepção! Deu-me para pensar nos "ausentes" - as pessoas de quem gostava e que de repente desapareceram. A primeira que me deixou foi a Lena, teria eu uns 6 anos. Lembro-me dela no dia anterior: com os seus 16 anos era de facto muito bonita (a mais bonita das irmãs), e tinha sempre um sorriso... lembro-me que passámos a tarde toda a brincar, na quinta dos meus avós. Talvez por isso ainda me venham as lágrimas aos olhos, quando penso nisso... talvez por isso me tenha custado tanto vê-la num caixão no dia seguinte, quando fui a casa dela entregar-lhe um gancho de que se tinha esquecido. Seguiram-se mais umas quantas perdas - a maioria pessoas idosas, minhas vizinhas ou dos meus avós. Essas perdas acabam por se aceitar com uma certa naturalidade, porque faz parte da "lei da vida". Outra perda que me custou bastante foi a de um casal de amigos -com 26 ou 27 anos, ele tinha conseguido um emprego estável como assistente na FM, com uma filhota bebé, ambos a terminar o doutoramento... a perda do meu avô, com quem tinha um relacionamento especial (e a quem devo parte do meu mau feitio), apesar de me ter custado imenso, acabou por ser o final do sofrimento em que ele se encontrava. Custou-me perdê-lo, mas já há muitos meses que ele vinha definhando num sofrimento crónico e a pessoa que estava naquela cama já nada tinha da pessoa que ele sempre fora...meses depois, inesperadamente perdi um tio meu... e 2 anos e meio depois a mc... estas últimas custaram bastante, porque foram inesperdas e foi um final antecipado de quem ainda tinha tantos planos de vida. Mas apesar de terem partido, continuam presentes no nosso pensamento e na nossa vida, de cada vez que nos recordamos deles... a ausência é "apenas" física, porque de cada vez que nos lembramos desses ausentes, recordamos aquilo que nos deixou marcas- a forma de falar, expressões típicas, comportamentos típicos...e especialmente as coisas boas.

Mais complicados são os "ausentes-vivos": aqueles que ocuparam um lugar importante na nossa vida, a quem entregamos uma parte de nós e que de repente desapareceram das nossas vidas, sem um motivo lógico, acabando por magoar muito... e estes acabam por deixar grandes mágoas, especialmente porque aquando da partida acabam por deitar por terra a amizade que tinha sido construída e que pensávamos ser intocável. E infelizmente são as pessoas de quem mais gostamos que acabam por nos dilacerar o coração - as pessoas em quem confiámos e que aproveitaram o que conheciam de nós para nos ferir de morte... eu tenho grandes dificuldades em lidar com as perdas, especialmente com a perda de alguém que está vivo - e estes magoam bem mais do que os ausentes físicos, até porque se torna muito difícil voltar a confiar de novo...

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