...na minha experiência, a divisão dos CDs é sempre o que dá mais problemas, depois...
A dança da maçã
Antônio chegou na hora marcada. Ainda tinha a chave do apartamento, mas preferiu bater. Luiza abriu a porta. Os dois se cumprimentaram secamente.
- Oi.
- Oi.
Antônio fez um gesto indicando os dois homens que estavam com ele. Um senhor e um mais moço.
- Este é o seu Molina e este... Como é seu nome mesmo?
- Arlei disse o mais moço.
- Arlei. Eles vieram me ajudar com a mudança.
- Bom dia - disse Luiza. - Já está tudo mais ou menos separado.
Algumas caixas de papelão e sacolas de plástico, uma lâmpada articulada de mesa de desenho, a mesa de desenho desmontada, uma taça de metal. Tudo junto perto da porta.
- Eu resolvi levar a poltrona - disse Antônio.
- Tudo bem - disse Luiza.
- É isso aí, pessoal - disse Antônio, abrindo os braços para mostrar o que seria levado. Isto, e aquela poltrona ali.
Seu Molina estava examinando a taça.
- É para o casal - disse.
A inscrição na taça era "Campeões do Declaton dos Casais, Hotel das Flores, 1992 - Antônio e Luiza". O Declaton dos Casais incluía corrida do saco, corrida de pedalinho no lago do hotel e a dança da maçã. Uma maçã era colocada entre os joelhos do casal e eles tinham de fazê- la chegar à boca sem usar as mãos.
- Eu não quero a taça - disse Luiza.
- Eu também não - disse Antônio.
- 1992... disse o seu Molina. - Era a lua-de-mel?
Luiza e Antônio se entreolharam, mas só por um segundo.
- Mais ou menos - disse Antônio.
- Quem diria, não é? - disse o seu Molina.
- O quê?
- Em 1992. Que ia acabar assim.
Antônio não podia dizer para o seu Molina não se meter na vida deles.
Afinal, era um senhor. Pediu para o Arlei:
- Vamos começar?
Mas o Arlei estava mostrando um álbum que tirara de uma das sacolas de plástico.
- Álbum de fotografia. Vai também?
- Vai - disse Luiza. Tudo que está nas sacolas vai embora.
Arlei estava olhando o álbum. Mostrou para o seu Molina:
- Olha os dois na praia.
E fez um aceno de cabeça para Luiza, com as pontas da boca puxadas para baixo, querendo dizer "Sim senhora, hein?", e que a Luiza de biquíni não era de se jogar fora. Mas o seu Molina estava sério, olhando para Luiza.
- Você não quer ficar com o álbum?
Luiza perdeu a paciência.
- Não quero ficar com nada disto, entende? O que está nas caixas e nos sacos, é para ir embora. São dele.
- Podemos começar? - pediu Antônio.
Arlei estava examinando os CDs dentro de outra sacola.
- A divisão dos CDs... - disse. - Foi de comum acordo ou...
- Eu fiquei só com os que já eram meus.
- Você não quer examinar?
A pergunta de Arlei era para Antônio.
- Não. Isso tudo já estava combinado - respondeu Antônio. E, pegando uma das sacolas do chão para dar o exemplo, pediu. Vamos começar a levar para o caminhão?
Mas Arlei continuava a examinar os CDs e seu Molina continuava com a taça nas mãos.
- E a taça? - perguntou o seu Molina.
- O senhor quer ficar com ela? Pode ficar.
- Foi vocês que ganharam - disse o seu Molina. E depois: - O que era o Declaton dos Casais?
- Tinha de tudo. Corrida de saco, corrida de pedalinhos, dança da maçã...
Seu Molina e Arlei, um uníssono:
- Dança da maçã?
- É. Colocaram uma maçã entre as pernas de cada casal, na altura dos joelhos, e ganhava quem conseguisse que a maçã chegasse na boca, para ser mordida, sem usar as mãos. Lembra, Lu?
Luiza então estava sorrindo com a lembrança.
- É. A gente tinha de se contorcer toda, para fazer a maçã andar.
Quem deixasse cair no chão, perdia.
- E vocês conseguiram morder a maçã?
- Conseguimos. Não foi fácil, mas conseguimos.
- Lembra do casal cearense, Lu?
- Lembro! Ela foi ajudar com o joelho e acabou acertando o marido bem no...
Bem ali.
- E ele saiu pulando e gritando "Mulher, não maltrate o que é seu!"
Os dois deram risadas, depois Antônio ficou sério e disse:
- Bom, mas chega de lembranças. Vamos fazer essa mudança. Se o senhor quiser pode ficar com a taça, seu Molina.
- Eu não. Uma lembrança destas, de um tempo tão alegre... Nenhum de vocês quer ficar com ela, mesmo?
- Está bem, eu fico.
Antônio e Luiza tinham falado ao mesmo tempo. E se corrigiram ao mesmo tempo:
- Fica você.
- Fica você.
Seu Molina perguntou:
- Vocês têm certeza que não querem pensar mais um pouquinho sobre isto?
- Sobre a taça?
- Sobre a separação. Só mais alguns dias. Depois nos chamem para fazer a mudança. Ou não nos chamem.
Arlei sacudiu a sacola com os CDs e acrescentou:
- Assim vocês têm mais tempo para pensar na divisão dos CDs. Na minha experiência, a divisão dos CDs é sempre o que dá mais problemas, depois.
Luiza e Antônio estavam se olhando.
- O que você acha? - perguntou Luiza.
- Não sei... - disse Antônio.
Seu Molina e Arlei saíram e fecharam a porta em silêncio e deixaram os dois conversando.
...
Naquela noite, depois do amor, Luiza perguntou a Antônio de onde tinha saído aqueles dois, Arlei e seu Molina, e Antônio respondeu que os escolhera ao acaso, na rua. Eles tinham um caminhão com uma placa do lado: "Mudanças, carreto, etc."
- Bendito et cetera - disse Luiza, puxando o Antônio de novo.
Antônio chegou na hora marcada. Ainda tinha a chave do apartamento, mas preferiu bater. Luiza abriu a porta. Os dois se cumprimentaram secamente.
- Oi.
- Oi.
Antônio fez um gesto indicando os dois homens que estavam com ele. Um senhor e um mais moço.
- Este é o seu Molina e este... Como é seu nome mesmo?
- Arlei disse o mais moço.
- Arlei. Eles vieram me ajudar com a mudança.
- Bom dia - disse Luiza. - Já está tudo mais ou menos separado.
Algumas caixas de papelão e sacolas de plástico, uma lâmpada articulada de mesa de desenho, a mesa de desenho desmontada, uma taça de metal. Tudo junto perto da porta.
- Eu resolvi levar a poltrona - disse Antônio.
- Tudo bem - disse Luiza.
- É isso aí, pessoal - disse Antônio, abrindo os braços para mostrar o que seria levado. Isto, e aquela poltrona ali.
Seu Molina estava examinando a taça.
- É para o casal - disse.
A inscrição na taça era "Campeões do Declaton dos Casais, Hotel das Flores, 1992 - Antônio e Luiza". O Declaton dos Casais incluía corrida do saco, corrida de pedalinho no lago do hotel e a dança da maçã. Uma maçã era colocada entre os joelhos do casal e eles tinham de fazê- la chegar à boca sem usar as mãos.
- Eu não quero a taça - disse Luiza.
- Eu também não - disse Antônio.
- 1992... disse o seu Molina. - Era a lua-de-mel?
Luiza e Antônio se entreolharam, mas só por um segundo.
- Mais ou menos - disse Antônio.
- Quem diria, não é? - disse o seu Molina.
- O quê?
- Em 1992. Que ia acabar assim.
Antônio não podia dizer para o seu Molina não se meter na vida deles.
Afinal, era um senhor. Pediu para o Arlei:
- Vamos começar?
Mas o Arlei estava mostrando um álbum que tirara de uma das sacolas de plástico.
- Álbum de fotografia. Vai também?
- Vai - disse Luiza. Tudo que está nas sacolas vai embora.
Arlei estava olhando o álbum. Mostrou para o seu Molina:
- Olha os dois na praia.
E fez um aceno de cabeça para Luiza, com as pontas da boca puxadas para baixo, querendo dizer "Sim senhora, hein?", e que a Luiza de biquíni não era de se jogar fora. Mas o seu Molina estava sério, olhando para Luiza.
- Você não quer ficar com o álbum?
Luiza perdeu a paciência.
- Não quero ficar com nada disto, entende? O que está nas caixas e nos sacos, é para ir embora. São dele.
- Podemos começar? - pediu Antônio.
Arlei estava examinando os CDs dentro de outra sacola.
- A divisão dos CDs... - disse. - Foi de comum acordo ou...
- Eu fiquei só com os que já eram meus.
- Você não quer examinar?
A pergunta de Arlei era para Antônio.
- Não. Isso tudo já estava combinado - respondeu Antônio. E, pegando uma das sacolas do chão para dar o exemplo, pediu. Vamos começar a levar para o caminhão?
Mas Arlei continuava a examinar os CDs e seu Molina continuava com a taça nas mãos.
- E a taça? - perguntou o seu Molina.
- O senhor quer ficar com ela? Pode ficar.
- Foi vocês que ganharam - disse o seu Molina. E depois: - O que era o Declaton dos Casais?
- Tinha de tudo. Corrida de saco, corrida de pedalinhos, dança da maçã...
Seu Molina e Arlei, um uníssono:
- Dança da maçã?
- É. Colocaram uma maçã entre as pernas de cada casal, na altura dos joelhos, e ganhava quem conseguisse que a maçã chegasse na boca, para ser mordida, sem usar as mãos. Lembra, Lu?
Luiza então estava sorrindo com a lembrança.
- É. A gente tinha de se contorcer toda, para fazer a maçã andar.
Quem deixasse cair no chão, perdia.
- E vocês conseguiram morder a maçã?
- Conseguimos. Não foi fácil, mas conseguimos.
- Lembra do casal cearense, Lu?
- Lembro! Ela foi ajudar com o joelho e acabou acertando o marido bem no...
Bem ali.
- E ele saiu pulando e gritando "Mulher, não maltrate o que é seu!"
Os dois deram risadas, depois Antônio ficou sério e disse:
- Bom, mas chega de lembranças. Vamos fazer essa mudança. Se o senhor quiser pode ficar com a taça, seu Molina.
- Eu não. Uma lembrança destas, de um tempo tão alegre... Nenhum de vocês quer ficar com ela, mesmo?
- Está bem, eu fico.
Antônio e Luiza tinham falado ao mesmo tempo. E se corrigiram ao mesmo tempo:
- Fica você.
- Fica você.
Seu Molina perguntou:
- Vocês têm certeza que não querem pensar mais um pouquinho sobre isto?
- Sobre a taça?
- Sobre a separação. Só mais alguns dias. Depois nos chamem para fazer a mudança. Ou não nos chamem.
Arlei sacudiu a sacola com os CDs e acrescentou:
- Assim vocês têm mais tempo para pensar na divisão dos CDs. Na minha experiência, a divisão dos CDs é sempre o que dá mais problemas, depois.
Luiza e Antônio estavam se olhando.
- O que você acha? - perguntou Luiza.
- Não sei... - disse Antônio.
Seu Molina e Arlei saíram e fecharam a porta em silêncio e deixaram os dois conversando.
...
Naquela noite, depois do amor, Luiza perguntou a Antônio de onde tinha saído aqueles dois, Arlei e seu Molina, e Antônio respondeu que os escolhera ao acaso, na rua. Eles tinham um caminhão com uma placa do lado: "Mudanças, carreto, etc."
- Bendito et cetera - disse Luiza, puxando o Antônio de novo.




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