08 janeiro 2010

...é preciso saber viver...





...aproveitar a vida o melhor que se pode, ou ver sempre o lado do copo meio cheio, foi algo que eu aprendi nos últimos tempos. Sou pessimista por natureza, mas ultimamente, creio que tenho aproveitado muito melhor cada dia. Sempre fui demasiado exigente comigo mesma e de facto, isso sempre me fez trabalhar muito mais do que os meus colegas, porque tinha que fazer tudo da melhor forma, mesmo que isso me roubasse horas de sono e me desgastasse fisicamente.

Nos últimos anos, com sintomas anormais, que supostamente não tinham outra causa a não ser o stresse, a ansiedade e a falta de descanso, a "máquina" foi-se desgastando rapidamente - física e mentalmente.

Depois da insistência de alguns amigos, que tiveram a pachorra de me aturar nas alturas de crise e me deram forte e feio na cabecinha, como aliás merecia, no Verão passado decidi dar uma reviravolta à minha Vida: decidi VIVER e não apenas sobreviver. Que era o que me estava a acontecer: sobrevivia, submersa em trabalho, sem tempo para nada, nem para as pessoas que amo.

E estou a conseguir conciliar as duas coisas: o trabalho, sempre a empilhar-se, por mais que trabalhe, parecendo que a fonte é inesgotável, e a minha vida pessoal, sem deixar esta última tomar sempre o último lugar da fila. E deixei de ser tão exigente comigo mesma: não consigo fazer milagres e não consigo impossíveis. Tento dar o meu melhor, mas tenho que ter a conciência de que tenho limitações como qualquer pessoa e de que tenho vida própria... e principalmente, que preciso de descansar. Dentro do tempo que tenho, talvez não consiga fazer tudo o que esperariam de mim, mas muito sinceramente, também não vejo muitos a conseguir fazer omoletes sem ovos, como eu tantas vezes tento fazer.

Hoje tive a minha consulta de rotina e encontrei uns dos "companheiros" que conheci nestas andanças. E de facto, a vida que levamos e a forma como encaramos a vida - com mais ou menos optimismo - determina a forma como controlamos a doença. Um deles tem uma boa disposição natural, nunca o vi nos últimos 5 anos sem ser com um sorriso nos lábios e é de facto o que têm melhores valores. Diria mesmo que é um caso exemplar...

Já a Lena, teve a infelicidade de não ser seguida convenientemente desde o inicio. Tem tido uma série de complicações - os tais fantasmas que nos atomentam desde o ínicio: retinopatia, nefropatia, angiopatias periféricas - apesar de ser bastante lutadora, talvez por feitio, talvez em consequência dos problemas de saúde, ou talvez por ambos, vê sempre as coisas pelo lado negativo.

Hoje, tivemos a boa notícia que finalmente os catéteres para a bomba infusora nos seriam fornecidos gratuitamente. O David veio da consulta todo contente - afinal, são menos uma centena de euros todos os meses que se poupa.

Encontrei a Lena, no final da minha consulta, chateada porque estava à espera da enfermeira responsável pela parte das bombas infusoras e todo o material relacionado. Comecei logo a brincar com ela, dizendo-lhe que o almoço podia esperar uns minutitos, porque naqueles minutos ganharia mais do que na semana de trabalho, e com muito menos esforço: catéteres para 3 meses, correspondem a 360 euros... felizmente, ela entrou facilmente na brincadeira e chegámos à conclusão que pagando tudo - consulta, análises, catéteres, reservatórios - poupariamos mais do que o salário de muito portugueses... ao final de 2 anos de espera, finalmente temos direito ao material de que necessitamos todo os dias para conseguirmos fazer a nossa vida.

Embora pareça ser um equipamento de luxo (e de facto, na altura em que comprei a bomba infusora, em 2003, paguei mais pelo pequeno brinquedo que trazia no bolso do que valia o meu carro), é indispensável para ter o mínimo de qualidade de vida. Há 6 anos, não sabia se iria conseguir acordar e ir trabalhar ou se iria acordar no hospital. Este brinquedozinho mudou a minha vida.

Só é pena que em Portugal se continue a encarar a Diabetes como uma doençazita sem muita importância e a maioria do médicos nos Centros de Saúde e Hospitais deste país nem sequer tenham o mínimo de conhecimentos sobre a doença e necessidades de controlo. Neste momento, cerca de 10% da população portuguesa tem Diabetes mellitus ou está em situação de risco de vir a sofrer da doença nos próximos 2 ou 3 anos. E a incidência tem aumentado grandemente nos jovens... Fala-se tanto das pandemias virais, esquecemo-nos desta situação de pandemia escondida e com resultados desastrosos e que afectam e muito a vida que nos resta...



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