...há momentos em que uma pessoa se sente reconhecida aos objectos pelo simples facto de estarem connosco...
Ontem havia uma única mesa por ocupar num dos restaurantezecos onde como: apenas ao sentar-me dei conta que ficava diante de um espelho e portanto almocei comigo. De vez em quando olhava-me com estranheza de ser aquele e não nos falámos, claro. Vi--me a mastigar, a mexer nos talheres, a pegar no copo: um desconhecido para mim: as mãos, os gestos, a cara opaca: não tínhamos nada a dizer um ao outro, de que raio de assuntos podíamos conversar? Nem sequer o observei com estima e a companhia não me foi especialmente agradável. A pergunta sincera
- Sou isto?
a resposta sincera
- Não me interessa nada ser isto
e a surpresa de ser isto o que os outros conhecem. Por um momento pensei em experimentar um sorriso para verificar como sorrio, desisti. E a minha vida apareceu--me tal como é, sem importância alguma: se aquele ali morresse que diferença me fazia? E, conforme sucede cada vez mais nos últimos tempos, a tentação do nada. Um cheiro de Natal por toda a parte: quero passá-lo sozinho: compro umas coisas para me alimentar, fico aqui com um livro, não me aborreço sequer. Nunca me aborreço desde que não haja espelhos à minha frente. Não escrevo nada: as crónicas que sairão para o ano estão entregues, o texto que sairá em 2011 a ser batido no computador para continuar a corrigi-lo: não há espaço nas páginas para mais emendas de tão alterado que está, o pobre. Quando o acabar três ou quatro meses sem fazer seja o que for, à espera. Depois decido. O futuro não me preocupa, sob esse ponto de vista. Sei que a minha obra vai sobreviver ao tempo e não sinto o menor orgulho, a menor vaidade nisso. O reconhecimento, os prémios, o tarantantã que acompanha o êxito é-me igual ao litro. Aos quinze, aos vinte anos desejei-o imenso: quero lá saber dele hoje em dia. A varanda da sala onde junto estas palavras está fechada e contudo parece--me existir vento nas coisas. Uma suspeitinha de sol. Um homem veio contar a luz, foi-se embora: terá sido ele quem deixou o sol aceso? A cara tão gasta quanto os sapatos, o blusão cinzento, a mão a anotar números num bloco. Um soslaio às estantes, intrigado. Diz
- Bom dia
e desaparece, um
- Bom dia
mecânico, vazio. Dias vazios. Nem compridos: vazios só. O sol apanhou as folhas de uma árvore e demora-se por ali, a cortina acende-se um bocadinho. Que silêncio. Este andar tem-me feito companhia, é amável, parece tomar conta de mim. Obrigado, andar. Há momentos em que uma pessoa se sente reconhecida aos objectos pelo simples facto de estarem connosco. A mesa, por exemplo, o sofá. Chegam catálogos das editoras, com a minha fotografia e o relambório do costume. Na minha cabeça fragmentos dispersos de imagens, diálogos. Perto, calhamaços sobre literatura alemã medieval, não sei o que me deu para me interessar por ela. Um autor, em 1400, a propósito do ofício de escrever: o meu arado é feito do vestuário dos pássaros. Talvez estes artiguinhos não sejam assim tão vãos, posso usá-los como uma forma de diário, eu que jamais fiz diário algum: sou uma agenda de argolas, vou passando as folhas: já passaram quase todas, sobra um restinho. Mas a gente consegue fazer batota, se for preciso, e passá--las todas de repente. De qualquer maneira passarão de repente. Andei um pouco pelo país, nestes últimos tempos. Quartos de hotel. Pessoas.Assinar os livros que fiz com o vestuário dos pássaros. Depois permanecia um bocado na cama, vestido, a fixar o tecto. Desde que me conheço
(que expressão tão idiota)
levo que tempos de nariz no tecto enquanto, na ideia, gira um caleidoscópio de cores, luzes, frases, emoções. Um senhor, uma ocasião, a abrir-me a porta do carro quando eu saía da escola
- Como te chamas, menino?
careca, num risinho esquisito: nunca corri tão depressa para casa. Se os meus pais tivessem trinta anos, ou nem isso, como nessa época, era o que eu fazia agora. De calções, e com a mochila dos livros e dos cadernos às costas, desatava a correr até ao portão do jardim, subia as escadas para o quarto de banho e lavava o que, da minha cara, podia estar ainda do risinho esquisito. Saiu todo, com água fria e sabonete, porque, graças a Deus, nem um rastro do senhor no espelho do restaurante. Já não é mau, pois não?
- Sou isto?
a resposta sincera
- Não me interessa nada ser isto
e a surpresa de ser isto o que os outros conhecem. Por um momento pensei em experimentar um sorriso para verificar como sorrio, desisti. E a minha vida apareceu--me tal como é, sem importância alguma: se aquele ali morresse que diferença me fazia? E, conforme sucede cada vez mais nos últimos tempos, a tentação do nada. Um cheiro de Natal por toda a parte: quero passá-lo sozinho: compro umas coisas para me alimentar, fico aqui com um livro, não me aborreço sequer. Nunca me aborreço desde que não haja espelhos à minha frente. Não escrevo nada: as crónicas que sairão para o ano estão entregues, o texto que sairá em 2011 a ser batido no computador para continuar a corrigi-lo: não há espaço nas páginas para mais emendas de tão alterado que está, o pobre. Quando o acabar três ou quatro meses sem fazer seja o que for, à espera. Depois decido. O futuro não me preocupa, sob esse ponto de vista. Sei que a minha obra vai sobreviver ao tempo e não sinto o menor orgulho, a menor vaidade nisso. O reconhecimento, os prémios, o tarantantã que acompanha o êxito é-me igual ao litro. Aos quinze, aos vinte anos desejei-o imenso: quero lá saber dele hoje em dia. A varanda da sala onde junto estas palavras está fechada e contudo parece--me existir vento nas coisas. Uma suspeitinha de sol. Um homem veio contar a luz, foi-se embora: terá sido ele quem deixou o sol aceso? A cara tão gasta quanto os sapatos, o blusão cinzento, a mão a anotar números num bloco. Um soslaio às estantes, intrigado. Diz
- Bom dia
e desaparece, um
- Bom dia
mecânico, vazio. Dias vazios. Nem compridos: vazios só. O sol apanhou as folhas de uma árvore e demora-se por ali, a cortina acende-se um bocadinho. Que silêncio. Este andar tem-me feito companhia, é amável, parece tomar conta de mim. Obrigado, andar. Há momentos em que uma pessoa se sente reconhecida aos objectos pelo simples facto de estarem connosco. A mesa, por exemplo, o sofá. Chegam catálogos das editoras, com a minha fotografia e o relambório do costume. Na minha cabeça fragmentos dispersos de imagens, diálogos. Perto, calhamaços sobre literatura alemã medieval, não sei o que me deu para me interessar por ela. Um autor, em 1400, a propósito do ofício de escrever: o meu arado é feito do vestuário dos pássaros. Talvez estes artiguinhos não sejam assim tão vãos, posso usá-los como uma forma de diário, eu que jamais fiz diário algum: sou uma agenda de argolas, vou passando as folhas: já passaram quase todas, sobra um restinho. Mas a gente consegue fazer batota, se for preciso, e passá--las todas de repente. De qualquer maneira passarão de repente. Andei um pouco pelo país, nestes últimos tempos. Quartos de hotel. Pessoas.Assinar os livros que fiz com o vestuário dos pássaros. Depois permanecia um bocado na cama, vestido, a fixar o tecto. Desde que me conheço
(que expressão tão idiota)
levo que tempos de nariz no tecto enquanto, na ideia, gira um caleidoscópio de cores, luzes, frases, emoções. Um senhor, uma ocasião, a abrir-me a porta do carro quando eu saía da escola
- Como te chamas, menino?
careca, num risinho esquisito: nunca corri tão depressa para casa. Se os meus pais tivessem trinta anos, ou nem isso, como nessa época, era o que eu fazia agora. De calções, e com a mochila dos livros e dos cadernos às costas, desatava a correr até ao portão do jardim, subia as escadas para o quarto de banho e lavava o que, da minha cara, podia estar ainda do risinho esquisito. Saiu todo, com água fria e sabonete, porque, graças a Deus, nem um rastro do senhor no espelho do restaurante. Já não é mau, pois não?





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