07 março 2010

...Os homens ainda sabem pouco do amor. E as mulheres também...


O desbaste


O mais fiel contraceptivo feminino é a falta de depilação. Não sei como é que a Igreja nunca se lembrou disto.

Uma mulher tem um encontro agendado. Ela própria decide o destino dessa noite. Há uma forma infalível de haver sexo: havendo vinho na mesa. (Eu vou pelo vinho, porque é um álcool digno.) O maldito álcool resgata a malícia escondida que há em nós. Abre-se como uma flor perante a luz. Desabrocha tão repentinamente que assusta. O despudorado álcool traz à ribalta garanhões onde antes só havia príncipes. Galdérias onde outrora só habitavam fadas (do lar). É também por isto que as pessoas bebem. É também por isto que muitos não o ousam fazer. Eu gosto do meu tinto. E quando o bebo sou uma canoa frágil levada pela corrente. Esta parte era linda, mas vou ter de voltar aos pêlos…

Temos uma bela mulher em frente ao espelho. Veste e despe. Torna a vestir e a despir. Encontra, por fim, a farpela digna de ser arrancada à dentada pelo acompanhante dessa noite. Antes de a vestir, vê esses pequenos e maléficos inimigos a espreitar por entre os collants sedosos: são os pêlos. É a praga. Nesse momento, a mulher entra num pequeno monólogo que eles já não podem ouvir: tece considerações sobre a pessoa que a levará a jantar, encontra motivos tão válidos quanto estúpidos para não lhe dar o que ele quer: sexo. Ela quer e sabe também que ele a deseja, mas tem medo que ele ache que ela é mais uma «fácil». O medo que as mulheres têm disto!

É então que elas procuram nos seus inimigos um aliado. As mulheres fazem isto com as anteriores deles e com os pêlos delas…

O pêlo passa a ser o barómetro do encontro. Espreite singelamente pela meia, ou mostre a sua garra, o pobre pêlo é o culpado de tudo: mais tarde, a mulher irá invocar a falta de depilação para castigar o seu parceiro, não percebendo que é a si própria que se está a penitenciar.

Imaginemos a saída, o jantar aprazível, uma perna que toca na outra, timidamente (felizmente, os pêlos não são assim tão bravos que façam a perna dele retrair-se…). Bebem e conversam, meu Deus, são almas gémeas! (O clássico de todos os primeiros encontros ao fim da primeira garrafa de vinho…) Saem do restaurante rumo a um bar decadente, o que tem muita piada porque querem é dar os primeiros beijos. E dão. Forte e feio. Muitas bebidas brancas e algum rubor depois, ele diz que na manhã seguinte trabalha e se a pode levar a casa. Ela diz que sim. No carro ouvem um disco que parece perfeito para essa noite – são sempre muito bons, mesmo que dias depois se tenha de esquecer a música para não partir o resto do coração…

Ficam junto à casa dela a dar uns beijos e mais qualquer coisa que nem o excesso alcoólico fará esquecer. Ele pergunta-lhe ao ouvido porque é que ela não o convida para subir. Ela ri-se e pergunta-lhe se afinal amanhã ele não tem de trabalhar. Ele ri-se e diz que não se importa de ir sem dormir. É então que o pêlo ataca. O pêlo é como um bombeiro que ouve o sinal de alarme e desce o varão enfiando o uniforme. O pêlo apercebe-se de que há ali animação e puxa pela voz lembrando a dona da sua presença. Ela, tristemente desolada, diz ao rapaz que não pode ser, que é ela quem tem de ir dormir porque o trabalho é muito e o patrão não perdoa. E, a cambalear, despede-se. O pêlo (e toda a família, que é muita) vai feliz, assobiando (não se ouve, claro; de qualquer forma, ela está bêbada e é possível que oiça muitas coisas).

No dia a seguir, ela acorda e pensa, «porra, eu tenho de fazer a depilação!»
Vai à esteticista e o rapaz nunca mais lhe liga.
Há demasiadas histórias de depilação com final trágico. Os homens ainda sabem pouco do amor. E as mulheres também.

Oh God, make me good, but not yet!

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