02 abril 2010

...são a esperança que aprendeste nos olhos de um povo triste...



Serras, veredas, atalhos,
Fragas e estradas de vento,
Onde se encontram retalhos
De vidas em sofrimento

Retalhos fundos nos rostos,
Mãos duras e retalhadas
Pelo suor do desgosto,
Que talha as caras fechadas

O caminho que seguiste,
Entre gente pobre e rude,
Muitas vezes tu abriste
Uma rosa de saúde

Cada história é um retalho
Cortado no coração
De um homem que no trabalho
Reparte a vida e o pão

As vidas que defendeste,
E o pão que repartiste,
São água que tu bebeste
Dos olhos de um povo triste

E depois de tanto mundo,
Retalhado de verdade,
Também tu chegaste ao fundo
Da doença da cidade

Da que não vem na sebenta,
Daquela que não se ensina,
Da pobreza que afugenta
Os barões da medicina

Tu sabes quanto fizeste,
A miséria não se cura,
Nem mesmo quando lhe deste
A receita da ternura

Cada história é um retalho
Cortado no coração
De um homem que no trabalho
Reparte a vida e o pão

As vidas que defendeste,
E o pão que repartiste,
São a esperança que aprendeste
Nos olhos de um povo triste

(José Carlos Ary dos Santos)





...embora me irrite a voz da Luanda Cozetti, não consegui encontrar este tema na voz de outra pessoa. Este poema sempre me fez ficar com pele de galinha e com a lágrima ao canto do olho. Não é fácil imaginar o outro Fernando Namora, o "João Semana" ou médico de família num meio pobre formado por diversas aldeias na zona da Raia. Lembro-me de Monsanto, Penha Garcia, Ladoeiro, Zebreira, Medelim e outras aldeias raianas na minha infância e recordo-me das imensas dificuldades das pessoas há 35 anos atrás. Lembro-me da série "Retalhos da Vida de um Médico" na RTP, há 30 anos, e as cenas descritas de há 20-30 anos (1950-65) atrás continuavam a ser bastante actuais, tanto que conseguia imaginar pessoas que conhecia como personagens daquela série, porque as vivências e os problemas eram muito semelhantes...

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