...reencontros...
...hoje, ao fim de muitos anos, vi uma das minhas amigas de infância e o abraço ternurento encheu-me de felicidade. Há coisas que não mudam e há pessoas que são fantásticas, como a V.
Costumava brincar com ela e com a Lena, a irmã mais velha. Eram as duas muito carinhosas e eu sentia-me uma princesa, porque me davam mais mimo a mim que à irmã mais nova, que era da minha idade (e tinha um feitiozinho pior que meu, se é que isso é possível). A Lena era especial: lindíssima, de olhos amendoados, delicada, de longos cabelos loiros. A V. tinha cabelo encaracolado, era bastante morena, muito tímida mas doce. Eram netas da minha avó do coração.
Em Junho de 1977, lembro-me da Lena na apanha das batatas na quinta dos meus avós. Tinha 15 ou 16 anos e era bem mais velha do que eu. Eu tinha uma admiração imensa por ela. Depois de almoço, fez-se uma pausa breve por causa do calor estival. Lembro-me que durante mais de uma hora me esteve a contar histórias, a ensinar jogos e a pentear-me.
Foi um dia exaustivo. No final do dia, apercebi-me que tinha ficado com um elástico da Lena no meu cabelo. "Devolves amanhã quando chegarmos", disse-me a minha mãe, ao deitar-me.
No dia seguinte, ao fim da tarde, quando cheguei com os meus pais, mal entrei em casa para ir buscar o elástico e avisei a minha mãe que lho ia devolver. Fui sozinha. Eram 6 casas acima da minha, num tempo em que as chaves de casa ficavam na fechadura e as portas entreabertas. No tempo em que se funcionava como comunidade nas aldeias portuguesas.
Bati à porta. Aparece-me a mãe, com lágrimas nos olhos. Não era uma situação anormal naquela casa. O pai da Lena era austero e agressivo. Hoje isso teria outro nome. Naquele tempo, não se falava de violência doméstica - mas todos sabíamos que havia e onde. Raramente se actuava.
Mal me abriu a porta, disse-lhe "venho dar o elástico do cabelo à Lena". "A Lena está ali, na sala". Corri pelas escadas. Mal entro na sala, deparo-me com a Lena num caixão branco. Lembro-me que desatei a gritar "Nãããoooo!!!!" e a correr escada abaixo.
A Lena tinha reprovado de ano. Decidiu suicidar-se com "605 Forte" a ter de enfrentar o pai. Pelo menos foi essa a versão que correu. O paratião levou a minha Lena. Demorei muito tempo até conseguir falar no assunto. Cada funeral a que vou desde então lembro-me do horror que vivi naquele dia.
Antes desse dia, era vulgar passarmos na capela a deitar água nos defuntos, quando vínhamos da escola primária. E até aí nunca tive problema com a morte. Era normal e a morte levava os tios, os bisavós, às vezes os avós ou outras pessoas de idade ou muito doentes; e por vezes crianças. Nesse tempo, a mortalidade infantil em Portugal era elevada. Mas ter-me levado a Lena e a forma como recebi a notícia deixou marcas que acho que nunca consegui superar.
Depois disso, a minha ligação com a V. tornou-se mais estreita. Uns cinco anos depois, ainda adolescente, a V. casou com alguém que nunca a tratou bem nem nunca soube ver o doce de pessoa que tinha ao lado dele e a proibia de conviver com quem fosse. Literalmente, foi como dar "uma pérola a um porco". Felizmente, as filhas têm sido boas companheiras. Felizmente, aos pouco foi-se libertando dessa clausura. Embora não totalmente...
E hoje, o acaso tornou o meu dia verdadeiramente especial com este reencontro bom...
(e sim, a minha reciclagem nos últimos tempos permitiu guardar estes momentos especiais)
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