09 julho 2009

...as saudades têm número de porta e nome de rua... e contra isso não podes fazer nada....




Acredito nos fins irreversíveis. Acredito na impossibilidade real do encontro, no poder afirmativo da ausência, no esbatimento das lembranças, hoje inteiras amanhã pela metade como frescos por restaurar, pedaços de asas de anjo em tectos abobadados, bocados de tinta e estuque que se soltam de nós com o passar oxidante do tempo. Acredito no dedo que se contrai antes do send, no delete antes do envio, no move to draft, nas palavras em suspenso no nada. Acredito no SMS não enviado, no telefonema que não chega a ser feito, no nome que fica na lista, perdido entre os contactos profissionais. Acredito no dito que nunca será dado pelo não dito, na vida que continua a esgalgar-se à nossa frente, nos homens e nas mulheres que nos apagam e apagarão de vez um do outro. Acredito nos teus e nos meus amores maiores, nas opções certas e na determinação da escolha. Acredito que se pode jogar e ganhar, mesmo quando se pensa que se perde, e também creio no inverso: que às vezes se perde mas se está convencido de que se ganhou. No entanto, não acredito numa única palavra do que me disseste para além daquilo que é a verdade. Vais sentir-me em ti durante algum tempo, a revolver-te os órgãos internos e a retirá-los aos bocadinhos com uma colher nalgumas das noites em que ficares acordado, a enfiar-te agulhas nas plantas dos pés quando estiveres em casa ao domingo porque está a chover, e a aparecer-te no espelho retrovisor quando olhares por cima do ombro a ver se podes ultrapassar. Exagero? Talvez. Afinal, podes já ter esquecido muito entretanto, atropelado pela realidade, mas aposto que ainda te lembras da minha tendência para o drama quando aqui chego. E as saudades (essas) são reais e não são só minhas. As saudades têm a forma de mesas de esplanada, reflectem-se num copo alto com gelo derretido dentro, num carro velho impregnado de vestígios do crime, num café esquecido que arrefeceu na chávena e no prato do dia partilhado numa tasca. As saudades têm número de porta e nome de rua. E contra isso não podes fazer nada.










...eu acredito que alguns finais são reversíveis... aliás, custa-me entender como é que duas pessoas que partilharam momentos únicos de uma vida, entre as quais havia uma enorme cumplicidade, parecendo que se conheciam desde sempre, de repente parece que se tornaram perfeitos estranhos... posso ser estupidamente ingénua (ou ingenuamente estúpida, talvez), mas acredito que quando há uma amizade verdadeira, podemos ficar separados imenso tempo mas quando nos reencontramos parece que não passou tempo nenhum e sentimos que estamos "em casa"... podemos separar-nos por causa de contratempos, mas conseguimos sempre resolver a situação e tornar a amizade ainda mais forte... e de facto, no último ano reencontrei alguns amigos que voltaram a fazer parte da minha vida como antes, ocupando o lugar que sempre foi seu...




...e quando não há hipótese de reverter o processo, e num dado momento nos separamos e se desfaz tudo o que de bom parecia ter sido construído???Aí, pode ter havido companheirismo, foram colegas, compinchas, nunca foram AMIGOS... porque os AMIGOS custam a encontrar, mas jamais se perdem... como alguém tem no msn hoje "Amigos são como o vento... às vezes perto, outras vezes longe, mas sempre no coração"...




1 comentário:

Mafalda disse...

Adorei o texto

"As saudades têm número de porta e nome de rua. E contra isso não podes fazer nada"

beijo