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28 março 2010

...já elas precisam de viver a vida inteira para ganhar uns minutos da atenção deles...

O amor na ponta dos pés

OS HOMENS são mais egoístas do que as mulheres, não são? Esta pergunta é certeira para atrair clientela: eles furiosos a acharem que estou novamente amarga e elas contentes por haver quem dê voz ao que sentem. Vocês poder-me-ão contar as vossas experiências, mas há um dado que não falha: as mulheres são quase sempre cuidadoras, mesmo que a carreira lhes tenha subido à cabeça, mesmo que não lhes interesse ter família ou filhos. Elas cuidam, e há quem queira ser cuidado, mesmo que não faça nada por merecer isso…

Há duas imagens recorrentes no meu quotidiano, homens que mastigam em silêncio à mesa (saciando o apetite, como se essa necessidade primária fosse a razão da sua existência) e taxistas mudos (desculpem-me os verdadeiros) que vêem uma mulher entrar no carro (às vezes carregada de compras e crianças) e nem um «boa tarde» oferecem aos passageiros. Se eu andasse com uma pá das obras na carteira dava-lhes com ela na cabeça. Estes homens assustam-me: não vejo diferença entre os antepassados da caverna e estes – cuja única diferença parece ser capilar…

O silêncio dos homens nem sequer é inquietante. É só aborrecido. É um silêncio que denuncia desinteresse, preguiça, fastio (mesmo que engulam a dobrada em cinco minutos). Dir-me-ão vocês: «Mas eles não foram educados de outra maneira!» Pois é verdade, mas os dias sucedem-se para questionarmos a vida e tudo o que ainda não aprendemos. Não terão as mulheres culpa do egoísmo dos homens?! Se Deus existisse (permitam-me duvidar da sua existência), pedia-lhe paz no mundo e mais homens heterossexuais (desculpem-me os gays, mas as minhas amigas precisam de companheiros). Sim, bastava haver mais homens para as mulheres sossegarem. Mesmo que depois elas não os quisessem, e provavelmente era isso que aconteceria…

Esta ideia generalizada de que há poucos homens disponíveis tornou-se a maior angústia das mulheres. Elas vivem aterrorizadas a pensar se os poucos que ainda «sobram» vão reparar nelas. E portanto disponibilizam-se para sofrer. Oferecem o seu corpo e a sua devoção aos trogloditas do planeta. Pensam que pelo menos assim têm qualquer coisa, mesmo que seja tudo uma consumição. Aceitam comprar-lhes as meias e as cuecas, os impressos do IRS, o lanche para o trabalho, os preservativos para a noite (duvidando se só os usarão com elas…).

Já os homens, coitados, pressionados pelas quadras festivas (e hediondas!) do Dia dos Namorados, do aniversário (que os telemóveis já fazem o favor de lembrar) ou do Natal, acabam num ataque de nervos a telefonar da loja – quando tudo indicava que seria uma surpresa, a dizer coisas como: «É pá, estou aqui em frente a uns sapatos, mas eu sei lá que número tu calças!» Às vezes já passaram dez anos e ele ainda não fixou o número que ela calça, enquanto as últimas 397 jornadas da bola estão na ponta da língua… Sabem o que acontece? Ela olha para as colegas, enternecida, e diz: «Que querido, foi comprar-me uma prenda.» E então apressa-se a ir comprar o marisco que ele gosta, o filme que ele grunhiu querer ver, o vinho branco que ele disse ter bebido com os colegas.

Será que os homens têm um problema de memória? Será que a mancha do egoísmo que os cobre ensombra quase tudo?
Abusando de Deus, também lhe pediria ? já agora ? para acabar com o futebol. Vocês já pensaram no tempo que se perde com os jogos, as lesões, as contratações e as guerras nos túneis, mais a pancadaria nas estações de serviço? Privem os homens de bola, obriguem-nos a pensar com a cabeça em vez de sentirem com os pés. No fundo, eles têm com a bola a mesma relação que elas têm com os homens: uma obsessão desigual. Eles idolatram os craques da bola que ganham com um arroto aquilo que eles nunca ganharão a vida toda. Já elas precisam de viver a vida inteira para ganhar uns minutos da atenção deles.


Oh God, make me good, but not yet!


...o pior, é que mesmo os que não gostam de futebol (e sim, há gajos desses, também!!), são tremendamente egoístas... talvez ainda mais, diz-me a voz da experiência... e lembrei-me do "Toca e Foge"...



13 março 2010

...qualquer dia estarei a amar criaturas azuis em vez de desejar a aspereza do Clint...


Um equilíbrio de forças

Escrevo esta crónica no dia em que se conheceram os vencedores dos Óscares – a cerimónia que estranhamente não faz companhia aos padeiros e que mais pipocas fará vender nos próximos meses. Eu não vi, mas quando acordei senti um secreto orgulhozinho na vitória de Kathryn Bigellow, especialmente por aquilo que já todos sabem, o facto de ter sido casada com James Cameron.

Cameron tem ar de banana. Tem, tem! É chato dizer isto de um tipo que fez que milhões em todo o mundo fossem ao cinema ver criaturas azuis. Na Avenida dos Aliados, uma vez por ano, também costumava haver gente pintada de azul. Infelizmente parece que este ano não há…

Voltemos a Cameron: quando soube que Bigellow tinha sido casada com ele, dei por mim a pensar na quantidade de mulheres fortes (ou aparentemente fortes) que são casadas ou vivem com tipos com ar de totós. Tipos que vacilam (embora quase todos os homens vacilem), tipos que mesmo encostados à parede ainda dizem: «talvez», «não sei», «e tu o que achas?». Cameron se calhar até foi o melhor homem que ela alguma vez teve, mas isso não lhe retira o ar pachorrento e domado. Deve ter sido na altura de Bigellow que Cameron pôs Di Caprio a dizer: «I’m the king of the world!»…


Porque é que mulheres destas precisam de homens vulneráveis é um mistério. E talvez contra mim fale, contra mim e contra todas vocês que arranjaram um Cameron man.
Porque é que um tipo, um cowboy Marlboro, não pode ser o equilíbrio de uma Jodie Foster? Jodie Foster não foi um bom exemplo… Manuela Ferreira Leite? Também não… Pensem numa empresária nortenha de sucesso, daquelas que fazem o mundo e a fábrica avançar. São mulheres que acordam antes deles, que põem a cozinha e a família a mexer, que compram lingerie e sofrem na depilação. Agora espreitem o marido delas. Normalmente é um Cameron.

Na vida de um par não há lugar para dois fortes? Um tem sempre de anular o outro? Um tem de permanecer neutro para que o outro brilhe?
Então o amor é injusto, não?

Reparem no caso de Kathryn Bigellow e de James Cameron: mesmo separados, só um deles teve direito à vitória. Não é injusta esta energia que pende sempre para um dos lados?
Pensemos no cowboy Marlboro (gostei de me lembrar dele…), o homem de rugas sulcadas no rosto, hálito de papel, cabelo sem brilho, olhos na sombra… este duro não pode amar uma das amazonas? Tem de socorrer a mulher de ar frágil que busca protecção nos seus ombros e falsamente desmaia? Mas que leis piedosas regem afinal o amor?

Bigellow, a mulher para que todos olham agora questionando-lhe a aparência (boa!), a idade (enxuta!) e o talento (inquestionável), o que terá visto em Cameron quando se enamoraram? Serão as mulheres aparentemente fortes muito mais frágeis do que aquelas que não se dão ao trabalho de fingir? Por essa ordem de ideias, Cameron seria muito mais valente que Clint Eastwood…

O amor é este aborrecido equilíbrio de forças. Fugimos dos sarilhos como do dente à broca. Lembro-me que da única vez em que me liguei a um rapaz sedutor e bem falante me dei mal. Perdi o norte, a lucidez, a razão. Envergonhei os meus amigos que me julgavam forte em todas as circunstâncias. Fraquejei nos braços de um bom vendedor de banha da cobra. Tão bom quanto eu.
Ou seja, Bigellow é que estava certa. (Eu já vejo no futuro um James Cameron à minha espera com uma camisola poveira e um São Bernardo na mão…)

Nós não queremos que o amor nos deixe em estado de guerra. Precisamos de pacificar o coração com gente que seja o outro lado da moeda.
Uma seca de facto.


Qualquer dia estarei a amar criaturas azuis em vez de desejar a aspereza do Clint.

Oh God, make me good, but not yet!

07 março 2010

...Os homens ainda sabem pouco do amor. E as mulheres também...


O desbaste


O mais fiel contraceptivo feminino é a falta de depilação. Não sei como é que a Igreja nunca se lembrou disto.

Uma mulher tem um encontro agendado. Ela própria decide o destino dessa noite. Há uma forma infalível de haver sexo: havendo vinho na mesa. (Eu vou pelo vinho, porque é um álcool digno.) O maldito álcool resgata a malícia escondida que há em nós. Abre-se como uma flor perante a luz. Desabrocha tão repentinamente que assusta. O despudorado álcool traz à ribalta garanhões onde antes só havia príncipes. Galdérias onde outrora só habitavam fadas (do lar). É também por isto que as pessoas bebem. É também por isto que muitos não o ousam fazer. Eu gosto do meu tinto. E quando o bebo sou uma canoa frágil levada pela corrente. Esta parte era linda, mas vou ter de voltar aos pêlos…

Temos uma bela mulher em frente ao espelho. Veste e despe. Torna a vestir e a despir. Encontra, por fim, a farpela digna de ser arrancada à dentada pelo acompanhante dessa noite. Antes de a vestir, vê esses pequenos e maléficos inimigos a espreitar por entre os collants sedosos: são os pêlos. É a praga. Nesse momento, a mulher entra num pequeno monólogo que eles já não podem ouvir: tece considerações sobre a pessoa que a levará a jantar, encontra motivos tão válidos quanto estúpidos para não lhe dar o que ele quer: sexo. Ela quer e sabe também que ele a deseja, mas tem medo que ele ache que ela é mais uma «fácil». O medo que as mulheres têm disto!

É então que elas procuram nos seus inimigos um aliado. As mulheres fazem isto com as anteriores deles e com os pêlos delas…

O pêlo passa a ser o barómetro do encontro. Espreite singelamente pela meia, ou mostre a sua garra, o pobre pêlo é o culpado de tudo: mais tarde, a mulher irá invocar a falta de depilação para castigar o seu parceiro, não percebendo que é a si própria que se está a penitenciar.

Imaginemos a saída, o jantar aprazível, uma perna que toca na outra, timidamente (felizmente, os pêlos não são assim tão bravos que façam a perna dele retrair-se…). Bebem e conversam, meu Deus, são almas gémeas! (O clássico de todos os primeiros encontros ao fim da primeira garrafa de vinho…) Saem do restaurante rumo a um bar decadente, o que tem muita piada porque querem é dar os primeiros beijos. E dão. Forte e feio. Muitas bebidas brancas e algum rubor depois, ele diz que na manhã seguinte trabalha e se a pode levar a casa. Ela diz que sim. No carro ouvem um disco que parece perfeito para essa noite – são sempre muito bons, mesmo que dias depois se tenha de esquecer a música para não partir o resto do coração…

Ficam junto à casa dela a dar uns beijos e mais qualquer coisa que nem o excesso alcoólico fará esquecer. Ele pergunta-lhe ao ouvido porque é que ela não o convida para subir. Ela ri-se e pergunta-lhe se afinal amanhã ele não tem de trabalhar. Ele ri-se e diz que não se importa de ir sem dormir. É então que o pêlo ataca. O pêlo é como um bombeiro que ouve o sinal de alarme e desce o varão enfiando o uniforme. O pêlo apercebe-se de que há ali animação e puxa pela voz lembrando a dona da sua presença. Ela, tristemente desolada, diz ao rapaz que não pode ser, que é ela quem tem de ir dormir porque o trabalho é muito e o patrão não perdoa. E, a cambalear, despede-se. O pêlo (e toda a família, que é muita) vai feliz, assobiando (não se ouve, claro; de qualquer forma, ela está bêbada e é possível que oiça muitas coisas).

No dia a seguir, ela acorda e pensa, «porra, eu tenho de fazer a depilação!»
Vai à esteticista e o rapaz nunca mais lhe liga.
Há demasiadas histórias de depilação com final trágico. Os homens ainda sabem pouco do amor. E as mulheres também.

Oh God, make me good, but not yet!