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22 junho 2007

..::DESTINO::..


... às vezes o DESTINO, prega-nos algumas partidas... sobre a última já passaram 15 dias e a vida começa a regressar ao normal, apesar de faltar alguma coisa... (ainda não consegui apagar o número nos telemóveis, nem as últimas mensagens...).

Uns tempos antes, o destino pregou-me outra surpresa... esta bastante mais agradável, embora me deixe muito confusa... e acho que as confusões de sentimentos e de ideias transparecem aqui pelo Pendulices. Pelo menos foi o que me disse o meu amigo Alberto... e os AMIGOS não são aqueles que passam o tempo ao nosso lado, que almoçam e jantam connosco, mas acabam por ser pessoas distantes, a quem o nosso verdadeiro eu pouco interessa... mas aqueles que mesmo estando longe, adivinham o que pensamos e sentimos, por pequenas coisas que dizemos... ("às vezes basta cruzar um olhar... e já está...").

Cá vai mais um mimo do Alberto... depois queixem-se do meu mau feitio... :-D






EM FRENTE! SEMPRE EM FRENTE!

Não são céus sem nuvens que nos prendem
E fazem que o olhar se perca neles
Não são nos tempos fáceis que impeles
O barco em frente, (e poucos compreendem)

Há sempre muitas coisas que transcendem
Que fazem que perguntes, que interpeles:
Que busques quem te oiça, te rebeles –
Que aqueles que acreditam, não se vendem!

Em tempos que te fazem estar aflito
Com um querer que é nosso, cru e puro
Dizemos, hoje e sempre – fique escrito!

É quando o céu se tolda e torna escuro
Que soltamos destemidos, este grito:
Em frente! Sempre em frente! Ao futuro!


-
Alberto Malheiro-



10 junho 2007

...mimos...


Há alturas em que os "mimos" dos amigos nos ajudam a seguir em frente... e nos últimos dias, recebi bastante mimo... como dizia a prenda que a Bruxinha me deu em Peniche "Deus deu-nos os parentes... mas ainda bem que podemos escolher os amigos!!". (e eu creio ter feito escolhas bem acertadas... )


Hoje recebi um outro mimo de um amigo (e da família :-) )... cá vai...




"Não tens sangue nas veias: tens um rio
Que corre sem ter foz e que te chama
Ao mar, ao céu, ao vento: à cruel trama
Que fez do teu destino seres navio

Das preces que fizeste houve fama
Que o deus a quem rezaste não ouviu
E assim caiu um corpo quedo e frio,
E assim secou a alma que te inflama

E onde outros são estrelas, és firmamento
Por onde outros se movem, és movimento
És vento que se perde numa estrada

És prado sem ter fim, lezíria nua
Montanha solitária, rocha crua
És ave sem repouso – e sem morada

06 abril 2007

Todos somos Deuses

Chegara finalmente o temido ano que a profecia chamara de cólera de Suze. Era certo que ninguém se lembrava de quando fora feita a profecia, menos ainda de quando haviam sucedido os factos que se iriam de novo desencadear – tal acontecera muito antes de estar vivo qualquer dos velhos, nem dos velhos dos velhos dos velhos. Mas o ano chegara e era o ano da cólera de Suze – pois assim havia sido escrito.

Agora, como então, tudo se passaria de novo, pois os ciclos devem ser cumpridos, para que tudo possa permanecer igual – essa era a sabedoria dos velhos, e essa sabedoria não era sequer comentada, muito menos contestada. Neste ano, a cólera manifestar-se-ia e isso era bom: os justos viveriam, e gerariam os próximos filhos de Suze e os iníquos seriam extirpados do planeta. Muitos morreriam, poucos eleitos permaneceriam, mas não é assim que as melhores sementes prevalecem e geram de si as árvores fortes? Assim o diziam os velhos, assim sucederia.

Zhou, sacerdote cronista, observava a natureza que, quase imperceptivelmente, se agitava. Fazia-o sem emoção nem temor, pois sabia exactamente o que viria. Primeiro o sopro de Suze varreria de imediato os menos precavidos: felizes esses, pois o seu castigo seria suave e entrariam na comunhão de Suze. Era o dia da iniciação do mês brilhante do ano de Seref. Depois as lágrimas de Suze lavariam aqueles que soubessem esconder-se – e não seriam eles os mais castigados. Seria no dia da consolidação do mês brilhante. Finalmente a cólera – quando o fogo purgasse de vez Shanouze. Seria então o dia da colheita do mês brilhante. Três dias e tudo terminaria e começaria de novo.

Tudo isto tinha sido escrito, como era agora a sua vez de escrever, para que um dia outros soubessem o que fazer e como fazer. Fosse essa a vontade de Suze e Zhou morreria. Ou se o desejasse, Zhou ficaria para ensinar os que sobrevivem aquilo que deveriam fazer. Qualquer que fosse a escolha de Suze, deus supremo, cujo nome era sagrado e poucos podiam pronunciar, Zhou aceitá-la-ia, pois há muito tinha sido preparado.

O dia da iniciação do mês brilhante começava com o vento profetizado, e tudo Zhou registava sem qualquer emoção.

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Olhando ao espelho que reflectia a minha imagem, gritei simultaneamente de dor e prazer, à medida que a loção que espalhara queimava a minha face bem barbeada. Sorri: nada para começar um dia, como uma barba bem feita.

10 dezembro 2006

O Privilégio da Morte

Olhei-a bem de frente muitas vezes – mais do que eu poderia ter imaginado algum dia – e nunca ela parou para me prestar atenção. Falo da morte, claro. Algo que para vós é um conceito, um facto que terão de enfrentar num futuro que esperam longínquo, mas que evitam quando a escarnecem, quando a esquecem, enfim, quando evitam pronunciar o seu nome, preferindo as palavras que a possam romancear, torná-la uma quimera, como tantas outras de que é feito o nosso dia a dia.
Mas a morte é, para mim, a realidade e uma necessidade. Talvez não possam compreender… e no entanto, nada seria mais verdadeiro do que esta afirmação. Porque eu vivi, vivo e suponho que hei-de viver com a sua companhia.
Não por escolha minha, acreditem. Não que tenha nisso um prazer desmedido, que seja mórbido. Vivo com o mesmo prazer que vós tendes, pelo tempo que me for concedido.
Tentem compreender: uns têm o dom de ouvir música em tudo o que os cerca, e fazem disso o objectivo da sua vida. Morrem, e tornam – se imortais. Outros transformam em palavras o mais vulgar momento ou situação e essas palavras vivem também para sempre, ao perderem o momento que as criou. Outros, ainda, preferem deixar numa tela, numa rocha, num bloco de mármore o que souberam captar – e com isso conquistaram também o próprio tempo. Terão compreendido que com isso entraram no plano onde ela reina? Se o fizeram, cuidaram de que ninguém o soubesse, para que a magia nunca se quebrasse.
E eu caminho lado a lado com ela – algo que me foi concedido e que eu aceito, como aceitaria a dádiva de escrever, de compor música ou de pintar. Sou o seu cronista, ainda que apenas possa relatar e não penetrar a sua natureza. Sei que ela existe, e sei que ela sabe que eu caminho a seu lado. Mas da mesma forma que eu tenho consciência da minha sombra, também não perco um momento a tentar comunicar com ela. E dessa forma quase absurda, a morte tem consciência que eu existo, e tem consciência que nada mais sou que uma sombra: revelo todos os pormenores da sua existência, revelo tudo o que ela faz com uma exactidão que muitos diriam desconcertante, e aí termina o nosso contacto. É essa a minha maldição e a minha recompensa.
Viverei enquanto houver morte – ou enquanto os homens tomarem consciência do que é a morte. Depois, e cumprida a minha missão, desaparecerei, como desaparece a sombra quando o sol se esconde. Penso que nem sequer de tal tomarei consciência – mas sei que reaparecerei, quando a morte reaparecer.
E assim vivo, dia após dia, não mais que a sombra de uma sombra, até ao dia em que dela obtiver o privilégio da morte.


12 novembro 2006

Sobre(o)nome que esqueci.

Deixa-me assombrar, ensombrar, fazer soçobrar os teus pensamentos. Fazer que desejes que seja noite – porque só então podes verdadeiramente ser livre quando estás presa num rio sem tempo. Deixa que te siga onde tu mesma não ousas penetrar, para que então me sigas onde desejarias ter ido e nunca foste por não saberes desejar. Deixa, enfim, que te sussurre um nome. Um nome tão curto que te custe a compreender todo o seu significado – aquele nome de que já esqueci vogais, para que ninguém mais o possa pronunciar... senão tu.


09 outubro 2006

Ad Eternum (Para sempre)

Às vezes amar é deixar que outro corpo tome o corpo de quem desejamos
Para podermos ficar com o seu espírito, para sempre.
Entrarmos nesse espírito, nesse momento.
Nesse local que poucos conhecemos e menos penetramos
E viver um pouco nos suspiros que ouvimos em sonhos
E perceber nesses suspiros o nosso nome
Mesmo quando o corpo é já de outrém

Às vezes amar é deixar que quem amamos seja livre
Se a quisermos prender para todo o sempre
Deixar o corpo neste plano, no plano onde somos sombras
E tocar luz com luz, como o fizemos, e sempre faremos
Quando encontramos a que nos foi prometida
No momento em que os deuses perderam a batalha com os demónios
No momento em que nos separámos a primeira vez.

Às vezes amar é só pensar em quem se ama.
Calar o que não devemos dizer, e dizer o que não queremos
Deixar em liberdade quem queremos prisioneira
Para que a possamos ter cativa livremente e para sempre.
Sabendo que a encontraremos
Noutro tempo, noutro local, noutro corpo
No mesmo amor eterno e envolvente.

Alberto Malheiro

16 setembro 2006

Loucura de (um) ser irreal

Uma mesa de café. Fumo. Ruído.
Chuva que cai lá fora. Odores sem nome.
Pessoas que vestem a mesma roupa.
Máscaras que riem e choram como nós
Ardo! Grito! Sinto-me enlouquecido!
Do toque humano puro sinto fome
Saio. Corro para chuva que me ensopa.
Que me lava. Grito angustiado já sem voz
Por todos os que amei já fui esquecido!
Na chuva que me inunda e que some
O mundo é uma bomba e eu sou a estopa!
Eu sou um rio: eu busco a minha foz


-Alberto Malheiro-

13 setembro 2006

Reminiscências

Das palavras pouca resta quando perdemos de vista a pessoa que as proferiu... às vezes doces, quase sempre amargas, das despedidas só resta, anos e anos depois, alguns momentos que captámos. Palavras? leva-as o vento, e, como o vento reaparecem, noutro contexto, ainda que pareçam ser - exactamente - as mesmas. Nada nos surpreende, nada é interdito ou inevitável, nada é perene, tudo muda, tudo permanece na mudança, nada muda se fica o mesmo. Sê como a borboleta, não como a ave. Sê uma árvore, mas nunca a raiz. Enfim, despreza o que lês, mas nunca leias o que desprezas. Só a memória tem um fado, só fado transporta a memória onde a memória julga ir – nunca onde foi. Só esses que desprezam o que vêem, o que sentem o que prometem, podem realmente prometer, sentir e ver.

12 setembro 2006

O amor silencioso

Temos o hábito de exaltar os amores passados, presentes e futuros, aqueles amores que nos marcaram, aqueles que vivemos com intensidade, aqueles que, enfim, sonhamos ainda poder viver. Eu prefiro de todos os amores, recordar aqueles que nunca foram mais que a troca quase envergonhada de olhares, quase receosos que essa troca se transformasse em algo palpável.

Quando e onde foi? Com quem e porque aconteceu? Não me parece que o tempo possa ser sequer medido, nem me parece que haja qualquer interesse em situar o tempo dum amor, dar-lhe um rosto e um nome, porque isso retirar-lhe-ia aquilo que o amor tem de mais sublime: o facto de permanecer mesmo quando nos parece ter desaparecido, de, tal qual um livro, poder sempre ser relido, ser aberto num ponto que escolhemos, às vezes ser aberto ao acaso… mas ter sempre novas leituras, de cada vez que o relemos e recordamos.

Desses amores impalpáveis, desses amores que nunca consumamos, resta o sonho com que os vivemos. Dos outros restam memórias fortes, às vezes doces e às vezes amargas, mas bem localizadas. Sabemos sempre dizer quando estivemos loucamente apaixonados, e sabemos também localizar o momento em que essas paixões esfriaram, e o que delas restou. São-nos preciosas – mas não indispensáveis.

Mas aqueles amores impossíveis – aqueles amores que nada mais são que o desejo de estar perto de alguém, alguém esse que sabe perfeitamente o porquê de ali estarmos – são os amores que iremos sempre recordar, dando-lhes um desenrolar nos nossos sonhos que na realidade não tiveram, nem nunca poderiam ter.

São os amores que quase tememos, ainda que tal pareça o oposto do que seria suposto um amor ser, porque receamos a resposta que poderíamos ouvir, sendo que qualquer das duas hipóteses é assustadora. Saber que quem amamos vai dizer não e com isso destruir sonhos feitos de castelos de nuvens e que, como elas, tão instáveis e frágeis.

Ou pior ainda. Saber que quem amamos pode dizer sim, e destruir completamente a nossa vida até aí tão cuidadosamente construída e tão previsivelmente ordenada.

Tive um sonho, em tempos. E se de dia vivo a realidade como sempre vivi de noite o sonho permanece, ansiando e temendo a resposta que ouviria dos lábios que nunca se abriram em mais do que um sorriso, para mim, por julgar sabê-la no que os seus olhos me diziam.


11 setembro 2006

Tu és como o Luar...

Tu és como o luar, tenho a certeza
Suave, mas que enlouquece a quem quiser
Tu fadas quem se cativa com a beleza
De seres mais feiticeira do que mulher

Tu tens fogo e paixão, tu és princesa
De todos os que te adoram sem poder ter
Magia arde na chama que tens acesa
No riso que a ninguém sabes esconder

E eu sou só um daqueles que tu nem vês
Feliz só porque me sento à tua beira
Sou sombra que tu projectas com a tua luz

Percorro este caminho que a ti conduz
E vivo perto de ti, a vida inteira
Apenas para quedar morto a teus pés

- Alberto Malheiro -