Mostrar mensagens com a etiqueta Pablo Neruda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pablo Neruda. Mostrar todas as mensagens

03 maio 2015

...Spring...





"Quando não te doeu acostumar-te a mim,
 à minha alma solitária e selvagem,
 a meu nome que todo afugentam.
 Tantas vezes vimos arder o luzeiro
 nos beijando os olhos e sobre nossas cabeças
 destorcer-se os crepúsculos em girantes abanos.
 Sobre ti minhas palavras choveram carícias.
 Desde faz tempo amei teu corpo de nácar ensolarado.
 Chego a te crer a dona do universo.
 Te trarei das montanhas flores alegres,
 copihues, avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos.
 Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas."

28 março 2015

...estarei à tua espera como nas estações...

 
 
 
 

Não Estejas Longe de Mim um Dia que Seja
 
 

Não estejas longe de mim um dia que seja, porque,
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia,
e estarei à tua espera como nas estações
quando em algum sitio os comboios adormeceram.

Não te afastes uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas da insónia
e talvez o fumo que anda à procura de casa
venha matar ainda meu coração perdido.

Ai que não se quebre a tua silhueta na areia,
ai que na ausência as tuas pálpebras não voem:
não te vás por um minuto, ó bem-amada,

porque nesse minuto terás ido tão longe
que atravessarei a terra inteira perguntando
se voltarás ou me deixarás morrer.

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"

26 março 2015

...hoje deixa-me a mim só ser feliz...



ODE AO DIA FELIZ

Desta vez deixa-me
ser feliz,
nada aconteceu a ninguém,
não estou em parte alguma,
acontece somente
que sou feliz
pelos quatro lados
do coração, andando,
dormindo ou escrevendo.
O que vou fazer, sou
feliz.
Sou mais inumerável
que o pasto
nas pradarias,
sinto a pele como uma árvore rugosa
e a água abaixo,
os pássaros acima,
o mar como um anel
em minha cintura,
feita de pão e pedra, a terra
o ar canta como um violão.

Tu ao meu lado na areia,
és areia,
tu cantas e és canto,
o mundo
é hoje minha alma,
canto e areia,
o mundo
é hoje tua boca,
deixa-me
em tua boca e na areia
ser feliz,
ser feliz porque sim, porque respiro
e porque tu respiras,
ser feliz porque toco
teu joelho
e é como se tocasse
a pele azul do céu
e seu frescor.

Hoje deixa-me
a mim só
ser feliz,
com todos ou sem todos,
ser feliz
com o pasto
e a areia,
ser feliz
com o ar e a terra,
ser feliz,
contigo, com tua boca,
ser feliz.

( Pablo Neruda )
Poema “Oda al día feliz” de Pablo Neruda

03 janeiro 2015

Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.


Pablo Neruda
(Chile 1904-1973)
 
 

16 janeiro 2012

...deixarei de te amar pouco a pouco...

Se Me Esqueceres


Quero que saibas 
uma coisa. 


Sabes como é: 
se olho 
a lua de cristal, o ramo vermelho 
do lento outono à minha janela, 
se toco 
junto do lume 
a impalpável cinza 
ou o enrugado corpo da lenha, 
tudo me leva para ti, 
como se tudo o que existe, 
aromas, luz, metais, 
fosse pequenos barcos que navegam 
até às tuas ilhas que me esperam. 


Mas agora, 
se pouco a pouco me deixas de amar 
deixarei de te amar pouco a pouco. 


Se de súbito 
me esqueceres 
não me procures, 
porque já te terei esquecido. 


Se julgas que é vasto e louco 
o vento de bandeiras 
que passa pela minha vida 
e te resolves 
a deixar-me na margem 
do coração em que tenho raízes, 
pensa 
que nesse dia, 
a essa hora 
levantarei os braços 
e as minhas raízes sairão 
em busca de outra terra. 


Porém 
se todos os dias, 
a toda a hora, 
te sentes destinada a mim 
com doçura implacável, 
se todos os dias uma flor 
uma flor te sobe aos lábios à minha procura, 
ai meu amor, ai minha amada, 
em mim todo esse fogo se repete, 
em mim nada se apaga nem se esquece, 
o meu amor alimenta-se do teu amor, 
e enquanto viveres estará nos teus braços 
sem sair dos meus. 

Pablo Neruda
in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"


25 outubro 2010

...sucede que voy a vivirme...

AHORA me dejen tranquilo.


Ahora se acostumbren sin mí.



Yo voy a cerrar los ojos



Y sólo quiero cinco cosas,

cinco raices preferidas.



Una es el amor sin fin.



Lo segundo es ver el otoño.

No puedo ser sin que las hojas

vuelen y vuelvan a la tierra.



Lo tercero es el grave invierno,

la lluvia que amé, la caricia

del fuego en el frío silvestre.



En cuarto lugar el verano

redondo como una sandía.



La quinta cosa son tus ojos,

Matilde mía, bienamada,

no quiero dormir sin tus ojos,

no quiero ser sin que me mires:

yo cambio la primavera

por que tú me sigas mirando.



Amigos, eso es cuanto quiero.

Es casi nada y casi todo.



Ahora si quieren se vayan.



He vivido tanto que un día

tendrán que olvidarme por fuerza,

borrándome de la pizarra:

mi corazón fue interminable.



Pero porque pido silencio

no crean que voy a morirme:

me pasa todo lo contrario:

sucede que voy a vivirme.



Sucede que soy y que sigo.



No será, pues, sino que adentro

de mí crecerán cereales,

primero los granos que rompen

la tierra para ver la luz,

pero la madre tierra es oscura:

y dentro de mí soy oscuro:

soy como un pozo en cuyas aguas

la noche deja sus estrellas

y sigue sola por el campo.



Se trata de que tanto he vivido

que quiero vivir otro tanto.



Nunca me sentí tan sonoro,

nunca he tenido tantos besos.



Ahora, como siempre, es temprano.

Vuela la luz con sus abejas.


Déjenme solo con el día.

Pido permiso para nacer.

 
 
Pablo Neruda
 
 
 

 
 
...há algumas pessoas que nos marcaram, mas decidiram partir. E por mais que os decidamos esquecer, há uma parte que fica entranhada em nós, como uma tatuagem profunda... mas a vida continua, há novas coisas que vão surgindo e dão um novo colorido à nossa vida... mesmo quando as cores surgem um pouco mais esbatidas que antes, mas pelo menos a nossa vida ganhou novamente cor...

18 setembro 2010

...es tan corto el amor y es tan largo el olvido...



POEMA XX




Puedo escribir los versos más tristes esta noche.



Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,

y tiritan, azules, los astros, a lo lejos."



El viento de la noche gira en el cielo y canta.



Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Yo la quise, y a veces ella también me quiso.



En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.

La besé tantas veces bajo el cielo infinito.



Ella me quiso, a veces yo también la quería.

¡Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos!



Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.



Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.

Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.



¡Qué importa que mi amor no pudiera guardarla!

La noche está estrellada y ella no está conmigo.



Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.

Mi alma no se contenta con haberla perdido.



Como para acercarla mi mirada la busca.

Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.



La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.

Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.



Yo no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise..

Mi voz buscaba al viento para tocar su oído.



De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.

Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.



Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.

Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.



Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,

mi alma no se contenta con haberla perdido.



Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,

y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.



Pablo Neruda, poeta chileno (1904-1973)

02 maio 2010

...mas não me tires o teu riso...


O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda



...porque há risos e sorrisos de que tenho saudades...

21 março 2010

...dame la mano desde la profunda zona de tu dolor diseminado...



Alturas de Macchu Picchu


Sube a nacer conmigo, hermano.

Dame la mano desde la profunda
zona de tu dolor diseminado.
No volverás del fondo de las rocas.
No volverás del tiempo subterráneo.
No volverá tu voz endurecida.
No volverán tus ojos taladrados.
Mírame desde el fondo de la tierra,
labrador, tejedor, pastor callado:
domador de guanacos tutelares:
albañil del andamio desafiado:
aguador de las lágrimas andinas:
joyero de los dedos machacados:
agricultor temblando en la semilla:
alfarero en tu greda derramado:
traed a la copa de esta nueva vida
vuestros viejos dolores enterrados.
Mostradme vuestra sangre y vuestro surco,
decidme: aquí fui castigado,
porque la joya no brilló o la tierra
no entregó a tiempo la piedra o el grano:
señaladme la piedra en que caísteis
y la madera en que os crucificaron,
encendedme los viejos pedernales,
las viejas lámparas, los látigos pegados
a través de los siglos en las llagas
y las hachas de brillo ensangrentado.
Yo vengo a hablar por vuestra boca muerta.
A través de la tierra juntad todos
los silenciosos labios derramados
y desde el fondo habladme toda esta larga noche
como si yo estuviera con vosotros anclado,
contadme todo, cadena a cadena,
eslabón a eslabón, y paso a paso,
afilad los cuchillos que guardasteis,
ponedlos en mi pecho y en mi mano,
como un río de rayos amarillos,
como un río de tigres enterrados,
y dejadme llorar, horas, días, años,
edades ciegas, siglos estelares.

Dadme el silencio, el agua, la esperanza.

Dadme la lucha, el hierro, los volcanes.

Hablad por mis palabras y mi sangre.





(...um dia, talvez consiga concretizar o meu sonho de miúda e ir às "cidades do ouro"...)

30 janeiro 2010

...todo o ontem foi caindo entre os dedos de luz...



É hoje: todo o ontem foi caindo
entre dedos de luz e olhos de sonho,
amanhã
chegará com passos verdes:
ninguém detém o rio da aurora.


Ninguém detém o rio de tuas mãos
os olhos de teu sonho, bem-amada,
és tremor do tempo que transcorre
entre luz vertical e sol sombrio,
e o céu fecha sobre ti suas asas
levando-te e trazendo-te a meus braços
com pontual, misteriosa cortesia:


por isso canto ao dia e à lua,
ao mar, ao tempo, a todos os planetas,
a tua voz diurna e a tua pele nocturna.

18 novembro 2009

...o mundo era do ar que esperava...



Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Pablo Neruda

15 novembro 2009

...tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos...




Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em tal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações
tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa cravos.

Pablo Neruda

08 novembro 2009

...não me temas, não caias de novo no teu rancor...



O POÇO


Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.


-Pablo Neruda-

30 agosto 2009

...não me sinto mudar... ontem eu era o mesmo...





Não me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
cada dia mais raros são os meus cepticismos,
nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo

mental que derrubasse a canção dos meus dias
que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de melancolia,
um pouco de tédio que me deram os homens.

Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem
cada dia há mais meninas para cada conselho
para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
os vermes raivosos desfazem a dor,
todos os homens pedem de mais para amanhã
eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante
sentirei a raiva de não estender as mãos
de não erguer as asas da renovação.

Será talvez um pouco mais de melancolia
mas na certeza da crise tardia
farei uma primavera para o meu coração.


Pablo Neruda
in 'Cadernos de Temuco'

12 julho 2009

...que na minha herdade vazia aquele amor perdido é uma rosa branca que se abre em silêncio...





Tudo, amigo, o fiz para ti. Tudo isto
que sem olhares verás na minha casa vazia:
tudo isto que sobe pelo muros direitos
- como o meu coração - sempre buscando altura.

Sorris-te - amigo. Que importa! Ninguém sabe
entregar nas mãos o que se esconde dentro,
mas eu dou-te a alma, ânfora de suaves néctares,
e toda eu ta dou... Menos aquela lembrança...

... Que na minha herdade vazia aquele amor perdido
é uma rosa branca que se abre em silêncio...

Pablo Neruda
in "Crepusculário"





...já que Neruda faria 104 anos, deu-me para recordar aqui no meu cantinho um dos seus poemas... que se adecua a este vídeo que a M. me enviou - de facto, os animais possuem sentimentos e são bem mais afectuosos que os humanos, que teimam em ser estupidamente racionalistas e pensam que demonstrar os sentimentos é sinal de fraqueza...

08 julho 2009

...nascem e morrem tanta vez enquanto vivem...




Dois amantes felizes fazem um só pão,
uma só gota de lua sobre a erva,
deixam andando duas sombras que se juntam,
deixam um único sol vazio numa cama.
De todas as verdades escolheram o dia:
não se ataram com fios, mas com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A alegria é uma torre transparente.
O ar, o vinho, vão com os dois amantes,
a noite dá-lhes as suas pétalas felizes,
têm direito aos cravos que apareçam.
Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem.

04 junho 2009

...aunque éste sea el último dolor que ella me causa...




Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: «La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos».

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.



Pablo Neruda

27 abril 2009

...juntos fizemos um desvio na rota por onde amor passou... não sei para onde vou...

Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor ao teu lado.

Mas por onde eu caminhe levarei teu olhar
e para onde tu fores levarás minha dor.

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.


Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.


...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.
Pablo Neruda

09 março 2009

...hoy es hoy y ayer se fue, no hay duda...





CELEBRACIÓN



Pongámonos los zapatos, la camisa listada,
el traje azul aunque ya brillen los codos,
pongámonos los fuegos de bengala y de
artificio,
pongámonos vino y cerveza entre el cuello
y los pies,
porque debidamente debemos celebrar
este número inmenso que costó tanto
tiempo,
tantos años y días en paquetes,
tantas horas, tantos millones de minutos,
vamos a celebrar esta inauguración.

Desembotellemos todas las alegrías
resguardadas
y busquemos alguna novia perdida
que acepte una festiva dentellada.
Hoy es. Hoy ha llegado. Pisamos el tapiz
del interrogativo milenio. El corazón, la
almendra
de la época creciente, la uva definitiva
irá depositándose en nosotros,
y será la verdad tan esperada.

Mientras tanto una hoja del follaje
acrecienta el comienzo de la edad:
rama por rama se cruzará el ramaje,
hoja por hoja subirán los días
y fruto a fruto llegará la paz:
el árbol de la dicha se prepara
desde la encarnizada raíz que sobrevive
buscando el agua, la verdad, la vida.

Hoy es hoy. Ha llegado este mañana
preparado por mucha oscuridad:
no sabemos si es claro todavía
este mundo recién inaugurado:
lo aclararemos, lo oscureceremos
hasta que sea dorado y quemado
como los granos duros del maíz:
a cada uno, a los recién nacidos,
a los sobrevivientes, a los ciegos,
a los mudos, a mancos y cojos,
para que vean y para que hablen,
para que sobrevivan y recorran,
para que agarren la futura fruta
del reino actual que dejamos abierto
tanto al explorador como a la reina,
tanto al interrogante cosmonauta
como al agricultor tradicional,
a las abejas que llegan ahora
para participar en la colmena
y sobre todo a los pueblos recientes,
a los pueblos crecientes desde ahora
con las nuevas banderas que nacieron
en cada gota de sangre o sudor.

Hoy es hoy y ayer se fue, no hay duda.

Hoy es también mañana, y yo me fui
con algún año frío que se fue,
se fue conmigo y me llevó aquel año.

De esto no cabe duda. Mi osamenta
consistió, a veces, en palabras duras
como huesos al aire y a la lluvia,
y pude celebrar lo que sucede
dejando en vez de canto o testimonio
un porfiado esqueleto de palabras.