Mostrar mensagens com a etiqueta António Ramos Rosa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Ramos Rosa. Mostrar todas as mensagens

17 julho 2016

...e assim estás no meio do amor como o centro da rosa...



...1 ano de maternidade... grandes e almejadas mudanças... e hoje foi um dia celebrado com os amigos e a família...






Mãe 


Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos.
Vejo-te menina e noiva, vejo-te mãe mulher de trabalho
Sempre frágil e forte. Quantos problemas enfrentaste,
Quantas aflições! Sempre uma força te erguia vertical,
sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento
a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas,
tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade.
E assim estás no meio do amor como o centro da rosa.
Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente.
Com o teu amor humano e divino
quero fundir o diamante do fogo universal.

António Ramos Rosa, in 'Antologia Poética'

21 março 2015

...para um amigo...


 
 
 
 
 
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa
in "Viagem Através de uma Nebulosa"

02 janeiro 2011

...um ofício que fosse de intensidade e calma e de um fulgor feliz...

Um ofício que fosse de intensidade e calma



e de um fulgor feliz E que durasse


com a densidade ardente e contemporâneo


de quem está no elemento aceso e é a estatura


da água num corpo de alegria E que fosse fundo


o fervor de ser a metamorfose da matéria


que já não se separa da incessante busca


que se identifica com a concavidade originária


que nos faz andar e estar de pé


expostos sempre à única face do mundo


Que a palavra fosse sempre a travessia


de um espaço em que ela própria fosse aérea


do outro lado de nós e do outro lado de cá


tão idêntica a si que unisse o dizer e o ser


e já sem distância e não-distância nada a separasse


desse rosto que na travessia é o rosto do ar e de nós próprios






António Ramos Rosa
in "Poemas Inéditos"
 

 
...acabaram as férias! Estas 2 semanas quase liberta das obrigações normais fizeram-me bem. Precisava mesmo de descansar. Nesta altura, de balanço, creio que na segunda metade de 2010 comecei a reorganizar devidamente a minha vida, sem ter picos violentos de trabalho, em que mal conseguia ter tempo para dormir. Esta semana vai ser um bocadinho violenta, mas, felizmente, é apenas uma semana. Depois, já terei um horário normal, felizmente. Tenho que reorganizar a minha vida e as minhas prioridades para conseguir atingir os meus objectivos em termos de trabalho. E, claro, não desistir dos meus sonhos, apesar das muitas dificuldades diárias que enfrento... 

31 outubro 2010

Também de rasgões é feito o poema



entre uma possível estrela e a carne dolorosa



E nele se desenha a sombra de um crânio



ou as mãos vazias que perderam o rastro



de um segredo evidente submerso no opaco



- António Ramos Rosa -
 
 
 

02 setembro 2009

...um dia poderás chegar, tu que nunca chegas...




A delicada majestade



Um dia poderás chegar, tu que nunca chegas

porque não és um tu

ou porque chegas sempre em não chegares.

Subi um dia por uma escada silenciosa

e em torno era um pomar branco, tranquila maravilha

e eu senti, eu vi, adivinhei

a divindade amada, a soberana e delicada

majestade. Que suavidade de oriente,

que suave esplendor! Era o fulgor de um sono

límpido, entre olhos verdes, entre mãos verdes.

E num repouso de oiro adormecido era quase um rosto

Antiquíssimo e inicial. Contemplava

a quietude de um imenso nenúfar

e a fragância era quase visível como um mar entreaberto.

Era um rio detido ou uma tersa nuca ou um braço estendido

que descansa entre ribeiros primaveris

ou era antes a serena felicidade

e era uma boca da terra que não cantava que não dizia

o silêncio ardente que no peito de espuma cintilava.



António Ramos Rosa

11 julho 2009

...onde agora a mão se perde e era o espaço...


A Partir da Ausência

Imaginar a forma
doutro ser Na língua,
proferir o seu desejo
O toque inteiro

Não existir

Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro

Um muro vivo preso a mil raízes

Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo

Era com o sol E era
um corpo

Onde agora a mão se perde
E era o espaço

Onde não é

O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?

As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas,
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema

António Ramos Rosa
in "A Nuvem Sobre a Página"

26 março 2009

...na liberdade de ser a ténue sabedoria...



Quem ama a liberdade conhece que é idêntica
a verdade e a não-verdade o ser e o vazio
e por isso na sua celebração a metáfora expande-se
na liberdade de ser a ténue sabedoria
desse momento e só desse momento em que o arco cresce
Há então que procurar a chuva dessa nuvem
ou desdizê-Ia não para o nosso olhar
mas para um outro rosto de areia que cresce no vazio
e poderá ser de pedra ou de ouro ou só de uma penugem
O poema é o encontro destas duas faces
de nenhuma substância quando no vazio do céu
os anjos se diluem com as mãos despojadas



António Ramos Rosa

12 março 2009

...tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada...


Nascimento último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.
.

António Ramos Rosa

23 junho 2008

...absolutamente desnecessário...

Este poema é absolutamente desnecessário
pela simples razão de que poderia nunca ser escrito
e ninguém sentiria a sua falta
Esta é a sua liberdade negativa a sua vacuidade dinâmica
e o movimento da sua abolição
a partir do seu vazio inicial
Mas qual é a sua matéria qual o seu horizonte?
Traçará ele uma linha em torno da sua nulidade
e fechar-se-á como uma concha de cabelos ou como um
[útero do nada?


Ou será a possibilidade extrema de uma presença inesperada
que surgiria quando chegasse a essa fronteira branca
que já não separaria o ser do nada e no seu esplendor absoluto
revelaria a integridade do ser antes de todas as imagens
a sua violência inaugural a sua volúvel gestação?



António Ramos Rosa

19 junho 2008

...navego em centro aberto, o olhar e o sonho...




NUVENS



Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas

locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo

eram frontes do universo deslumbrantes.

Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro

e luminoso, tão suave na visão que se dilata.



Que clamor, que clamores mas em silêncio

na brancura unânime! Um sopro do desejo

que repousa no seio do movimento, que modela

as formas amorosas, os cavalos, os barcos

com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.



Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.

Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva

ao espaço inteiro, à luz ilimitada.

No gozo de ver num sono transparente

navego em centro aberto, o olhar e o sonho.



António Ramos Rosa


(...já que descemos das nuvens e aterramos na miserável vidinha real...)

16 junho 2008

...sou alguém que espera ser aberto por uma palavra. ...



Uma Voz na Pedra

Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

-António Ramos Rosa-

21 dezembro 2007

As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.




Tu sabes que as palavras não estão em nenhum lugar
embora possam vir de uma região subterrânea
ou da parte mais alta da cabeça como ondas
que às vezes são de areia ou de cal mas outras de
[ um sangue negro ou verde

Quer escrevas quer não escrevas
estás sempre à beira de
uma zona inexplorável
mas que uma palavra a única e que tu não
[ esperavas e esperavas
faz estremecer como a possibilidade iminente
de uma actualidade de palavra viva
O teu corpo estremece antes e depois
porque o inviolável transgride os limites
da precária segurança desse frágil suporte
que poderia estalar e desagregar-te
Mas perante a palavra que vai à tua frente
tu sentes o glorioso frémito
da queda na brancura ou num deserto fulminante


António Ramos Rosa
(in A Imobilidade Fulminante (1998))

11 dezembro 2007

Não posso adiar o amor...







Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.


António Ramos Rosa