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19 junho 2015

...tocar o coração...

...e há alturas em que não temos qualquer controlo sobre o que se passa na nossa vida... principalmente os picos, em que somos felizes e tudo parece correr bem e contribuir para uma maior felicidade... ou as depressões, em que tudo corre mal e as leis de Murphy se aplicam a tudo... sim, porque a Vida é mesmo bipolar... e muitas vezes descompensada...




12 junho 2015

...amizade...

...talvez seja por isto que me dói tanto perceber o quanto me enganei quando confiei em algumas pessoas a quem tratei como amigos e cujo comportamento revelou que foi um desperdício. Ainda assim, ficou a lição. E essa é muito maior que a mágoa...

25 maio 2015

04 março 2015

...que bem Ihe fica a franja...



Porque motivo apenas te aproximas de mim quando queres fazer amor? No resto do tempo chegas do banco e és só jornal e calças no sofá, se tento falar-te o jornal treme de zanga, sobe mais um pouco, as pernas cruzam-se, impacientes, em sentido contrário, o sapato fica a dar e dar no vazio, toco-te e encolhes-te, faço-te uma festa no cabelo e a cabeça diminui de tamanho, arrepiada, um protesto ronca das notícias

-O que foi agora?

-Já nem se pode ler em paz?

-Fazes o favor de não me despentear?

jantas calado a rolar bolinhas de pão entre suspiros, desapareces antes que eu acabe de comer, nem uma palavra para a minha saia nova, uma pergunta sobre como me correu o dia nas Finanças, um beijo, ficas de mãos nos bolsos a olhar o prédio em frente, atiras o canal para o desporto quando comeca a novela, aborreces-te do desporto, carregas no botão e reaparece a novela

-Olha essa porcaria à tua vontade

tudo te enjoa, te aborrece, te cansa e uma vez por semana, quando já estou meia a dormir, o teu braço a arrepelar-me, o ombro que me aleija, uma vertigem rápida, um camião a abanar o prédio na rua, eu a fixar os numeros luminosos do despertador ao lado das tuas costas
indiferentes, o que aconteceu, amor, para mudares assim tanto
(-Nao mudei nada, que mania)
ao conhecermo-nos, ha dez, minto, há onze anos, chegavas-te a mim embrulhado em vénias de timidez, a ensaboar as mãos, com o sorriso borboleteando em volta da boca sem se atrever a poisar

-Um dia destes convido-a para um cafe, menina Clara

tão atencioso, tão terno, tão preocupado comigo, a notar quando eu mudava de brincos, de penteado, de anel

-Que bem Ihe fica a franja, menina Clara

o meu pai simpatizou logo contigo por te levantares, com o tal sorriso a adejar, mal eu entrava na sala, o que aconteceu, amor, para mudares assim tanto

(-E ela a dar-lhe, que gaita)

desciamos para a muralha do rio, em novembro, com as gaivotas todas na praia, corríamos de mão dada a assustar os pássaros, achavas-me graça, achavas-me bonita, dizias que eu ficava linda a correr

-Parece mesmo uma gaivota, sabia?

que qualquer dia me escapava de ti, a bater as asas no rasto de um cargueiro turco, perguntavas-me ao ouvido, aflitissimo, ansioso

-Nunca me deixa, pois não?

(-As fantasias que tu vais buscar, meu Deus)

apertavas-me tanto pela cintura que quase nao conseguia respirar, por favor explica-me o que fiz de mal pare mudares assim tanto, ainda sou capaz de correr da mesma maneira se voltarmos a praia em Novembro, que é feito do teu sorriso e do ensaboar das mãos, ponho um baton diferente, a blusa decotada, os sapatos que nunca me atrevi a usar para os homens nao se meterem comigo na avenida

-Ainda ha quem me ache engraçada, sabias?

(-Pois que lhes faça muito bom proveito)

desço lá abaixo à muralha e fico no meio das gaivotas à espera que chegues

(-Agora deste em maluca ou quê?)

sem jornal, sem caretas, sem boli-nhas de pão, a convidares-me, nervoso, para um cafe na esplanada, soprando pelo meio do sorriso que não para, que não pare

-Apetece-me tanto dar-lhe um beijo, Clarinha

(-As parvoices que a gente diz em novo, senhores)

e nisto, não sei se deste conta, as gaivotas sumiram-se todas e ficamos sozinhos, amor, só a praia e as ondas e eu tão contente, tão com a certeza ainda tenho a certeza

(-Cada qual tem as certezas que quer)

de sermos felizes para sempre, de podermos ser felizes se um dia me deixares deixas não deixas, aposto que deixas

(- Que teimosia, que insistência, Já é cisma, caramba)

abraçar-te.




-António Lobo Antunes-




(...de repente, este texto na RTP2 gera uma pesquisa e uma visualização de mensagens por aqui...)

17 janeiro 2015

...trem da vida...



"No amor podemos substituir uma pessoa por outra, mas não na amizade, porque cada amigo tem o seu lugar e não podemos substituí-lo."

António Lobo Antunes

 
 
Hoje de manhã estive com uma amiga e o tema foi exactamente as pessoas que fazem e fizeram parte da nossa vida.
 
Às vezes, acontecem algumas coisas na nossa vida que nos fazem afastar de algumas pessoas. Mas, quando nos reencontramos, esse hiato de tempo é recuperado. E estão presentes regularmente no nosso pensamento, com o carinho que dedicamos aos amigos.
 
Outras vezes, percebemos que nos enganámos em relação a uma pessoa. E fechar a porta a cadeado e deitar a chave para muito longe é o melhor. Uma dessas situações aconteceu-me com uma colega de casa, durante o tempo de faculdade. Conhecia-a desde os meus 3 anos. 21 anos depois, cheguei à conclusão que me deveria ter afastado muito antes. Teria evitado muitos problemas pessoais e familiares. E a minha vida melhorou substancialmente depois de ter trancado irremediavelmente a porta. Ainda assim, houve uma coisa boa: a maioria dos meus amigos de faculdade, aqueles que sempre me acompanharam e que ainda hoje fazem parte da minha vida eram do curso dela.
 
Houve outras pessoas que saíram do meu trem da vida. Algumas, poucas, voltaram a entrar numa outra estação. Duas delas voltaram a sair de novo. Uma, colocada fora. Outra decidiu sair de vez. Paciência. Estavam a ocupar um lugar de amigo que não lhes pertencia. E foi melhor terem saído de vez. Neste momento, esse trem tem uma lotação muito perto do preenchimento total. Há alguns lugares vagos, na carruagem. Para pessoas especiais. Como especiais são todos os meus amigos. E o trem continua viagem com a melhor companhia que poderia ter...

 
Este tipo de pensamentos lembra-me sempre este tema da Maria Rita, que vi pela primeira vez em 2003, creio, no Coliseu dos Recreios. Já vi outros, mas aquele foi especial. Era a primeira vez que a via e fiquei encantada. Adorava o cd, que ouvia no carro. Adorei o concerto. São momentos assim que nos fazem perceber que é bom acordar...
 
 
 





a vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
 
 

14 janeiro 2015

...Que mulher tão forte... que Mulher, apenas...




Deus, estou zangado contigo. Suponho que já Te habituaste às minhas zangas como Te habituaste às minhas dúvidas, aos meus afastamentos, aos meus regressos a fingir que não venho, aos momentos de harmonia que de vez em quando existem entre nós, à minha incompreensão de tanta coisa que fazes ou não fazes, aos meus ralhetes, aos meus amuos, ao que considero as Tuas injustiças, a Tua crueldade e se calhar não é injustiça, se calhar não é crueldade, sou parvo, não ligues, não consigo entender as Tuas profundezas e os Teus caminhos, o significado dos Teus gestos. Só que ultimamente tens exagerado: o ano ainda mal começou e já desataste a despovoar o mundo à minha roda, eu que nunca fui próximo de muita gente, bicho do mato a fechar-me, a fechar-me. Começaste pelo Zé Manel Rodrigues da Silva, não sei se Te lembras dele, era jornalista, morava na Rua Azedo Gneco, usava óculos, acho que Te lembras porque se vestia de uma maneira única, fumava cachimbo, tinha brinquedos em casa, bebia chá, os olhos desapareciam a sorrir, era muito generoso e muito bom, usava cabelo comprido com risca ao meio, barba, um anel de prata no mindinho, houve uma altura em que fumou cigarros de mortalha, se procurares achas fotografias da gente os dois no Teu arquivo. Tiraste o Zé Manel sem razão, não fazia mal a ninguém, fez bem a muitas pessoas a começar por mim que estou aqui a jeito

(estou sempre aqui a jeito)

segurava os óculos com um fio. O Zé Manel, desculpa lá, não perdoo, quer dizer não digo que daqui a uns tempos não perdoe mas para já não perdoo. E a seguir, pumba, a Tereza. Dessa recordas-Te, não mintas, foi a semana passada, perdão, o funeral foi domingo passado, fresco ainda, não franzas a testa a pensar, não Te escapes, é impossível que não Te recordes, a mulher do Rui, a mãe do Henrique e da Sara, pertencíamos à mesma editora, a Tereza tomava conta de mim, foste tão duro para ela nos últimos tempos e a Tereza sempre corajosa, digna, sem uma queixa. E depois do coiso no cérebro de que ela se estava a levantar com uma força de vontade que nunca vi amandas-lhe uma gripe, uma pneumonia, cuidados intensivos, os orgãos a desistirem um a um, a inabalável esperança do Rui e o seu imenso amor, nós ambos ao pé da Tereza, toda ligada aos tubos, a inabalável esperança do Rui e a minha nula esperança, durou mais ou menos durante quinze dias

(mais de quinze dias)

o Rui acreditava, eu não acreditava e infelizmente a razão do meu lado, sempre me maçou ter razão, bendigo algumas das minhas asneiras, das minhas imprudências, das minhas tolices. Só ando certo ao escrever, no resto acho-me sinceramente

(e não consegues desmentir)

um palerma, no que diz respeito à vida prática eis o campeão dos azelhas, um desastrado Quixote interior. Bom, mas isso não interessa, interessa a Tereza, Tereza com z, não com s, não me desvies a esferográfica. Na missa de corpo presente comoveram-me as lágrimas do padre, mais junto de Ti e mais conhecedor das Tuas razões do que eu. Estaria zangado também, o padre? Ou aceitava? Senhor padre, entre nós que eu não conto a ninguém, estava zangado ou aceitava? No dia em que a Tereza morreu fui a casa deles, ainda o Rui não tinha dito aos filhos que lhes levaras a mãe

- Venha ver o sítio onde a Tereza lia os seus livros

um apartamento muito bonito, cheio de luz, cheio de vida, feito à justinha para as pessoas serem felizes, os livros, os quadros, os móveis. E depois a elegância de sentimentos do Rui, a elegância na dor, a mais rara de todas. A inveja de uma família assim, as irmãs, os pais, o

(não é piegas nem exagerado)

amor deles, a infinita delicadeza, a discrição de uma imensa ternura. E na volta, Deus, vens lá de cima fazer isto? Com que direito? Porquê? Explica-Te, mereço, no mínimo, uma justificação. Há coisas que doem, no caso de andares distraído: o anel da Tereza no dedo do Rui, o beijo que deu no anel, os pobres beijos que lhe dei a ele e não serviam de nada. Rui, eu gosto muito de si. Deus, neste momento não gosto nada de Ti. A Tereza queria tanto viver. Palavras suas

- Quero muito viver

ela sentada à minha frente, do outro lado da mesa onde escrevo, neste lugar cheio de lixo e tão sujo onde eu, obsessivamente meticuloso, me sinto, pasme-se, bem.

- Quero muito viver

dizia a Tereza

- Quero muito viver

depois de falarmos de trabalho e disto e daquilo, o que fizemos, o que íamos fazer. Que mulher tão forte a Tereza, Rui, que Mulher, apenas. O Rui

- Lembra-se da nossa viagem à América?

há pouco tempo, contentes. Contentes em Nova Iorque, Rui, em Washington. Em Boston roubei à descarada uma primeira edição do último Conrad, que o autor deixou incompleto. À Tereza e ao Rui quem os completa a partir de domingo, Deus?
E agora um aviso solene, uma ameaça, uma ordem: livra-Te de tornares a meter-Te com a família do Rui. Ouviste bem? Livra-Te
de tornares a meter-Te com a família
do Rui porque, se o fizeres, vais ter-me à perna a Eternidade inteira e não sou um osso fácil de roer.

11 maio 2010

...quando escrevo quero apenas libertar-me do que escrevo...


Um terrível, desesperado e feliz silêncio


No princípio de março acabo o meu romance, começado em junho de 2002. devia estar contente: é melhor, sozinho, que tudo o que publiquei até agora, somado e multiplicado por dez. durante vinte meses gastei nele praticamente as vinte e quatro horas de cada dia desses meses, escrevi-o desencantado, com vontade constante de destruir o que ia fazendo, sem saber bem para onde dirigis, limitando-me a seguir a minha mão, num estado próximo dos sonhos, e ao começar a revê-lo, surpreendido, pareceu-me composto.

não composto, ditado por um anjo, por uma entidade misteriosa que me guiava a esferográfica. Foram vinte meses num estado de sonambulismo estranho, descobrindo-lhe, durante as correcções, uma coerência interna que me havia escapado, uma energia subterrânea, vulcânica, de que me não julgava capaz. Devia estar contente: não estou. Em primeiro lugar porque nem um cisco de vaidade existe em mim. Sou demasiado consciente da minha finitude para isso, e muitas vezes recordo o que o advogado Howard Hughes, o milionário americano, respondeu ao jornalista, que logo após a morte do seu cliente, lhe perguntou quanto é que Hughes tinha deixado. O que o advogado disse foi

- Deixou tudo

e eu deixarei apenas, além de tudo, uns livros e, espero, alguma saudade nas poucas pessoas que me conheceram e fizeram o favor de gostar de mim. Nada mais. Em regra chegamos demasiado tarde a algum conhecimento da vida que de pouco nos serve. Uns livros. Este, que me devia deixar contente e não deixa. O que sinto agora, a uma ou duas semanas de acabá-lo, é um enorme enjoo físico do acto de escrever. Até junho ou julho não começarei outro romance porque me sinto exausto. E no entanto

(e é por isso que não estou contente)

aborrece-me ter, com sorte, talvez tempo para mais dois ou três livros antes que as águas se fechem definitivamente sobre a minha cabeça: eis a verdade. E esse facto aborrece-me. Acho injusto, dado que sinto em mim, com ganas de subirem à tona, não dois ou três livros mas uma mão cheia deles. Começo a ter uma ideia do que é escrever, começo a entender um pouco o que se pode construir com as palavras, começo, muito difusamente, a distinguir algumas luzitas ténues no profundo escuro da alma humana. E agora, que deveria começar, sinto e sei, na carne, o limitado espaço que me resta. Meu Deus, isto é frustrante: eu pronto a principiar e o tempo a fugir-me. Não faço a menor ideia qual será o livro seguinte, os livros seguinte e, no entanto, sinto-os vivos, dentro de mim, como o salmão deve sentir os ovos. Resta-me tentar que me saia do corpo o maior número possível. E penso em Maria Antonieta, já no estrado para o carrasco:

- Só mais um minuto, senhor carrasco.

Aí está: só mais um minuto senhor carrasco, só mais uns minutinhos senhor carrasco.

O destino de um artista é tremendo: ao vencer o tempo acabamos derrotados por ele, ou talvez seja mais certo ao contrário: apesar de derrotados pelo tempo vencemos? Ignoro a resposta. Sei que fiz o melhor que pude, que faço o melhor que posso, que tenho uma confiança cega na minha mão e na minha parte de trevas que é aquela que escreve. Não se escreve com ideias, não se escreve com a cabeça: é o livro que tem de ter as ideias, que tem de ter a cabeça. Eduardo Lourenço chamava-me a atenção de um verso do meu não caro Pessoa, “emissário de um rei desconhecido/eu cumpre informes instruções d’Além”, isto é o contrário do patetinha iluminado. E quem não entende que é outra coisa nada entende de literatura, e pior, nada entende da Vida. Entender é dar fé da unidade sobre a diversidade, do que existe de comum entre factos contraditórios. Não quero contar histórias, não quero explicar, não quero demonstrar nada. Quando escrevo quero apenas libertar-me do que escrevo e, se quisesse alguma coisa, seria apenas, se a isso fosse obrigado, dar a ver. Não mais do que esse tão modesto, tão ambicioso objectivo: dar a ver. Um livro são muitos livros, tantos quantos os seus leitores, é um pacto de sangue. Desconheço o que me trouxe a ele, não alcanço o menor vislumbre acerca do que me obriga a fazê-los. Se me perguntam

- O que é que quis dizer com este romance?

a resposta sincera é

- Não quis dizer nada

e não quis dizer nada porque me foi ditado. Isso terão de perguntá-lo a quem mo ditou. O meu trabalho consiste apenas em conseguir ouvir, e para conseguir ouvir dar-lhe tudo o que tenho. Sobra pouco para mim? Não tenho essa opinião. Tenho, antes, a de viver rodeado de pessoas vivas que se misturam com as pessoas vivas e quando não estou a escrever.

E se advertem

- Devias trabalhar menos

não entendo também: será isto trabalho? Não lhe chamaria trabalho. Honestamente não saberia o que chamar-lhe. Dá-me a sensação de ser a minha própria carne, as portas dos meus quartos fechados

(tantos quartos fechados)

dos meus quartos que nunca antes abri e me segam, de supetão, com excesso de luz das suas janelas, dá-me a sensação, nos momentos felizes, de caminhar sobra as águas. Disse numa entrevista que m aconteceu com este livro o que antes nunca me tinha acontecido: eu, que sou um homem de olhos secos, escrevi a chorar. Não de tristeza, nada que se pareça com tristeza: uma espécie de júbilo, de exaltação absoluta, como, nunca antes, me sucedera, feita de ter tocado, ainda que durante segundos, a própria essência das coisas. Sem o haver merecido. Sem qualquer mérito meu. Somente porque o tal “rei desconhecido” do soneto de Pessoa, meu pouco amado escritor, resolveu dar-me essa esmola. Escrevi esmola e, depois de haver escrito hesitei: esmola não me soa bem e contudo é verdade. Despe-te não da vaidade que não tens, mas do orgulho a que ferozmente te agarras, porque é uma esmola de facto, e enche os teus livros, à custa de muito viveres com eles, de um terrível, desesperado e feliz silêncio.

22 abril 2010

...e já que estamos nisso, a mulher do farmacêutico será uma criatura livre agora?..


Trabalho-Casa


A minha vida é trabalho-casa, disse ela. Aos fins de semana vai ao supermercado, depois engoma, passa a ferro, limpa. Uma manhã por mês consulta no médico para regular os diabetes. Suspiro:

- Se fossem só os diabetes

e não são só os diabetes, é o colesterol, a tensão, o problema dos ossos.

O trabalho, esse, é na contabilidade de um escritório: duas horas de transportes para cá, duas horas de transportes para lá. Em tempos teve um carro mas o preço da gasolina, mas o preço do seguro, mas o preço da oficina, de modo que o carro está à porta, quer dizer um bocadinho adiante da porta: um sem abrigo dorme no banco de trás, embrulhado em jornais, na companhia de umas garrafitas, a cobrir-lhe os estofos de cascas de laranja. Ultimamente um gato acompanha-o. O sem abrigo chama-se Senhor Peixoto, andou anos a penar na construção até que o joelho deu de si e largou os andaimes. Falta-lhe um dedo e meio na mão esquerda

­- Falta-me um dedo e meio na mão esquerda

anuncia a exibir a manga. A mãe do Senhor Peixoto dá ideia que teve instrução

­- Até piano havia

mas o senhor Peixoto dava-se mais à moinice

­ - As mulheres, compreende

ainda foi angariador de seguros mas enfiou as unhas na caixa

­- Sem dinheiro não querem saber da gente

de modo que se mudou para os andaimes até o joelho dar de si. À terceira queda o patrão substituiu-o por um preto qualquer

­- Um preto qualquer, veja bem

e nem mulheres nem seguros, fominha.

A do trabalho-casa compreende

­- É a vida

e aceita-o nos estofos. No inverno entrega-lhe umas serapilheiras para enganar o frio

­- Tome lá, Senhor Peixoto

o Senhor Peixoto, que não perdeu a galanteria

­- Obrigadinho, madame

a coçar-se

­- Não leve a mal, madame

porque o drama dele sempre foi a pele, herdou de um tio das classes altas, sargento, a delicadeza da epiderme

­- Os ricos, já se sabe, parecem forrados a seda

e o Senhor Peixoto seda também, que se dá mal com trapos e estofos:

­- Nasci para lençóis em condições mas o que se há-de fazer?

A do trabalho-casa está a par, o marido também foi niquento: a questão não era a pele, era a asma, tudo lhe dava asma até que uma primavera com mais pólenes o apagou como um passarinho

­- Disse-me adeus com as pestanas

passou do pijama para o fato dos domingos, numa urna quase de mogno, não bem mogno, que o mogno é caro, mas praticamente mogno, nem de perto se notava a diferença, e agora habita uma gavetinha de ferro, entre dúzias de gavetinhas de ferro, no muro do cemitério da terra dele, Abrantes, a fim de os parenteso acompanharem, cada qual a espirrar para seu lado o que sobeja da asma: umas cinzas sobressaltadas, visto que o mundo inteiro sabe que as alergias não descansam. O senhor Peixoto, a quem os cromossomas do tio sargento forneceram cultura e sensibilidade, apoia

­- Um tormento

a alastrar nos estofos, pede-me que lhe confirme as noções

­- Explique lá você, senhor Antunes, que foi médico

garanto que sim, as asmas são tenazes, pulam a eternidade inteira, a do trabalho-casa ajuda-me

­- Quando está tudo calado juro que lhe oiço os soluços

e ficamos os três à espera, em silêncio, mas por embirração o defunto não se manifesta:

­- Sempre fez só que o quis

suspira a do trabalho-casa deixando subentendidos séculos de teimosia aborrecida pontuados por

­- Não me apetece

insuportáveis. Que idade terão ambos, o vagabundo e ela? Por mim sugeria-lhe que o levasse para o seu rés-do-chão: podia limpá-lo e engomá-lo aos domingos, juntamente com os lençóis e as toalhas, ficar a vê-lo andar à roda no óculo da máquina: talvez que, do meio da espuma, lhe piscasse o olho.

Vontade de perguntar

­- Há quantos milénios não lhe piscam o olho, minha senhora?

mas embora sem um tio sargento possuo algum decoro e calei-me. A do trabalho-casa vislumbrou qualquer coisa

­- Ia fazer uma pergunta, senhor Antunes?

esperta como um alho o raio da velha, mas apressei-me a girar a caveira horizontalmente

­- Nenhuma pergunta, minha senhora, já me chamaram a atenção que volta e meia tenho um ar esquisito

e a do trabalho-casa, subitamente maternal, aconselhou-me

­- Devia casar-se, sabia?

E talvez devesse casar-me, realmente, arranjar uma criatura em condições que me tirasse, em simultâneo, as espinhas do peixe e as da alma, me pusesse a pasta na escova e me tratasse por Biju. Quando eu era pequeno a mulher sumptuosa do farmacêutico tinha um cão chamado Biju. Ficava à janela, de Biju ao colo, a fumar cigarros lentos, inacessível, e eu cheio de formigueiros na planta dos pés. A propósito de casamento, e já que estamos nisso, a mulher do farmacêutico será uma criatura livre agora?

16 abril 2010

...há um estar ALI que já é tanto...


Na minha família não se fala de mariquices mas, de vez em quando, há gestos destes, de ternura escondida, como quem não quer a coisa
O João trouxe-me um Santo António pequenino de Pádua: comoveu-me que se tivesse lembrado de mim. Na minha família não se fala de mariquices mas, de vez em quando, há gestos destes, de ternura escondida, como quem não quer a coisa. Deve-se gostar das pessoas sem lhes mostrar. Deve-se gostar das pessoas sem lhes mostrar? Pelo menos entre nós é assim: não há elogios, não há censuras, raramente há perguntas. Para quê? Há um estar ali que é já tanto. Diz-se sem as palavras e percebe-se que se diz e o que se diz porque o clima, não sei explicar de outra maneira, se torna diferente. Não falamos do que cada um faz: a gente sabe. Do que cada um sente: a gente sabe. Não se fala do sofrimento, não se fala da alegria: a gente conhece. É melhor desta forma. Uma única ocasião o meu pai fez-me uma confidência, sacudiu-a logo com a mão
- Chega de pieguices
e alegrou-me que se penitenciasse por transgredir as regras. Não há efusões, não há gestos e, no entanto, as efusões e os gestos estão lá. Quem souber ver que veja, quem não souber é porque não pertence à tribo. Não há lamentos: porque é que hei-de lamentar a minha sorte, interrogava o grego. Não há censuras, não há críticas, salvo em ocasiões muito, mas mesmo muito, especiais. O Zé Cardoso Pires percebia isto
- Vocês estão muito ligados
disse-me um dia, e mudou logo de paleio.
- Nenhum escritor gosta de falar do que escreve
afirmava ele. E, realmente, nunca falámos um ao outro do que escrevíamos. Quase todos os dias conversávamos mas não se tocava nesse assunto. Quando muito
- Estás a trabalhar?
e acabou-se. Ou
- Não estou a trabalhar
e acabou-se. Uma tarde telefonou-me
- É para te dar os parabéns porque ganhei um prémio
desviou logo o assunto e isto é o cúmulo da amizade. Foram os parabéns que, até hoje, mais prazer me deram. Até as nossas dedicatórias mútuas eram secas: Para o António do Zé, Para o Zé do António e um rectângulo à volta, a cercar as palavras, a fechá-las lá dentro. O rectângulo, claro, era o mais importante, e o que estava naqueles quatro riscos, meu Deus. Maior elogio mútuo
- Belo livro
maior crítica mútua: silêncio dentro de um soslaio breve. Não, maior elogio:
- Posso ser amigo de um médico, de um engenheiro, de um pedreiro. Para ser amigo de um artista tenho que admirá-lo.
Passeávamos de braço dado na rua. Com o meu irmão Pedro, por exemplo, darmos o braço é fazermos chichi juntos, no escuro, junto à cascata do jardim dos meus pais, com um comentário sobre o jacto respectivo. Depois sacudirmos os pingos ao mesmo tempo porque a pila não sabe fungar. Então abotoamo-nos e cada um vai para o seu lado, em silêncio. Deve ser difícil as mulheres entenderem isto mas, para os homens, fazer chichi lado a lado, ao ar livre, é sinal de amizade, a olharmos para baixo, cheios de duplos queixos. Tanto che che che nesta frase. Fazer chichi na rua é um dos meus prazeres, devo ter sido cachorro noutra encarnação. Detesto urinóis, retretes: haverá alguma coisa que se compare à exaltação de mijar contra uma parede? Às vezes, a seguir ao jantar, digo ao Pedro
- Já mijaste?
sabendo que ele estava à minha espera para essa celebração da cumplicidade. Nem que sejam três gotas faz-se um esforço. Vemos as árvores, vemos o muro, não nos vemos um ao outro mas estamos ali. Nem quero pensar na ideia de fazer chichi sozinho. No fim pergunta-se
- Como é que estás?
sabendo que o parceiro se cala. Depois cada um no seu carro, sem mais palavras. Um atrás do outro e, a certa altura, separamo-nos, com um sentimentozito de despedida que custa. Quer dizer não custa assim tanto, custa um bocadinho e passa. Eu vou fazer redacções, ele vai fazer não sei o quê: pouco importa. Importa que durante uns momentos estivemos juntos. Agora interrompi esta crónica porque fui lá dentro espreitar o Santo António antes de lhe pôr o ponto final. Que pena um ponto final ser tão pequenino.




...cada vez existem menos este tipo de sentimentos...

28 março 2010

...quanto mais gosto das pessoas mais emudeço...


Desenhar o sol

Apetece-me desenhar o sol a sorrir. Apetece-me desenhar uma menina ao lado de uma árvore grande e a menina ser maior do que a árvore. Apetece-me desenhar uma casa com uma varanda e na varanda flores de caules compridíssimos, até ao alto do papel. Apetece-me desenhar um homem cheio de botões no casaco. Apetece-me desenhar seja o que for em vez de escrever esta crónica. Vou começar um livro em abril, no dia oito, e dá-me medo começar um livro, passar dois anos, a treze horas por dia, naquilo, a acordar com ele, a adormecer com ele. Apareceu-me o título logo, coisa nova para mim, andava eu a trabalhar no plano, que são quatro folhas de papel de agenda cheias de gatafunhos e setas, a maior parte dos quais ilegíveis. Aliás não é um plano, antes coisas dispersas que talvez se condensem. Mas depois o livro em si não terá nada que ver, ou pouco terá que ver, com os gatafunhos e as setas. Serve para ir habituando a mão, agora destreinada, a tropeçar no papel. O meu material são cores, imagens, sons, um ou outro nome, tralha ao acaso, farrapos. Faço-o de insignificâncias que crescem e se vertebram a pouco e pouco segundo leis misteriosas. Depois desfaço. Depois faço de novo. Depois limpo. Depois torno a limpar. Depois acabo e nunca mais o quero ver. Estes últimos tempos tenho lido. De tudo, por puro vício, e sinto-me desocupado, inútil. Os outros trabalham e eu para aqui, à boa vida. Que raio de expressão, boa vida. Tem sido boa, a minha vida? Pareço um estabelecimento de relojoeiro com centenas de mostradores em horas diferentes. De vez em quando badaladas, de vez em quando um cuco a abrir uma portinha de madeira, a surgir de repente, a dobrar-se em vénias, a soluçar, a fechar a portinha, a sumir-se. Amanhã, vinte de fevereiro, é um dia amargo. Relógios gordos, pomposos, de caixa de vidro, relógios feios como a palavra neurastenia. Um piano a um canto da memória, com um metrónomo no tampo. Apetecia-me ter aqui uma ampulheta e observar a areia a cair. Uma frase de Hesse vem-me à cabeça, sem motivo: "É estranho caminhar no nevoeiro: as árvores não se conhecem umas às outras." Vem-me à cabeça e fica, às voltas: as árvores não se conhecem umas às outras. Em casa da Zezinha dei com uma moldura tão feia que se tornava bonita. Três irmãs lá dentro, por ordem de idade, e eu pegado à do meio, com doze anos. A seguir cresceu, a seguir pariu de mim, a seguir meteram-na numa caixa. E as árvores, que não se conhecem umas às outras, não param de falar.

Nunca lhes disse mas sinto-me bem com as minhas filhas: são três também. Falo pouco, fico calado, a sentir. Dizer o quê? Se pudesse abrir o peito às pessoas e mostrar o que está dentro. Quanto mais gosto das pessoas mais emudeço. As centenas de ponteiros não descansam. Se carregar numa tecla do piano ouvir-se-á alguma coisa? Jantei do outro lado da rua e voltei para casa. Na televisão pegada ao tecto as notícias, fornecidas por um senhor que produz romances. Devia ser obrigatório produzir romances: não faz barulho, é barato e mantém os autores ocupados. Se compusessem era um chinfrim, se pintassem um pivete e tudo sujo à volta. Será que as árvores não se conhecem mesmo umas às outras? Com o frio que está devia haver mantas para aquecer os joelhos das casas.

Há bocadinho apetecia-me desenhar o sol a sorrir, agora não sei o que me apetece. Que silêncio. Gostava de ouvir barulho de saltos de mulher no chão, a sua maneira de vestirem de gestos o interior das salas. Não me caía mal um aceno agora, a sombra de uma voz. De manhã a sombra da voz está no lado esquerdo delas, à tarde no direito. O mistério dos seus cabelos que me faz ter saudades do mar. Dia oito de abril. O sorriso da senhora do dono do restaurante enche-lhe a cara toda: basta sorrir para ficar agosto. Quando vista de lado era um agosto, quando vista de frente era um abril: olha, ainda me recordo do poeta Manuel Bandeira. Não esqueço nada: é o meu pior defeito. Memórias, remorsos, gente, o homem que em Angola me respondeu, à beira da picada, ao perguntar-lhe se a fazenda Pecagranja era perto:

- É perto mas é longe

e eu de boca aberta com tanta sabedoria. Um camponês esfarrapado a falar assim. Trazia o borrego preso por uma corda atada não ao pescoço, aos testículos. Se nos atam pelos testículos obedecemos que é uma limpeza. Tudo é perto mas é longe, amigo, desculpa a minha estupidez. Carta de um outro a um primo que lhe pedia cem escudos: perdoa não mandar os cem escudos mas já fechei o envelope. O que aprendi em África, meu Deus. E lá vêm as mangueiras, enormes, a longa, densa fila de mangueiras ao crepúsculo. Quero desenhar o sol a sorrir. Quero desenhar cerejas azuis como a Zezinha em pequena, numa folha de papel que emoldurei. Quero desenhar-me a mim, de chapéu de coco, polainas e bigode retorcido. Quero que não haja noite. Ou não haja manhã e me arranquem ao sono como quem puxa um adesivo horrível de uma zona com pêlos. Quero que me toquem, nem que seja com um dedo no ombro. Quero voltar da mata para sempre e ficar aqui sentado a olhar para vocês, de órbitas redondas como pires, como aquele negro velho, acocorado numa pedra ao centro da aldeia desfeita, indiferente às cabras mortas e à cinza, a chupar, de tempos a tempos, um pobre cigarro apagado.

09 janeiro 2010

...há momentos em que uma pessoa se sente reconhecida aos objectos pelo simples facto de estarem connosco...


Ontem havia uma única mesa por ocupar num dos restaurantezecos onde como: apenas ao sentar-me dei conta que ficava diante de um espelho e portanto almocei comigo. De vez em quando olhava-me com estranheza de ser aquele e não nos falámos, claro. Vi--me a mastigar, a mexer nos talheres, a pegar no copo: um desconhecido para mim: as mãos, os gestos, a cara opaca: não tínhamos nada a dizer um ao outro, de que raio de assuntos podíamos conversar? Nem sequer o observei com estima e a companhia não me foi especialmente agradável. A pergunta sincera

- Sou isto?

a resposta sincera

- Não me interessa nada ser isto

e a surpresa de ser isto o que os outros conhecem. Por um momento pensei em experimentar um sorriso para verificar como sorrio, desisti. E a minha vida apareceu--me tal como é, sem importância alguma: se aquele ali morresse que diferença me fazia? E, conforme sucede cada vez mais nos últimos tempos, a tentação do nada. Um cheiro de Natal por toda a parte: quero passá-lo sozinho: compro umas coisas para me alimentar, fico aqui com um livro, não me aborreço sequer. Nunca me aborreço desde que não haja espelhos à minha frente. Não escrevo nada: as crónicas que sairão para o ano estão entregues, o texto que sairá em 2011 a ser batido no computador para continuar a corrigi-lo: não há espaço nas páginas para mais emendas de tão alterado que está, o pobre. Quando o acabar três ou quatro meses sem fazer seja o que for, à espera. Depois decido. O futuro não me preocupa, sob esse ponto de vista. Sei que a minha obra vai sobreviver ao tempo e não sinto o menor orgulho, a menor vaidade nisso. O reconhecimento, os prémios, o tarantantã que acompanha o êxito é-me igual ao litro. Aos quinze, aos vinte anos desejei-o imenso: quero lá saber dele hoje em dia. A varanda da sala onde junto estas palavras está fechada e contudo parece--me existir vento nas coisas. Uma suspeitinha de sol. Um homem veio contar a luz, foi-se embora: terá sido ele quem deixou o sol aceso? A cara tão gasta quanto os sapatos, o blusão cinzento, a mão a anotar números num bloco. Um soslaio às estantes, intrigado. Diz

- Bom dia

e desaparece, um

- Bom dia

mecânico, vazio. Dias vazios. Nem compridos: vazios só. O sol apanhou as folhas de uma árvore e demora-se por ali, a cortina acende-se um bocadinho. Que silêncio. Este andar tem-me feito companhia, é amável, parece tomar conta de mim. Obrigado, andar. Há momentos em que uma pessoa se sente reconhecida aos objectos pelo simples facto de estarem connosco. A mesa, por exemplo, o sofá. Chegam catálogos das editoras, com a minha fotografia e o relambório do costume. Na minha cabeça fragmentos dispersos de imagens, diálogos. Perto, calhamaços sobre literatura alemã medieval, não sei o que me deu para me interessar por ela. Um autor, em 1400, a propósito do ofício de escrever: o meu arado é feito do vestuário dos pássaros. Talvez estes artiguinhos não sejam assim tão vãos, posso usá-los como uma forma de diário, eu que jamais fiz diário algum: sou uma agenda de argolas, vou passando as folhas: já passaram quase todas, sobra um restinho. Mas a gente consegue fazer batota, se for preciso, e passá--las todas de repente. De qualquer maneira passarão de repente. Andei um pouco pelo país, nestes últimos tempos. Quartos de hotel. Pessoas.Assinar os livros que fiz com o vestuário dos pássaros. Depois permanecia um bocado na cama, vestido, a fixar o tecto. Desde que me conheço

(que expressão tão idiota)

levo que tempos de nariz no tecto enquanto, na ideia, gira um caleidoscópio de cores, luzes, frases, emoções. Um senhor, uma ocasião, a abrir-me a porta do carro quando eu saía da escola

- Como te chamas, menino?

careca, num risinho esquisito: nunca corri tão depressa para casa. Se os meus pais tivessem trinta anos, ou nem isso, como nessa época, era o que eu fazia agora. De calções, e com a mochila dos livros e dos cadernos às costas, desatava a correr até ao portão do jardim, subia as escadas para o quarto de banho e lavava o que, da minha cara, podia estar ainda do risinho esquisito. Saiu todo, com água fria e sabonete, porque, graças a Deus, nem um rastro do senhor no espelho do restaurante. Já não é mau, pois não?

13 novembro 2009

...o amor não são prazeres breves e localizados...


Ontem acabei de corrigir uma porção de crónicas para fazer um livrinho, textos de há quatro ou cinco anos para cá, de que não me lembrava. De um ou outro talvez, mas uma memória confusa, e apercebi-me que a minha relação com estas aguarelazitas se aparenta à de alguém que faz desenhos meio distraídos na margem do papel, enquanto pensa noutra coisa. Como estou sempre a pensar noutra coisa talvez fosse preferível dizer desenhos meio distraídos na margem do papel enquanto pensa noutra coisa de outra coisa. E lá foram, para a editora, esses bonecos, esses riscos a que não consigo dar importância, esboços, fantasias, palavrinhas, pequeninos nadas. Estava a escrever isto e, de repente, sei lá porquê, veio-me à cabeça Alcácer do Sal, que quase não conheço, passos na rua, uma esplanada onde jantei e as caras das pessoas à mesa. As caras todas nítidas. É engraçado ver pessoas comer, as diferentes formas que as bochechas tomam, o modo como os queixos se movem, os gestos: tornam-se tão vulneráveis nesses momentos, tão frágeis. Fui a Alcácer por um homem a quem quero muito, num momento difícil da sua vida: acabavam de lhe arrancar mais um bocado da infância, de lhe substituírem a existência por memória e quando nos mudam a cor à alma a gente sofre. Mesmo que a cor haja mudado com o tempo, embora todos os nossos tempos continuem connosco. Meu Deus, a pouco e pouco vamo-nos tornando sótãos onde o passado amarelece, a pouco e pouco os sótãos invadem a casa que somos, principiamos a mover-nos entre sombras truncadas de gente, emoções, memórias. Lentamente tiram-nos tudo, o presente afunila-se, o futuro uma parede. E nós, apesar de adultos, tão crianças ainda, assustados, perdidos, juntando pedaços dispersos para nos reconstruirmos de novo, continuarmos. Na direcção de quê? Para onde? Quem nos espera ainda? Alcácer cheia de escuro, o brilho da água, a humidade a crescer com a noite, o silêncio mesmo quando se fala, no interior das palavras. Os movimentos do meu amigo angulosos, lágrimas fechadas nele, secretas. Quando se comove a boca altera-se, a maneira de andar, o sorriso, os olhos fixam-se no interior de si mesmo. Está e não está, uma região dele tão longe. Andava eu a falar de crónicas e derivei para aqui, o meu amigo, a sua cidade, ruas como aquelas que eu gosto, casas como as do bairro onde cresci

(Lisboa distante)

gente parecida com a da minha infância. Só faltavam os cães, só faltava a mata: desenhos na margem do papel, bonecos, riscos. Primeira pergunta: o que nos aconteceu? Segunda pergunta: o que será de nós? Não mandamos nada, os dias vêm e cavalgam-nos, arrastam-nos para onde lhes dá na gana, o nosso livre arbítrio é tão limitado, o que podemos escolher tão pouco. Passei os últimos dias em Paris, à chuva. Frio, chuva, trovoada, jornalistas o dia inteiro, conferências, autógrafos. O mesmo quarto de hotel sempre, a que me vou afeiçoando, a espécie de mesinha Império

(falsa, claro)

que me serve para escrever e não escrevi uma linha, passei as poucas horas livres que me deram a olhar para o tecto e a pensar numa frase de Einstein: devemos fazer tudo o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso. O raio da frase não me largou toda a semana, na certeza de que me havia de servir não entendia para quê, enquanto ela se transformava em mim, crescia, se ramificava, principiava a dar botões, se me dissolvia no sangue. Há-de chegar à mão, há-de sair, não sei de que maneira, numa página qualquer, ou então atravessar as páginas todas. Devemos fazer tudo o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso: grande cabrão que acertou em cheio.

Alcácer, outra vez. O sofrimento de um amigo dói, principalmente quando o advínhamos cheio de sentimentos contraditórios, perplexidades, interrogações, memórias. Na altura em que o meu pai morreu e me telefonaram muito cedo, etc. Por aí não. Outra conversa, António, se fazes favor, deixa o fundo de ti para ti, os teus livros, o teu lodo. Ontem, treze de outubro, uma data especial e eis o cemitério de Abrigada tremendo-me nas pálpebras. A senhora que trata do jazigo a apontar uma prateleira:

- O seu lugarzinho ao lado da menina, senhor doutor.

O meu lugarzinho ao lado da menina, à espera desde há quase onze anos. O mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso. E quero, como o meu avô, oficial de Cavalaria até à medula da alma, ir ao armão dos militares, acho que tenho direito a isso, antes de ocupar o meu lugarzinho frente à serra. Há semanas passei pelo quarto alugado onde começámos a viver. Como não tínhamos dinheiro para mandar cantar um cego, depois do jantar, feito no parapeito da janela por causa dos cheiros, dávamos a volta ao quarteirão. O amor não são prazeres breves e localizados, como sustentava Colette, autora muito da minha estima, é uma vocação de sarça ardente. E estremeço de alegria quando noto nas minhas filhas as mães delas. Pareço uma caninha ao vento. Firme que nem caniço em noite de tempestade. São tão raras as mulheres que habitam a cama como um quadro habita a moldura, em que almofadas, lençóis, colchão, possuem o exacto tamanho delas e nós uma vontade humilde de ajoelhar, diante de tanta miraculosa perfeição. Sejam que horas forem é sempre

- Bom dia

antes da linguagem dos arcanjos.

24 outubro 2009

...nada dói, nada ofende, nada magoa...




Gaivotas pequeninas




As gaivotas pequeninas regressaram à foz do Douro, há sol outra vez, estamos na muralha a olhá-las. Desta feita nunca mais desaparecerão dos penedos de que mal se distinguem e mesmo que o mar as leve permanecerão ali. Tentei matá-las e resistiram, tentei esquecê-las e não as perdi nunca. Passaram todo este tempo dentro de mim, à espera que as devolvessem ao lugar que é o seu, lá em baixo na salsugem. Tonto de sol vejo-as caminhar, perco-as, recupero-as, não se vão embora: existem para sempre, como um testemunho escrito a sangue na carne, um nome que não se apaga, uma presença infinita. Não crescerão: quero-as assim, depois de tanta tempestade interior, tanta cobardia, tanto medo. Nenhuma névoa, nenhum medo já: as palmeiras e as gaivotas pequeninas chegam-me como penhor. As pessoas na esplanada do restaurante nem as vêem: ocupam-se a comer, a conversar, não as conhecem, não dão por elas sequer. E que paz de silêncio no interior das ondas, que fervor de alegria. Cheguei. Finalmente cheguei. Quase sem palavras e sem gestos porque as palavras e os gestos inúteis: basta este simples milagre, esta pureza silenciosa, este fervor de alegria. Tudo tão fácil, afinal, quando se olha o mundo de frente, que evidência tão clara. As mãos no rebordo nem precisam tocar-se para que a viagem comece. Basta esta proximidade, este rumoroso silêncio, o vento: as gaivotas pequeninas na foz do Douro sabem-no, não brancas, cinzentas e o cinzento mais branco que qualquer outro branco, uma exaltação mais funda que a do corpo, tatuado de unhas ao comprido da tarde, braços em cruz de dedos cravados nas almofadas, olhos de pura água que se abrem devagar, um sangue vivo que canta. Não há dia mais dia que este dia, não há noite mais noite que esta noite, e as gaivotas pequeninas na dobra do lençol. Nada dói, nada ofende, nada magoa. Beijar o sol na boca, abraçar os limos, tocar no ar que nos atravessa a garganta. Casas lá para trás, tão longe. As pessoas na esplanada longíssimo também: só as gaivotas pequeninas perto, só este sol, este vento, o escapulário já sem imagens que trago no pescoço. Caminha-se, sem peso, na luz, nem sequer é necessário reinventar o mundo: permaneceu ali desde sempre, à espera. Agora tenho-o fechado na mão, a minha vida pertence-me, não tornam a roubar-ma. Um automóvel debaixo de uma ponte, à espera, a doce violência de um sorriso, tudo, ao mesmo tempo, lento e rápido, o milagre das línguas, o umbigo prateado.

- O meu irmão diz que tenho unhas de puta

e, meu Deus, o que as unhas de puta conseguem. A ferida da ausência até ao osso:

- Como é que estás vestida?

- Ténis pretos, calças pretas, camisola preta

- Como é que estás vestida?

- De toga no alto das escadas

E, por baixo da toga, gaivotas pequeninas, o mar da foz do Douro, os penedos, a mulher, com duas canas de pesca enterradas na areia, a limpar a praia.

- Adoro as tuas unhas de puta

como adoro a cabeça de perfil e os olhos fechados, o modo de dizer

- Minha riqueza

os dentes no meu ombro. Tudo treme no vento e se refaz, tudo se desarticula na água e permanece inteiro, os teus pés descalços nos pedais do carro, os calcanhares, um após outro, no apoio do lavatório para o creme das pernas, os pontinhos brancos que distribuis pela cara antes de os espalhar, o secador levantando o cabelo molhado, o modo de apertar o soutien nas costas numa habilidade de contorcionista, o nariz franzido vasculhando o frigorifico, uma joaninha num ramo de rosas, o modo rápido de lidar com os objectos e nisto, de repente, a surpresa de uma ternura vagarosa, ávida, os bicos do peito a crescerem, a mansa ferocidade dos dentes.

As gaivotas pequeninas regressaram à foz do Douro, há sol outra vez, estamos na muralha a olhá-las. Desta feita nunca mais desaparecerão dos penedos.


António Lobo Antunes


...quando nos sentimos bem connosco e com o Mundo somos superiores...

10 outubro 2009

...se os meus amigos não tomassem conta de mim com tanto desvelo não estava aqui a escrever isto, pedia esmolas nos semáforos...


De profundis



O meu pai tinha quatro irmãs mais novas e um irmão que morreu pequenino, de meningite, por volta da idade em que tive essa doença. Parece que comecei com muita febre e horas depois estava em coma. Inexplicavelmente sobrevivi. Há de certeza pessoas que, pelo que vou dizer, me acharão tonto, mas ninguém me tira da cabeça que Santo António me salvou. E lá me levaram, aos sete anos, a Pádua, tocar no túmulo do Santo e fazer a primeira comunhão. A minha relação com Deus tem sido sempre tumultuosa, cheia de desacordos e discussões: longos períodos em que me afasto, alturas em que me aproximo, amuos, quase insultos, discussões. Creio firmemente que, nos livros que escrevo, é Ele que guia a minha mão e não passo de um instrumento da Sua vontade. Quantas vezes me vem à cabeça aquele pequenino poema de Sebastião da Gama: a corda tensa que eu sou o Senhor Deus é quem a faz vibrar; ai linda longa melodia imensa: por mim os dedos passa Deus e então já sou apenas som e ninguém se lembra mais da corda tensa. É que não escrevo assim tão bem, trabalho sem plano e quase me limito a assistir ao que vai ficando no papel. O meu único mérito é fuçar o dia todo, até ser apenas som. Componho-os numa espécie de febre, no fundo de um abismo em que me perco, cego e surdo, não resultam nunca de uma deliberação mental, um propósito, um plano definido. Não concordo com Jean Daniel, quando afirma que a única desculpa de Deus é não existir: há alturas em que o sinto tão fortemente em mim, alturas em que o sei tão longe. O cancro, por exemplo: o Henrique, que é um homem de Fé, diz que me salvei porque nasci com um sistema imunitário fenomenal. Palavras dele. No meu modesto entender esse sistema imunitário fenomenal tem um nome, e esse nome entendeu que eu ainda era necessário aqui. Para escrever, julgo, porque fora dos livros nada valho: os meus defeitos e as minhas imperfeições são enormes. Tão inteligente para umas coisas e tão estúpido para outras, espantava-se a minha mãe. Aborrece-me admitir que é uma excelente definição do António. Nunca fui uma criatura estruturalmente má: na verdade não passo de um aselha, um parvo, incapaz de lidar com as coisas mais simples do quotidiano, um imbecil desamparado. Se os meus amigos não tomassem conta de mim com tanto desvelo não estava aqui a escrever isto, pedia esmolas nos semáforos. Regressando ao princípio o meu pai teve um irmão que morreu pequenino, de meningite. Contou-me certa vez uma coisa que não esqueci nunca: era criança e tinha ido com o pai buscar os exames do irmão. Meningite tuberculosa, sentença de morte. Vieram para casa com o meu avô a guiar o automóvel, e o meu pai, sentado ao lado do meu avô, via as lágrimas descerem pela cara impassível. Todos os dias, na esperança do filho se salvar, a minha avó ia a pé das portas de Benfica à capelinha da Senhora da Saúde, o que nessa época, e com o estado das ruas de Lisboa, exigia um esforço enorme. Depois dos meus avós morrerem as minhas tias encontraram toda a roupa do irmão guardada num armário: não foram capazes de se desfazer dela, não quiseram desfazer-se dela. Já nenhuma das pessoas de que falei se encontra neste mundo: os meus avós, o meu pai, as minhas tias. Sobro eu e, em certo sentido, enquanto cá estiver eles continuam. Para quem pensam que escreve o imbecil desamparado? Para as lágrimas de um homem pela agonia do filho, para uma mulher a caminhar diariamente quilómetros na esperança de que Deus o curasse. No jazigo dos meus avós lê-se

Ao nosso Antoninho

e, de vez quando, vou lá às escondidas. Podem pensar na minha cretinice, não me rala, sinto-me bem junto deles. Os meus livros são isso: as lágrimas daquele homem, os passos daquela mulher. No caso de se aproximarem mais das páginas é o que realmente verão, em lugar de palavras impressas. E talvez vejam também o cretino a espreitar, comovido, pelas grades da porta.

19 setembro 2009

...não faço ideia de quem seja qualquer destes famosos, vivo de certeza noutro planeta...



BOM DIA!


Sento-me para escrever isto, são nove horas da manhã, e na janela aberta as árvores ao sol. As folhas brilham, movem-se dançaricando nos ramos, mais escuras, mais claras, trocando de lugar, voltando à posição inicial, trocando de novo. Um candeeiro ao sol também, com a enorme lâmpada apagada. À noite quase ninguém na rua, é gente séria, excepto a estrangeira sem abrigo, de carrapito esquisitíssimo e vários sacos de plástico nos braços, vestida como um arlequim enlouquecido, a abordar os carros no sinal vermelho. Dorme onde, a pobre? Num degrau, num portal, num vão de escada destes prédios velhos? Quase tudo é velho aqui, excepto a luz que parece areada por um esfregão de arame, intensa, dura. Trata-se de um lugar de reformados, de perninhas marotas, de lojecas modestas, pequenos negócios sem clientes. E, para espanto meu, quatro clínicas dentárias e cinco cabeleireiros: não deve existir um incisivo em nenhuma gengiva e as senhoras do bairro de madeixas pintadas. Reúnem-se na pastelaria em cima, diante de um café que dura a tarde inteira, a dissertarem as fotografias das revistas. Títulos: Conheça os lugares de férias dos famosos, A astróloga Não Sei Quantas declara que é mais ardente aos cinquenta do que aos vinte anos, o manequim Não Sei Quantos assume romance com conhecida empresária, afirmando que a sua relação com a organizadora de eventos Não Sei Quantas terminou de uma forma serena porque somos ambos pessoas civilizadas. Não faço ideia de quem seja qualquer destes famosos, vivo de certeza noutro planeta. Uma das senhoras de madeixas duvida da ardência da astróloga, a amiga contrapõe argumentos, quase se zangam. A estrangeira sem abrigo surge ao crepúsculo, a pedir esmola em alemão. Alemão ou holandês. Nunca vi tanta sujidade junta, benza-a Deus. Por mim não se interessa nada, só se preocupa com os automóveis nos semáforos: nenhum lhe dá esmola. Há quem suba o vidro e ela a bater com os dedinhos, inclinada para diante na atitude de quem espreita por um buraco de fechadura, enquanto os condutores rezam para que surja o verde. E ali fica, parada no meio da rua, de braços abertos enquanto os sacos oscilam. Se adoecer, se morrer, quem se importa? Nenhuma revista fala nela, ao passo que a astróloga de cinquenta anos exibe lingerie e pernas, feliz. Na televisão junto ao tecto uma famosa agitada entrevista famosos que deitam soslaios ao monitor a corrigirem a posição, preocupados. Suponho que discutem a segunda lei da termodinâmica ou as relações de Pascal com o jansenismo, porque as senhoras alongam o pescoço, fascinadas. A dona do quiosque, que no inverno cobre os jornais com plásticos, arruma a mercadoria, aferrolha aquilo tudo. Há magazines trancados em celofane com famosas nuas que namoram futebolistas. Admiro os futebolistas porque são homens de uma só palavra, isto é de uma só frase:

- Há que levantar a cabeça e pensar no próximo jogo

máxima que parece entusiasmar as famosas nuas, de cabeça bem levantada nos magazines, cobrindo um décimo do peito com as mãos abertas. A estrangeira sem abrigo não cobre peito nenhum, ocupada com os sacos, a murmurar sozinha. Se calhar pensa

- Há que levantar a cabeça e pensar no próximo sinal vermelho.

De tempos a tempos lá lhe entregam uma moeda que esconde logo sob os trapos, na velocidade com que as rãs engolem moscas. O que será feito do senhor Mário, que se alimentava de minis e tinha um gato chamado Baixinho que uma criatura qualquer lhe matou à vassourada? Passava fome para comprar fiambre para o Baixinho, mesmo em julho apoiava-se no guarda-chuva, que era a única bengala que tinha. Nunca o vi comer nada, falava resmungos incompreensíveis, vestia um blusão outrora branco o ano inteiro, os fundilhos das calças nadavam. Se entrasse na pastelaria enxotavam-no, nem sequer os pombos fugiam dele. O que será feito do vagabundo de barba comprida, ainda novo, que falava cinco línguas, a dançar sozinho nos passeios em gestos de bailarina oriental, todo dedos? Os meus famosos, esses, que não pensam no próximo jogo, acho que não pensam em nada. O senhor Mário não deitou uma lágrima pelo Baixinho, preferiu dobrar a quantidade de minis, uma floresta de gargalos no balcão. Oiço pela janela dois homens discutirem. Um deles adianta um argumento definitivo

- Eu trabalho, sabe?

o outro encrespa-se

- Está a chamar-me chulo?

o primeiro amansa um bocadinho

- Não estou a chamar nada, estou a dizer que trabalho

o segundo contemporiza

- E você julga que eu ando aí à boa vida?

e a seguir silêncio porque conseguiram um acordo honroso, ambos de cabeça levantada, a pensarem no próximo jogo. Só lhes faltam as namoradas nuas mas é impossível atravessar o celofane dos magazines com a unha e pescar a famosa da capa. São dez horas da manhã. As folhas continuam a brilhar. Decido pôr um ponto final nisto. Ponho. Aí está ele: .


António Lobo Antunes






(...não costumo fazer comentários à vida privada dos demais, mas parece que o ponto final, segundo os jornais, se extendeu a outros níveis... já estou a ver os próximos programas da tarde dedicados ao assunto...)

06 setembro 2009

...tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer...





Uma dor por aí
´


Hoje, depois de escrever dez horas seguidas e sentindo-me cansado demais para continuar, levantei-me da mesa e tirei um livro da estante do corredor. Calhou ser Dickens, numa edição barata da Wordsworth. Tempos Difíceis. Abri-o onde resolveu abrir-se e apareceram quatro linhas mágicas: um filho visita a mãe, velha e muito doente. Pergunta

- Sente dores, mãezinha?

e ela responde

- Tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer

e fiquei parvo com isto. Entre parênteses adoro ficar parvo com o que os outros escrevem: só costumo ficar parvo comigo, a interrogar-me de onde é que é aquilo saiu, porque não foi de mim com certeza, de maneira que penso que a mão de um anjo substituiu a minha. Tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer é uma pérola única. Igual à vida: quantas vezes senti isto, sinto isto, sem ser capaz de o exprimir. As dores que me pertencem são fáceis, as que não estou certo de me pertencerem custam tanto. Viro-as para um lado e para o outro, estudo-as contra a luz, experimento-lhes o cheiro, a consistência, a cor e a dúvida perpétua

- Pertence-me?

a perplexidade, a hesitação, enquanto a dor dói e me faz sofrer para burro. Estamos muito bem na sala e aí anda ela pelos cantos, fazendo de conta que não existe e no entanto a arranhar, a arranhar, ou antes a lacerar-nos todos, a gente para a dor

- És tu?

e não responde, finge que se vai embora e fica, que não nos liga e insiste, que não quer saber de nós e não desanima. Até no meio do prazer, até no meio da alegria permanece, alarga-se, entra mais fundo, com um arzinho distraído, não nos deixa em paz. Para quê falar nisto, o que interessam as minhas dores, de resto? É agosto e se fosse pequeno estava a caminho de Nelas com a família, não, Nelas em setembro, em agosto a praia, o raio de uma praia sem sol, nevoeiro e frio, a vendedora de bolos a passar com o cesto, as ondas cinzentas. Uma casa pequenina, alugada, a gente ao monte lá dentro. Eu lia, comprava o jornal desportivo, compunha versos que deviam ser frescos. E, toda a noite, o cordeiro do mar a balir. A minha mãe em fato de banho, o meu pai aos fins de semana, a cheirar a cachimbo, comigo na cama, de tábua nos joelhos, a aperfeiçoar redondilhas. Que diabo de texto é este em que comecei em Dickens e já vou nas redondilhas? A culpa é da esferográfica que vagabundeia sozinha. Nos livros sou disciplinado, nestas prositas divago. A dor, que não estou certo de me pertencer, abranda e depois volta, digo-lhe

- Olá, dor

e não lhe dou confiança. Não se deve dar confiança nem a nós, há que nos pôr em ordem. Põe-te na ordem, António, tu que durante a vida inteira detestaste obedecer. Aliás não te podes queixar, passaste o tempo a fazer o que querias. Agora, sei lá porquê, veio-me à ideia o meu irmão Pedro, o silêncio dele. Gosto de silêncio, de escutar palavras não ditas. Também gosto de pessoas que falam porque me permitem ir embora continuando ali. Elas falam, digo que sim com a cabeça e não estou. Estou onde? Na varanda da Beira a olhar a serra, por exemplo. Ou em parte nenhuma, num esconso interior, sentado no chão, de joelhos na boca, escutando o que não há. Desde que me lembro escuto o que não há, deixo que as coisas se inventem cá dentro, a minha cabeça é uma praia que a água invade e esquece. Neste momento, por exemplo, invadiram-me os travestis do meu bairro, com o seu único par de sandálias, heróicos no passeio, um movimento para diante quando se aproxima um carro, um movimento para trás quando o carro se afasta. Conquistaram duramente o quarteirão às mulheres pagas, após brigas de alto lá com o charuto entre os rapazes que protegem os dois negócios, um ganha-pão

(agrada-me o termo ganha-pão)

trabalhoso porque implica vigilância constante e bofetada fácil, para além dos quilos suficientes para se darem ao respeito. Lá voltam os Tempos Difíceis

(dar-se ao respeito também me agrada)

- Sente dores, mãezinha?

e no caso de se interessarem por mim o que responderia? Talvez, lá no fundo, mas disfarço, garanto. É que existem coisas que não sararam na alma, não hão-de sarar nunca: as árvores de um cemitério de província a tremerem, algumas mortes, a minha violência tantas vezes injusta, patetices, indelicadezas, faltas de atenção com quem o não merecia. Espero ter melhorado, acho que melhorei mas continuo sem me perdoar o egoísmo necessário à escrita que me obrigou a cortar tantos pescoços que se interpunham entre eu e ela. No entanto, aprecio o António: comove-me a sua feroz guerra civil interior, a vulnerabilidade escondida, a compaixão que não mostra. O imenso orgulho que tem nos seus poucos amigos, a admiração por eles, o respeito. Dois homens, quando são homens, estão condenados a entender-se, não é? Agosto e o bairro deserto. Sobro eu, o senhor Cardoso da mercearia, o senhor Miguel do café, pouco mais. Ah, o senhor Varela a quem todos os dias pergunto pela diabetes. Até os pombos se foram, os restaurantes fechados. O senhor Cardoso viaja para a Beira Alta, perto de Seia, perto de mim. Fala da terra numa exaltação que me toca, mostra fotografias de casas e ruas, enquanto a esposa aprova. E o ar, senhor doutor? E a beleza daquilo? Alimento-me dos iogurtes que lhe compro, recebem o meu correio

- Uma encomendazinha do estrangeiro de que a dona Irene corta as guitas com a faca: livros

- Muito livro há-de ter você

acha o senhor Cardoso, cujo filho, ao que parece, lê que se desunha:

- Lê tudo, o meu filho

e a dor que anda por aí e não estou certo de me pertencer amaina. Se a Joana

- Sente dores, paizinho?

afiançava-lhe logo que não, quais dores, que tolice. Dúzias de lugares para automóveis na rua, um casal na esplanada do senhor Miguel, um compincha drogado que a cocaína electriza. Mostra-me as tatuagens das cadeias

(Vale de Judeus, Pinheiro da Cruz)

onde passa temporadas a banhos por assaltar pessoas com um canivete. Garante

- Se fosse preciso matava por si

e desaparece num salto, pobre esqueleto desfeito. Dor nenhuma claro, Joana. Só que de tempos a tempos, mas isso não te digo, o coração num pingo. Não tarda nada passa, julgo eu. Julgo não, tenho a certeza: mais um minuto ou dois e há-de passar.

16 agosto 2009

..::Crónica do Amor::..


Os cães não param de ladrar no jardim, achas que alguém está a tentar roubar-nos? O portão é tão fácil de abrir, as janelas nem grades têm, qualquer pessoa entra aqui com um empurrãozinho e depois os cães não fazem mal a ninguém, só servem para sujar tudo e estragar os canteiros, estou para saber porque carga de água os comprámos sem falar na despesa com o veterinário e a comida, na porta do alpendre toda estragada em baixo, no cocó espalhado na garagem que nos obriga a fazer uma gincana até chegarmos ao carro. E o cheiro, meu Deus, mesmo os miúdos tresandam a cão, respondes-me que todos os miúdos tresandam a cão a começar pelos que não têm cão, faz parte da natureza deles, depois crescem. O problema é que demoram eternidades a crescer e enquanto crescem e não crescem vão escavacando tudo, pés no sofá, tampos riscados, o chichi fora da retrete, molho sempre o rabo quando me sento no aro. E se a gente desse os miúdos de mistura com os cães ou os deixasse na rua na esperança que a camioneta da Câmara os leve? Ficava um de nós lá fora, a tomar conta por causa dos ladrões, metade da noite eu, metade da noite tu, escondidos num buxo, prontos a morder, peço ao dentista que me aguce os pivôs e de pivôs aguçados corta-se madeira com eles, quanto mais um braço, uma perninha. Não me espreites assim que não te faço mal nem estou maluca, os cães dão-me cabo dos nervos e uma pessoa exagera, diz coisas que não pensa, arrepende-se. Bichos e crianças são mais ou menos a mesma coisa sobretudo aos fins de semana, eu o tempo inteiro com eles e tu no interior do jornal a tapares as orelhas com notícias, a leres os suplementos, a encheres o universo de papel, há páginas que caem e avançam tapete fora e depois o jornal é gordo e eu nem um olhar mereço, já nem falo num sorriso, um olharzito de cacaracá, uma frase de tempos a tempos, um elogio. Cortei o cabelo, reparaste? Conheces estes brincos? O bâton rosado? Pensas que os homens não se interessam por mim? Ainda ontem me deram trinta e seis anos, não interessa quem, podes perguntar que não respondo. Estás a ler o jornal ou a dormir? Ainda ontem me deram trinta e seis anos, palavra, e tu há uma semana sem me tocares, trinta e seis anos, compreendes, repara nesta cintura, neste peito, o pescoço lisinho, as pernas sem uma variz, celulite e estrias viste-as, se me apanhassem nua os trinta e seis baixavam para dezanove ou vinte, com um perfume que eu cá sei para dezoito até, nem uma jeitosa de dezoito anos te fala à alma pois não, dezoito anos, palpita, e não palpitas, se um ladrão me levar não dás conta, pensas que tens alguma graça, tu, quase careca, essa barriga, pensas que dizes coisas que se aproveitem, às vezes, ao falares, ficas com esponjinhas de cuspo nos cantos da boca, não existe pior friagem para uma mulher que esponjinhas de cuspo nos cantos da boca, só de lembrar isso enjoa-me, nem sei como aguento, o que terei visto em ti, daqui a nada arranco-te o jornal das mãozinhas e para quê arrancá-lo se arrancando-te o jornal dou contigo e com as esponjazinhas, com os pêlos do nariz que bem podias cortar, quando tentei cortar-tos começaste logo a torcer-te
- Estás a fazer-me cócegas

e não estava a fazer cócegas nenhumas, estava a por-te decente, aposto que na empresa se metem contigo e te chamam gorila, pêlos no nariz, pêlos nas costas, onde é que tu não tens pêlos e a parva da minha irmã a achar-te viril, se ela soubesse do que a loja gasta, como posso ter ciúmes de ti se nem para este peditório dás, há pastilhas na farmácia que ajudam, se te estenderes com uma amiguinha ela

- Então?

e tu, como fazes comigo

- Isto é como um avião, custa a descolar mas depois voa muito alto

e voa muito alto o tanas, mal deixa de sentir a pista aterra, lá vem a desculpa do costume

- Preocupações no emprego

tento ajudar na descolagem e népia, por mais que me esforce, e só falta dar pinos, o avião poisado, se me perguntassem

- Como é que engravidou duas vezes?

a única resposta verdadeira seria

- Como Nossa Senhora

e juntando-nos às duas, a ela e a mim, o Espírito Santo fez obra e graça três vezes, nada mal para um pombo, não estendas o garfo para o cinzeiro que em vez de me acertares com ele vais partir a cristaleira e os cálices de rebordo doirado são meus, vai na volta os miúdos, daqui a uns anos, ainda saem a ti nesse aspecto visto que fisicamente, em lugar de se parecerem com o Espírito Santo, que era a obrigação deles, se parecem contigo, deixa o cinzeiro em paz, deixa o anjinho de mármore em sossego, deixa o atiçador da lareira no sítio que não sou frango de espeto, sou mulher, repara neste peito, nesta cintura, neste pescoço lisinho, nestes tornozelos estreitos, deixa cá ver como está o avião, não me empurres, fechadinho no hangar coitado, eu já desconfiava e de chocolate ainda por cima porque amoleceu com o calor, os cães não param de ladrar no jardim, achas que alguém está a tentar roubar-nos, se um gatuno me levasse era feliz garanto-te, quarenta e cinco anos e dão-me trinta e seis, o médico a preencher a ficha

- quarenta e cinco não acredito

e ao tirar a blusa para a auscultação ainda acreditou menos e isto sem estéticas, sem postiços, tudo meu, tudo firme, não preciso de ginásios, não preciso de dietas, o médico para mim

- Almoço sozinho já viu a minha tristeza?

e eu com pena da tristeza dele, com pena do metro e oitenta, com pena dos olhos verdes, realmente há pessoas infelizes, a cabeça cada vez mais perto do estetoscópio, a respiração dele na minha espinha, a impressão que o queixo me roçou uma ou duas vezes no ombro, não afirmo que roçou, afirmo que a impressão, a enfermeira ao trazer-lhe uns papéis

- Algum problema senhor doutor?

e eu aflita com o nervoso do homem, olhos verdes com pestanas compridas, um after-shave mais caro que o teu que para os after-shaves tenho olfacto, só não tive olfacto ao ir na tua cantiga, cuidado com o atiçador que te magoas, até parece que queres jogar à espada comigo, acaba com as fitas, senta-te no sofá, agarra no jornal que para isso ainda serves, agarra no jornalzinho, não me apertes o braço, não me puxes o cabelo, não faças boca de Drácula, pensa nas esponjas de cuspo e aguenta-te, não me obrigues a correr à volta a mesa que com os saltos não consigo, dá cá o atiçador, pronto, deixa-te de palermices, prometo que peço ao médico a marca do after-shave, aproveitas para comprar na farmácia lentes de contacto que tornam os olhos verdes, ajudo-te as pestanas com o meu rímel, só nos fica por tratar o problema do avião, se calhar lingerie preta ajuda à descolagem, se largares o atiçador faço-te voar alto, juro, se largares o atiçador tocas o céu com as asas.

05 junho 2009

...ficarás aqui ao ires-te embora, é aqui que pertences...


O que vêem os olhos quando já não podem ver

Para a Rita, que sabe enxotar papões

Isto que escrevo é o quê? Uma pessoa a bater à porta sem que lhe respondam e continua a insistir numa monotonia aflita? A mão que imita no papel a chuva da janela? O silêncio do outro lado das vozes quando as nossas lembranças, uma a uma, se calam? Um velho a morrer sozinho num terceiro andar sem elevador e na cabeça dele, não alcançando a boca, o chamamento que só eu oiço

- Elisa

e o relógio de parede que só ele ouve, com todas as horas da sua vida dentro, as insignificantes, as grandes, um barco a afastar-se? Será isso acabar, um barco que se afasta, uma senhora a dizer adeus com o lenço, por trás do lenço um sorriso e por trás do sorriso ninguém, nem o que pensamos ser a nossa sombra? O lugar onde o Mondego nasce, num fiozinho, entre pedras e o sol no fiozinho e a tua sombra dentro? Isto que escreves é o quê? O teu pobre corpo no hospital, há dois anos, um corpo que não é teu, és tu, um trapo que tenta resistir, desiste, continua e tu, sem orgulho nele, a vê-lo desobedecer-te, diluir-se? Qual o teu nome verdadeiro sob o nome que te chamam e nem a tua mãe conhece? Escreves para quem se estão mudos, se não podem ler-te, se lendo-te se distraem de ti e te abandonam? Que sentido fazes e a quem esse sentido importa? Haverá alguém mais sem companhia do que aquele que fala? Depois de não seres virão escutar-te ou são os móveis da casa que escutam, as cruzetas baloiçando sem descanso nos varões, seja o que for parecido com o mar, a sétima onda que sempre procuraste e nunca veio, vem um enfermeiro medir-te a temperatura na orelha e queres dizer-lhe e não consegues, ao não conseguires perdes o que querias dizer e em ti

- Elisa

e o relógio de parede com todas as horas da tua vida dentro, sobretudo as que não viveste e te gastaram, mínimas horas entre as quatro e as seis quando era possível, ainda, encontrar um buraquinho onde coubesses neste muro? Não te lamentes, não te tornes amargo, não esperes: ocuparam o teu lugar, não tens espaço, fica o pó de algumas frases que um sopro distraído varrerá, um lugar nas selectas, títulos que penduraste à entrada dos teus gritos, nada porque nada te atinge ou te perturba, é tarde. Isto que escrevo é o quê? A empregada continuará a vir, a tomar conta da casa, a deixar-te bilhetes, a surpreender-se com a ausência de roupa no cesto, a ausência de correio, a ausência de ordens, a camisa azul precisa de, lave melhor o plástico do chuveiro, não encontro a faca do queijo na gaveta? Tão quotidiana foi a tua vida, pequeninos gestos, pequeninas maçadas, pequeninos projectos, pequeninos desejos e tanta luz em volta que te não pertence. És uma estátua entre estátuas, cegaste? Quem passeia o cão que não tens, quem examina o que te resta de intestinos, quem morrerá contigo se morreres? Fotografias de outro, cartas de outro, o teu prato não na mesa, vazio, limpo? Mais perguntas ainda ou nenhuma pergunta, vais-te embora e ficas, durarás para sempre a esta mesa, nesta rua, neste quarteirão, a lembrares-te do homem que vivia com o gato e passava fome para comprar fiambre ao bicho, peixe caro, miminhos, enquanto ele se alimentava de cerveja, resmungos e cigarros? Ou o sujeito enorme que ao deixares o automóvel no passeio te tranquilizou, olhando o fulano das multas com desprezo

- Vá sossegado, doutor, que por cima de mim só os aviões?

Ou aqueles que não te deixavam pagar a torrada, o Julinho, o Carlos, os outros que, ainda estás para saber porquê, te estimavam? O paquistanês que se despediu de ti a apertar-te a mão, comovido

- Tenho de me ir embora, desculpe, não ganho um tostão com a loja

sentindo-se culpado de ser pobre? O senhor Varela, digno, delicadíssimo, de cabelos brancos, a quem o cancro levou a esposa e se injectava derivado aos diabetes, iluminando a esquina ao cumprimentar-te

- Ontem à noite senti-me mal, rezei dois Padre-Nossos, melhorei

a solidão que morava nesta conversa, rezei dois Padre-Nossos, melhorei? Senhor Varela, senhor Miguel que te oferecia do bolo que a mãe fez no Alentejo, João Paulo, Vítor, Senhor Cardoso, dona Irene, senhor Jorge, sempre tão atentos contigo, generosos? Senhor Leonel, senhor Paulo, um rosário protector à tua volta e tu a pensares

- Não mereço a vossa estima? Formaram a matéria dos teus livros, ensinaram-te tanto, e tu é que eras o doutor, tu é que eras importante, que patetice, que asneira, ficarás aqui ao ires-te embora? Ficarás aqui ao ires-te embora, é aqui que pertences, reencontraste a Benfica perdida neste lugar de Lisboa, nestas pessoas que não sonham o que lhes deves nem acreditam em ti por mais que o repitas

- O senhor doutor está a brincar

convencidos que estás a brincar e não estás a brincar, é no meio desta gente que te sentes bem, deste canto que ninguém a não ser nós sabe onde fica, é para eles, que te não lêem, que escreves. O senhor Ribeiro, que ainda não saiu da guerra na Guiné, a dona Fernanda que te enrolava salsichas em couve lombarda, a esplanadazinha com as empregadas brasileiras do cabeleireiro? O teu avô nasceu em Belém do Pará, o teu bisavô nasceu em Belém do Pará, ao teu trisavô, filho de camponeses da Póvoa do Lanhoso, meteram-no num veleiro faz-te à vida, e ele fez-se à vida, que remédio, e lá andou na borracha, aguentou-se. Chamava-se Bernardo António Antunes e aguentou-se. Aguenta-te tu. Isto que escrevo é o quê? O trineto do senhor Antunes a aguentar-se, a nobreza dele um casinhoto que deixou de existir há séculos, na Póvoa do Lanhoso. Todo o Minho do sangue do senhor Antunes está no teu, é uma criança num veleiro, a fazer-se à vida. Faz-te à vida, miúdo. António Antunes, mais o Lobo da nora do senhor Antunes, Leopoldina claro, como a imperatriz. O teu pai tinha retratos dela, morreu nova. Isto que escreves é Belém do Pará a tremer ao longe nas histórias que te contavam em pequeno, mamãe diz ao papai que eu quero ir para a guerra do Paraguai. E vou. Pensando bem já lá cheguei há que tempos.

31 maio 2009

...só por um bocadinho de nada, antes que continue,... importas-te de me dar a mão?




É da tua mão que eu preciso agora



É da tua mão que eu preciso agora. Há momentos, sabes, que me sinto tão cansado, todos estes dias cheios de palavras que me fogem. Então penso em ti: Joana. Penso: vou contar-te uma coisa. Há pouco tempo morreu a filha de um amigo meu, homem generoso e bom, melhor do que alguma vez fui. Um cemitério é um lugar horrível e a dor dele doía-me. Depois de tudo acabar voltei para o automóvel. Eram muitos passos nas veredas a voltarem para os automóveis. O caixãozinho branco. Aquelas árvores que tu conheces de quando a gente há dois anos. Despedi-me das pessoas um pouco ao acaso, sem sentir os dedos que apertava: têm tantos dedos as pessoas. Nem me lembro já porquê abri a mala do carro. Estavam lá dentro coisas tuas de Espanha: batas, papéis, as inutilidades confusas que estás sempre a juntar. Peguei numa das tuas batas, abracei-a. E desatei num choro de menino, de cabeça inclinada para a mala do carro na esperança de que não me vissem. Depois lá enxuguei o nariz à manganunca perdi o hábito de enxugar o nariz à mangaengoli-me a mim mesmo e vim-me embora. Sempre que me sento no teu carro lembro-me de ti. Também me lembro quando não me sento no carro mas sempre que me sento no carro lembro-me de ti. De ti e de Malanje onde começaste a ser, e as mangueiras tremem-me no interior do sangue.Mas é da tua mão que eu preciso agora. Há momentos em que me farto de ser homem: tudo tão pesado, tão estranho, tão difícil. Eu vou tendo paciência e no entanto, às vezes as coi­sas magoam, há ideias que entram na gente como espinhos. Não se podem tirar com uma pinça: ficam lá. É então que a cara prin­cipia a estragar-se e a gentedizemenvelhece. Necessito de muito pouca coisa hoje em dia: uns livros, o meu trabalho de escrever, amigos que se estreitam com o tempo, alguns deixados para trás, não sei onde. A minha avó dizia que fui a pessoa por quem chorava mais. Nunca acre­ditei. Era autoritária, mimada, sedutora: tratava-me tão bem! Jogávamos a ver qual de nós dois conquistava o outro: andáva­mos mais ou menos empatados(sabes como detesto perder)e nisto ela morreu. Recordo-me de sair de sua casa e vir à cervejaria comer. Ainda não tinha tempo de sentir-lhe a ausên­cia. Pedi o jornal desportivo ao empregado. Ao voltar para cima achei-a vestida sobre a cama.Agora é novembro, tenho frio, ando às voltas com um romance de que não estou a gostar. Nunca estou a gostar do que escrevo, acho aquele em que trabalho o mais difícil, acho que as palavras me derrotam. Frases puxadas como pedras de um poço que não vejo. Banalidades que me indignam por estarem tão longe do que quero. Capítulos que me fogem, o plano da his­tória dinamitado pelos caprichos da minha mão, que não faz o que pretendo: escapa-se sempre, inventa, tenho de apanhá-la a meio de um período inverosímil. Talvez seja por isso que preciso da tua. Ou não por isso: não bebo e no entanto há alturas em que me sinto tão só que é quase o mesmo. E sem essa solidão não me é possível escrever. O meu amigo a quem morreu a filha chama-se José Francisco. Quando sorri os cantos da boca parecem levantar voo. Faz-me bem. Gostava de sorrir assim. Experimentei ao espelho e não é igual. Quer dizer, a boca curvou-se mas os olhos ficaram fixos, duros. Deixei de sorrir e enchi a cara de espuma da barba, até ser apenas nariz e olhos. Então sorri outra vez e os olhos acharam graça e mudaram. Os meus olhos sérios olhavam para os meus olhos divertidos. Pisquei o esquerdo e o espelho piscou o direito. Lavei a cara, apaguei a luz, saí. Por um segundo veio-me a sensação de caminhar em Malanje. Aquele cheiro da terra, demorado, opaco, violento. E pronto, é tarde. Em chegando ao fim da página aca­bou-se. Ponho a tampa na caneta, os cotovelos na mesa e fico a observar a parede. Nem vou reler isto, mando tal e qual. Prefiro observar a parede, deixar-me impregnar devagarinho pela essên­cia das coisas. Esta cadeira, aquele móvel, uma manchinha de cinza no chão, as minhas mãos geladas de frio a acabarem esta crónica. Se calhar amanhã telefono-te. Ou regresso ao romance na teimosia dos cães. Penso: nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Comecei-o no princípio de outubro, falta muito. Alinho os papéis, ponho tudo em ordem para a escrita. Nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Leio a última frase, continuo. Só por um bocadinho de nada, antes que continue, importas-te de tirar as batas do carro? Importas-te de me dar a mão?
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António Lobo Antunes
in "Segundo Livro de Crónicas"

23 maio 2009

...há coisas que um homem não pode aguentar...





Crónica do cálice de bagaço



A mulher levou-lhe o filho para casa dos pais, informou que queria viver a vida dela, meteu a roupa na mala, foi-se embora.

- Não lhe vou pedir batatinhas

(diz-me ele)

há coisas que um homem não pode aguentar.

Não aguenta, de facto, carrega nuns bagaços que o ajudem, insiste

- Há coisas que um homem não pode aguentar

e os bagaços não ajudam lá muito, já experimentou calmantes, trazer pequenas, ir ao bar de alterne com os amigos e nada disso ajuda muito também.

- Quem é que ela pensa que é?

(pergunta-me ele)

explique você que tem estudos quem é que ela pensa que é?

Não penso seja o que for, não a conheço, dois miúdos disputam uma bicicleta na rua, um coxo dá à bomba à perna doente, avançando contra a maré do passeio: não anda, marca penaltis a chutar a perna defeituosa, e ao imaginar a trajectória da bola invisível o

- Quem é que ela pensa que é?

longíssimo. Uma palmada no balcão

trá-lo de volta:

- Está-me a ouvir ao menos? Não deixou uma blusa para amostra

no momento em que o coxo consegue um pontapé perfeito, não esses tortos, para o céu, como se Deus jogasse. Limpa o balcão com um resto de toalha, a apagar a palmada

- Desculpe lá amigo, a gente exalta-se

seguido de uma tosse até ficar roxo porque o bagaço se enganou no caminho. Endireita-se a esfregar na manga lágrimas de engasgado, em que aproveita para incluir uma da alma

- Não lhe vou pedir batatinhas

e engrena na descrição dos fins de semana sozinho, almoço com o jornal, jantar com a televisão, um amigo de vez em quando, músico na filarmónica da polícia, a quem o clarinete anda a tirar o fôlego

- Soprar de manhã à noite cansa

também partidário do bagaço

(o coxo some-se na esquina num último remate)

que se lhe planta à mesa de cotovelos na toalha, mudo como um gato pingado ou a falar da filha solteira, que o clarinete pensa que engravidou de um padre:

- De quem é a barriga?

ordena ele e a filha atrás do cotovelo

- Não me bata senhor

a esposa do músico que se foi embora também

- Uma desgraçada

acerca da qual aprendo que tinha uma névoa no olho direito que os médicos não foram capazes de consertar e portanto torcia a cabeça, como os periquitos, para dar fé do mundo

- Tanto a torceu que se foi embora com um ourives para a Covilhã

a dissolver-se nos fundos de uma loja. A garrafa não parou de viajar entre a prateleira e o copo

- É servido?

demora-se um momento

- A Covilhã, amigo

no tom em que se fala dos Camarões ou da Tailândia

- Cabe na cabeça de alguém morar na Covilhã?

e o copo quase até cima porque a Covilhã o assusta, experimenta concebê-la

- Será como Aveiro?

onde a mãe dele nasceu e os barcos passeiam nas avenidas

- A minha mãe contava que os barcos passeavam nas avenidas

e eu a imaginar paquetes em alamedas, becos, ondas de encontro aos prédios, peixes nas árvores:

- A minha mãe de Aveiro, o meu pai de Coimbra

não bem Coimbra, uma aldeia perto

- Vinte quilómetros, nunca lá pus os pés

e o bagaço de regresso à prateleira com um letreiro colado a adesivo As bebidas expostas são para consumo no estabelecimento, e pelos vistos são. Pelo menos a garrafa a três dedos do fim

- Que se lixe o fígado, ouviu?

a apontar o próprio cinto

- Que se lixe o fígado

e a mulher a viver a vida dela enquanto ele lixa o fígado. No Centro de Saúde há um cartaz com um fígado são e um fígado doente, lado a lado, e o fígado doente uma esponja esburacada. A enfermeira anunciou-lhe que derivado à esponja esburacada a barriga cresce e ele a esmurrar o tórax, vitorioso

- Ainda está lisinha

(quantos golos terá marcado o coxo, desde que nasceu até agora?)

ao fim do dia desce uma placa de ferro sobre a porta, tranca-a com um cadeado, vai para casa espiar o guarda--fatos vazio, a cama do filho vazia, um frasco de perfume esquecido na mesa de cabeceira, circula de compartimento em compartimento a farejar ausências. Tenho uma
ideia vaga da mulher, pequena, ruiva, uma ideia do filho

(Nelson)

acocorado num degrau, no Carnaval em que o mascararam de Gato das Botas, com bigodes de carvão nas bochechas e o rapaz triste de não ser Príncipe ou Astronauta. Recordo-me do pai, ultrajado com as pretensões espaciais do filho

- Se te apetece um foguetão sai mais barato dar-te uma chapada que vês logo as estrelas

de modo que o Gato das Botas resignado aos bigodes de carvão e à cauda feita de um rolo de vedar janelas. A vizinha de fada e o Nelson, de Gato das Botas apenas, deve ter indignado a ruiva, despertado o instinto malévolo de viver sozinha

- Na galderice como as outras

a prometer-se a si mesma um explorador lunar. Mete a rolha no gargalo com um soco feroz

- Até já me informaram que arranjou um carteiro como se fosse emprego tocar campainhas e meter envelopes em buracos

confronta-me com a possibilidade tenebrosa

- Que raio de mulher se interessa por um camelo que mete envelopes em buracos?

e a lembrança do frasco de perfume esquecido a aumentar, de chinelos conjugais no corredor, de outra escova de dentes no copo, e de repente uma vozinha de pavio de círio

- Você sabe o que é ter saudades de uma escova de dentes, amigo?

Por acaso sei, enfim julgo que sei mas calo-me. Uma escova de dentes cor de rosa, com pêlos brancos um bocadinho desgrenhados, uma escova de dentes linda a iluminar-me uma zona escondida da alma. Procuro trocos na algibeira, peço

- Dê-me aí um calicezito de bagaço

que não me importa que o meu fígado se torne uma esponja esburacada. A gente tem de morrer de qualquer coisa, não é?