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27 setembro 2008

...Luz entre Sombras...


LUZ ENTRE SOMBRAS



(MACHADO DE ASSIS, in Falenas, 1870)





É NOITE medonha e escura,
Muda como o passamento,
Uma só no firmamento
Trémula estrela fulgura.



Fala aos ecos da espessura
A chorosa harpa do vento,
E num canto sonolento
Entre as árvores murmura.



Noite que assombra a memória,
Noite que os medos convida
Erma, triste, merencória.



No entanto... minh'alma olvida
Dor que se transforma em glória,
Morte que se rompe em vida.

04 abril 2008

...já nada o tenta...nem o nascer do dia...





SER DE PASSAGEM




O homem parou no patamar da

noite, os olhos como pássaros

rendidos ao luar. Os ombros

firmes como árvores. Os lábios

destilando o mar. Ébrio do susto

de estar só, só a noite o invade.

Pássaro sem bando, árvore sem

pomar, difícil de ser verdade.

Nada é brusco em seu olhar.

Dos dedos resvalou há muito o

mando, já não existe de fora

em que mandar. E quase rei,

todavia. Só a noite o sabe, é seu

par nesta agonia lenta.

Já nada o tenta.

Nem o nascer do dia.


-SILVA MARQUES-

22 fevereiro 2008

A Noite





A noite vela mais do que suspende

E na última essência é uma reserva:

Ao seu corpo de sombra a alma se rende

E é no fundo do mal que nos conserva.



Pela mão que nos livra do desejo

Traz a noite a luxúria de amanhã:

Frio selo de paz, seu breve beijo

É vazio de amor, como ela é vã.



Com as cargas do dia no seu molhe,

Alivia o passado, a aurora o espera,

Mais uma vez na noite se recolhe



E, pedra a pedra erguendo o sonho e a era,

Tempo de noite deu a volta à esfera:

A terra aí está para que Deus a olhe.



-Vitorino Nemésio-

01 dezembro 2007

ESTA CANÇÃO ESTAVA CAÍDA NO CHÃO




Esta canção estava caída no chão,
como uma folha morta, sem palavras;
acharam-na uns homens que logo ma deram
porque tiveram medo de aprender a cantá-la.

Então eu ignorava que também as canções,
como as folhas mortas caíam das árvores;
não sabia que a lua se enredava nos ramos
náufragos que sonham sob o cristal da água,
nem que comiam os peixes pedacinhos de estrelas
no silêncio das noites claras.

Então eu ignorava muitas coisas iguais
que eram todas possíveis na terra do vento,
onde a lenda não é uma maléfica erva
crescida nas ribeiras, mas uma árvore de vozes
com as quais dialogam as sombras e as pedras.

Então eu ignorava muitas coisas iguais
quando ainda não era minha
esta canção que estava caída no chão,
como uma folha morta, sem palavras;
porém agora já sei das formas distintas
que precedem o olho da carne que mira,
e até posso dizer porque caem de joelhos,
nas olheiras longas que circundam a noite,
as diluídas sombras dos pássaros.

(FRANKLIN MIESES BURGOS, trad. Paulo Rato)

24 outubro 2007

As Mãos





Com mãos se faz a paz se faz a guerra.

Com mãos tudo se faz e se desfaz.

Com mãos se faz o poema - e são de terra.

Com mãos se faz a guerra - e são a paz.




Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.

Não são de pedras estas casas mas

de mãos. E estão no fruto e na palavra

as mãos que são o canto e são as armas.



E cravam-se no Tempo como farpas

as mãos que vês nas coisas transformadas.

Folhas que vão no vento: verdes harpas.



De mãos é cada flor cada cidade.

Ninguém pode vencer estas espadas:

nas tuas mãos começa a liberdade.



-Manuel Alegre-




12 As mãos.mp3

29 setembro 2007

Já não posso olhar as palavras como dantes...


Já não posso olhar as palavras como dantes.

O tempo apagou-me das mãos tantos desejos.

É possível que a minha boca

se encha de silêncios,

à míngua de alegria,

como se uma noite inquieta

me ardesse nos ossos

e as aves me segredassem

ausências sem recuo.

Porém, já outros pássaros

reiniciam um voo mais que perfeito,

à procura de um lugar

onde, transfigurados, possam tecer, de novo, as suas asas.


-Graça Pires-

22 setembro 2007

A Dúvida




Quero crer tanto em ti que não te creio,
dita a tormento que o viver me envia;
em teu afecto, claro como o dia,
vagam sombras que me enchem de receio.

Quando a incerteza no teu rosto leio,
pudesse eu te matar, te mataria!
Oh, quanto é dolorosa esta alegria
de te adorar sentindo que te odeio!

Santa virtude, benfazejo olvido,
faze que eu veja meu intento honrado
com igual honradez correspondido!

Leva a dúvida, Amor, que me tens dado,
que eu, a não crer assim, sendo querido,
quisera antes ter fé sendo enganado!


(RAMÓN DE CAMPOAMOR,
trad. Heitor Lúcio )

Busquei a ciência...









Busquei a ciência, e mostrou-me o vazio.
Logrei o amor, e conquistei o fastio.
Quem de seu peito desterrar pudera,
a dúvida, nossa eterna companheira!.
Que é preciso ter na existência?
Força na alma e paz na consciência.
Não tenhais dúvida alguma:
felicidade suprema não há nenhuma.
Ainda que tu por modéstia não o creias,
as flores em tua fronte parecem feias.
Pintar-te-ei num cantar
a roda da existência:
Pecar, fazer penitência
e, depois, volta a começar.
Neste mundo traidor,
nada é verdade, nem mentira,
Tudo é conforme a cor
do cristal com que se mira.


(RAMÓN DE CAMPOAMOR,
in Humoradas, 1886; trad. Paulo Rato)

18 agosto 2007

Um Poema

Não tenhas medo, ouve:

É um poema.

Um misto de oração e de feitiço...

Sem qualquer compromisso,

Ouve-o atentamente,

De coração lavado.

Poderás decorá-lo

E rezá-lo

Ao deitar,

Ao levantar,

Ou nas restantes horas de tristeza.

Na segura certeza

De que mal não te faz.

E pode acontecer que te dê paz...


-Miguel Torga-
(in "Diário XIII", 1983; "Poesia Completa", 2000)

14 abril 2007

Tempo

Tempo essência do Espaço eterno. Tempo — fio
Da vida, mas que enleia a vida e a morte agoura,
Ligando o que hoje cria à destruição vindoura:
Cada berço nascente a um túmulo vazio!

Ilude se é veloz, engana se é tardio,
Porque só se lhe altera a força imorredoura,
Quando encanece o campo ou quando o campo aloura,
Causando o outono, o inverno, a primavera e o estio.

Transforma as cousas: cerra um astro e outro descerra.
Mas, sem que a vida enerve e sem que a morte afoite,
Mantém a coexistência orgânica da Terra.


Desvenda, aos poucos, tudo o que o mistério acoite.
E ao Sol sempre cingindo o mundo, o mundo encerra
No eterno ciclo — a aurora, o dia, a tarde, a noite.


-Luís Carlos de Urquiza Nóbrega-


(mais um poema que me chegou dos Amigos do LUGAR AO SUL... obrigado pela partilha, pázinhos... )