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24 fevereiro 2015

...happy...





""Há quem confunda a alegria com a felicidade. A alegria não se parece com a felicidade, a não ser na medida em que um mar agitado se parece com um mar plácido. A água é a mesma, apenas isso. A alegria resulta de um entorpecimento do espírito, a felicidade de uma iluminação momentânea. O álcool pode levar-nos à alegria - ou um cigarro de liamba, ou um novo amor - porque nos obscurece temporariamente a inteligência. A alegria pode, pois, ser burra. A felicidade é outra coisa. Não ri às gargalhadas. Não se anuncia com fogo de artifício. Não faz estremecer estádios. Raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no instante em que somos felizes. Eu fui feliz - nos meus últimos dias - em clarões de assombro."

30 abril 2010

...já acordado, continuei a imaginar como poderia ser um mundo assim...


« Há tempos tive um sonho um pouco estranho. Sonhei com um povo cujas mulheres jovens se transformavam em crisálidas. Ao fim de vários meses, rompiam-nas e emergiam para a luz, aladas, como se fossem anjos. Essas mulheres punham ovos, grandes ovos, e estes eram chocados pelos homens. Só as mulheres tinham asas, membros, aliás, muito pouco práticos: de cada vez que elas as sacudiam, dentro de casa, lá se quebrava uma jarra.
Os homens chocavam os ovos, pescavam, guardavam e limpavam as crisálidas. Já acordado, continuei a imaginar como poderia ser um mundo assim. Deixemos as asas de lado, concentremo-nos nos ovos. Se as mulheres pusesem os ovos, e nós os chocássemos - ou ainda que os ovos fossem chocados em conjunto- isso daria aos homens, também, o privilégio da maternidade e talvez, desse modo, nos tornássemos menos egoístas.»

José Eduardo Agualusa,
in "Um Pai em Nascimento"

22 setembro 2009

...podes contar à galáxia e aos seus sobreviventes que, um dia me fizeste rainha...


"Podes dizer ao mundo inteiro que estas letras são tuas. Assim como os desenhos que fiz, os espaços que deixei. Podes dizer a toda a gente que um dia te amei e que foste tu quem me fez poeta. Podes nadar em orgulho ao saber que todos os copos que bebi foram por ti. Que os cigarros que fumei ansiosa e apressadamente foram pela saudade do teu corpo.



Quando falarem de raios e relâmpagos, de trovões e de tufões, vais poder dizer que fui eu quem fez a China, quem ergueu muralhas e deitou as lágrimas de sangue. Quando te perguntarem se um dia me conheceste, diz que sim. Responde um afirmativo de poder e de vontade. Podes deixar o medo do conhecimento alheio, agora que te sou realmente alheia. Quando um dia o mundo se desfizer verdadeiramente em estações trocadas - o Verão pelo Outono ou o Inverno pela Primavera - aí podes descansar. Podes contar à galáxia e aos seus sobreviventes que, meu eterno desconhecido, um dia me fizeste rainha."



José Eduardo Agualusa, in Revista "Egoísta", n.º 32
...vi este texto no cantinho da M. e não resisti em copiar... há momentos em que nos sentimos tão felizes que pairamos sobre tudo o resto... quando descemos à Terra, às vezes os sonhos desfazem-se... só resta pegar nos pedaços e refazer a nossa capacidade de voltar a sonhar... e no meio disto tudo, pensar que um dia, alguém nos fez sentir verdadeiramente especial...

13 agosto 2009

...raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no instante em que somos felizes...


...ainda a propósito do Barroco Tropical, do Agualusa, aqui ficam algumas deixas de Kianda, a minha personagem de eleição...


"Acontece-me, quando estou quase a adormecer, naquele território de fronteira em que ainda sabemos quem somos, ou julgamos saber, mas em que já não conseguimos abrir os olhos, acontece-me sonhar que voltei a ser uma pessoa, e torno a experimentar sentimentos e a rir e a chorar. Sonho que amo, e que sou amada. Sinto o assombro e a alegria dos amantes correspondidos."


" Mesmo acordada ainda há momentos em que volto a ser uma pessoa. Vivo a intervalos. Amo a intervalos. Amo em clarões. Amo como quem desperta, e depois retorno à cegueira do sono.
Acho que o amor é o inverso da morte."


""Há quem confunda a alegria com a felicidade. A alegria não se parece com a felicidade, a não ser na medida em que um mar agitado se parece com um mar plácido. A água é a mesma, apenas isso. A alegria resulta de um entorpecimento do espírito, a felicidade de uma iluminação momentânea. O álcool pode levar-nos à alegria - ou um cigarro de liamba, ou um novo amor - porque nos obscurece temporariamente a inteligência. A alegria pode, pois, ser burra. A felicidade é outra coisa. Não ri às gargalhadas. Não se anuncia com fogo de artifício. Não faz estremecer estádios. Raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no instante em que somos felizes. Eu fui feliz - nos meus últimos dias - em clarões de assombro."



...tell me love isn´t true, it´s just something we do...




Don´t tell me to stop
Tell the rain not to drop
Tell the wind not to blow
´Cause he said so

Tell me love isn´t true
It´s just something we do
Tell me everything I´m not
Don´t tell me to stop

Tell the sun not to shine
Not to get up this time
Let it fall by the way
Leave me where I lay

Tell the leaves not to turn
Don´t tell me I´ll learn
Take the black off a crow
But don´t tell me go

Tell the bed not to lay
Like the mouth of a grave
Not to stare up at me
Like a calf on its knees

Tell me love isn´t true
It´s just something we do
Tell me everything I´m not
But don´t tell me to stop
Tell me everything I´m not
Don´t tell me to stop


(...a propósito do Barroco Tropical, do Agualusa...)

02 junho 2009

...aquele homem é sábio como um camelo...

Há muitos anos viveu na Pérsia um grão-vizir - nome dado naquela época aos chefes dos governos -, que gostava imenso de ler. Sempre que tinha de viajar ele levava consigo quatrocentos camelos, carregados de livros, e treinados para caminhar em ordem alfabética. O primeiro camelo chamava- se Aba, o segundo Baal, e assim por diante, até ao último, que atendia pelo nome de Zuzá. Era uma verdadeira biblioteca sobre patas. Quando lhe apetecia ler um livro o grão-vizir mandava parar a caravana e ia de camelo em camelo, não descansando antes de encontrar o título certo.
Um dia a caravana perdeu-se no deserto. Os quatrocentos camelos caminhavam em fila, uns atrás dos outros, como um carreirinho de formigas. À frente da cáfila, que é como se chama uma fila de camelos, seguiam o grão-vizir e os seus ministros. Subitamente o céu escureceu, e um vento áspero começou a soprar de leste, cada vez mais forte. As dunas moviam-se como se estivessem vivas. O vento, carregado de areia, magoava a pele. O grão-vizir mandou que os camelos se juntassem todos, formando um círculo. Mas era demasiado tarde. O uivo do vento abafava as ordens. A areia entrava pela roupa, enfiava-se pelos cabelos, e as pessoas tinham de tapar os olhos para não fica-rem cegas. Aquilo durou a tarde inteira. Veio a noite e quando o Sol nasceu o grão-vizir olhou em redor e não foi capaz de descobrir um único dos quatrocentos camelos. Pensou, com horror, que talvez eles tivessem ficado enterrados na areia. Não conseguiu imaginar como seria a vida, dali para a frente, sem um só livro para ler. Regressou muito triste ao seu palácio. Quem lhe contaria histórias?
Os camelos, porém, não tinham morrido. Presos uns aos outros por cordas, e conduzidos por um jovem pastor, haviam sido arrastados pela tempestade de areia até uma região remota do deserto.
Durante muito tempo caminharam sem rumo, aos círculos, tentando encontrar uma referência qualquer, um sinal, que os voltasse a colocar no caminho certo. Por toda a parte era só areia, areia, e o ar seco e quente. À noite as estrelas quase se podiam tocar com os dedos.
Ao fim de quinze dias, vendo que os camelos iam morrer de fome, o jovem pastor deu-lhes alguns livros a comer. Comeram primeiro os livros transportados por Aba, ou seja, todos os títulos come-çados pela letra A. No dia seguinte comeram os livros de Baal. Trezentos e noventa e oito dias depois, quando tinham terminado de comer os livros de Zuzá, viram avançar ao seu encontro um grupo de homens. Eram as tropas do grão-vizir.
Conduzido à presença do grão-vizir o jovem guardador de camelos, explicou-lhe, chorando, o que tinha acontecido. Mas este não se comoveu:
- Eras tu o responsável pelos livros - disse -, assim por cada livro destruído passará um dia na pri-são.
O guardador de camelos fez contas de cabeça, rapidamente, e percebeu que seriam muitos dias. Cada camelo carregava quatrocentos livros, então quatrocentos camelos transportavam cento e sessenta mil! Cento e sessenta mil dias são quatrocentos e quarenta e quatro anos. Muito antes disso morreria de velhice na cadeia.
Dois soldados amarraram-lhe os braços atrás das costas. Já se preparavam para o levar preso, quando Aba, o camelo, se adiantou uns passos e pediu licença para falar:
- Não faças isso, meu senhor ? disse Aba dirigindo-se ao grão-vizir ? esse homem salvou-nos a vida.
O grão-vizir olhou para ele espantado:
- Meu Deus! O camelo fala!?
- Falo sim, meu senhor ? confirmou Aba, divertido com o incrédulo silêncio dos homens - Os livros deram-nos a nós, camelos, a ciência da fala.
Explicou que, tendo comido os livros, os camelos haviam adquirido não apenas a capacidade de falar, mas também o conhecimento que estava em cada livro. Lentamente enumerou de A a Z os títulos que ele, Aba, sabia de cor. Cada camelo conhecia de memória quatrocentos títulos.
- Liberta esse homem - disse Aba -, e sempre que assim o desejares nós viremos até ao vosso palácio para contar histórias.
O grão-vizir concordou. Assim, a partir daquele dia, todas as tardes, um camelo subia até ao seu quarto para lhe contar uma história. Na Pérsia, naquela época, era habitual dizer-se de alguém que mostrasse grande inteligência:
- Aquele homem é sábio como um camelo.
Isto foi há muito tempo. Mas há quem diga que, quando estão sozinhos, os camelos ainda conver-sam entre si.

Pode ser.


José Eduardo Agualusa
in "Estranhões & Bizarrocos"


...li este texto do Agualusa e lembrei-me do Areias, que a minha imã cantava quando era pequenita... pronto, estou mal disposta, quase deprimida e disposta a mudar de vida... uma média de 10,7 num teste tão fácil é muito muito muito mau...

01 junho 2009

...sou o mais famoso desconhecido do mundo...


ILUSTRES DESCONHECIDOS


Um dia acontece. Você entra num autocarro. Lá fora chove a cântaros e você está encharcado até aos ossos. Sente-se irritado e deprimido, porque falta uma eternidade para chegar o Verão, porque não gosta do seu chefe, porque lhe dói um dente, porque já perdeu todas as ilusões e sabe que nunca beijará a Nicole Kidman. Então pisa inadvertidamente o pé demasiado grande de um sujeito qualquer. Tem vontade de repisar o pezudo. Afinal chove lá fora e ã Nicole Kidman jamais o beijará. A um homem encharcado, um pobre homem à deriva numa cinzenta e fria tarde de Inverno, com dores de dentes, a um homem que já desistiu da Nicole Kidman, a um homem assim não se lhe pode exigir paciência. Você, no entanto, teve uma boa educação. Controla-se e pede desculpa. Mas eis que o pisado, o pezudo, reage aos gritos, ofendendo de forma vil a senhora sua mãe. Discutem, caramba!, mãe é mãe. E então o homem ergue o dedo:

"0 senhor sabe com quem está a falar?"

Um dedo tremendo. Uma tremenda frase. Nunca a escutou? A sério?! Um dia acontece. Eu escutei. Num cenário muito mais confortável, reconheço, embora também estivesse encharcado e chovesse lá fora. Foi nos banhos termais do Hotel Gellert, em Budapeste, numa piscina com água a trinta e oito graus de temperatura. Flutuava de costas, de olhos bem fechados, imaginando o momento em que beijarei a Nicole (ainda não perdi as ilusões), quando de repente alguna coisa vasta e mole caiu em cima de mim. Mergulhei naquela água nublada, aflito, sentindo que me afogava, que me ia afogar ali -mesmo, numa tigela de sopa, eu, filho de um professor de natação, até que consegui re-cuperar o pé e emergir, tossindo muito, sob a luz lassa e húmida. Os outros banhistas, meia dúzia de paquidermes muito velhos e muito alvos, vestidos apenas com um curto avental de pano, observavam-me de soslaio, disfarçando o riso. A coisa que caíra em cima de mim, quase me afogando, parecia-se com um deles. Porém, assim que abriu a boca - não para se desculpar, antes para me recriminar por estar ali, boiando, atravessado no seu caminho -, reconheci o sotaque: era um turista americano. Discutimos, claro, e eis que o vejo erguer o dedo:

"O senhor sabe com quem está a falar?" Não, desgraçadamente eu não sabia. O velho, então, encheu-se de paciência:

"Conhece o Robert Capa?"

Anuí com a cabeça. Quem não conhece?

"Ele nasceu aqui, sabia?, em Budapeste. E não se chamava Robert Capa, chamava-se Andrei Friedmann. Bem, o tipo tem uma fotografia tirada a 6 de Julho de 1944, durante a invasão da Normandia, que mostra um soldado americano a avançar para a praia, debaixo de fogo, só com o rosto fora da água. Já a viu?"

E quem não viu? Um pobre rapaz com o capacete enterrado na cabeça, agarrado a uma arma, entre destroços. Olhando aquela imagem consegue-se até ouvir o fragor das explosões.

O velho encarou-me em triunfo:

"Pois sou eu!"
Depois fez uma vénia elegante - quero dizer: tão elegante quanto lhe permitia o ridículo avental - e acrescentou:

"Sou o mais famoso desconhecido do mundo."

Contou-me a sua história. Não acreditei numa única palavra, mas ficámos amigos. Ouvi-o com atenção, em parte por delicadeza, em parte porque tenho um fraco por desconhecidos, mesmo os ilustres. É verdade. A maior parte das pessoas quer saber tudo sobre Nefertiti ou Tutancamon. A mim o que realmente me fascina é o destino do anão negro Seneb, chefe do guarda-roupa real e de todos os anões do palácio do faraó, dois mil e quatrocentos anos antes de Cristo. Recordo-me, a propósito, de uma outra fotografia de Robert Capa, mais famosa, que fixa o instante exacto da morte de um combatente republicano durante a Guerra Civil de Espanha. Adivinha-se naquela imagem todo um romance por escrever. Um triângulo de ódios e amores: a história do homem que se vê, caindo para trás, os braços abertos; o destino do que o espreitava atrás de uma câmara, eternizando o momento, e o do que o matou com um tiro certeiro. Tenho a certeza de que nenhum ensaio, nenhuma biografia de Francisco Franco, ou de outra figura notória da época, nos poderia ensinar mais sobre as razões profundas do conflito.

Portanto, quando um dia você entrar num autocarro, enquanto lá fora chove a cântaros, e pisar um pezudo e ouvir a tremenda frase: "Você sabe com quem está a falar?"

Quando isso acontecer domine a vontade de o pisar de novo, respire fundo e sugira:

"Não, não sei. Quem é você?"

Talvez seja o sujeito que, naquela triste tarde de Espanha, matou o combatente republicano. Os autocarros - acreditem - estão cheios de ilustres desconhecidos.




18 setembro 2007

...sonhos...



"Leve os sonhos a sério - sussurrou. - Nada é tão verdadeiro que não mereça ser inventado"



José Eduardo Agualusa
in "As mulheres do meu pai" (2007)

17 setembro 2007

...velhos sonhos...




"Já vos disse, também os sonhos não resistem à ferrugem. Entretanto envelheci. Compreendi o óbvio. A verdadeira beleza não se pode aprisionar, não se repete, não se prevê. Um arco-íris será belo enquanto permanecer indomável."



José Eduardo Agualusa

in "As mulheres do meu pai" (2007)

05 setembro 2007

É Dezembro em Paris...


Carta a Ana Olímpia
Paris, Dezembro de 1872



Minha doce Princesa,


É Dezembro em Paris. Era já Dezembro quando parti de Luanda deixando
para trás o esplendor do teu olhar.
E há-de ainda ser Dezembro depois que terminar o mês, e a seguir virá Dezembro e o Inverno, e novamente Dezembro e sempre assim, até que de novo eu retorne à Estação do Sol, que é em toda a parte todo o instante que o teu olhar ilumina.
Faz Dezembro em Paris. Após três semanas de neve e de frio as águas do Sena degelaram, engrossaram, e como uma imensa jibóia enfurecida - será talvez Muene-Zambi-dia-Menha, a divindade das águas de que tanto me falaste - o rio saltou sobre a cidade atropelando as pontes, arrancando as árvores, atacando casas, prédios e monumentos nacionais.
O nevoeiro cobre tudo como uma noite branca. Em pleno meio-dia as carruagens circulam com as lanternas acesas, enquanto nas esquinas grupos de polícias, segurando tochas, indicam o caminho aos pobres náufragos. Junto ao Arco do Triunfo, onde se reúnem doze avenidas, foram acesas altas fogueiras, mas a mais de duzentos metros já ninguém as vê. Os cocheiros perdem-se na bruma e vagueiam pela cidade como assombrações, com os passageiros aos uivos e os cavalos enlouquecidos, havendo casos de carros que cairam ao rio e de outros que se esmagaram contra as árvores ou edifícios.
Nesta cidade assim noitecida é a memória da tua luz que me guia e conforta. Vejo-te, constantemente te vejo, como pela primeira vez te vi, rodando belíssima nas voltas da
rebita ou meditando gravemente na Muxima, sozinha na capela, enquanto lá fora o rio imóvel sob o largo sol, a paisagem solene, o céu sem mácula, pareciam em silêncio meditar contigo. Vejo-te depois atravessando a galope a Praia dos Veados. Vejo-te rir ao longe e o teu riso chega até mim trazido pela brisa, salgado e fresco, húmido e forte, e eu volto a sentir, como então senti, a viva presença da Vida.
Quando me perguntaste, respirando exausta o mesmo ar que eu - e agora? - não soube o que responder. Três meses mais tarde ainda não conheço a resposta. Fui nómada a vida inteira. Atravessei metade do mundo, desde Chicago até à Palestina, desde a Islândia até ao Sahara e nunca soube que nome dar a essa errância aflita. Hoje sei que estava à tua procura. Sei que és o meu destino, a minha pátria, a minha igreja. Sei que ao deixar Luanda fez-se Dezembro e que desde então o Inverno ronda como um lobo esfomeado à minha volta.
Pretende Darwin que os homens descendem do macaco e na maior parte dos
casos será assim - foram descendo. Creio, porém, que com a minha família aconteceu o inverso, e ela se foi erguendo desde esse símio original até ao rude lusitano. Veio depois Afonso Henriques, vieram gerações de marinheiros e navegantes, os Açores foram descobertos e povoados, e nasci eu. De toda esta gesta oceânica resta-me um primo, o Louco André, que há vários anos comanda nos mares do norte um brigue aparelhado para a difícil pesca do bacalhau.

Viajei com ele no Outono de 1850 (agrada-me pensar que quando nasceste
eu atravessei o rumor branco dos mares da Gronelândia) e tive então oportunidade de lhe conhecer a alma, desenvolvida à medida e semelhança da natureza em que vive - agreste e fria, mesmo selvagem, mas também generosa e pura. Uma noite, já não sei a propósito de que brutalidade ou injustiça, explodiu um motim a bordo e os marinheiros amarraram-no e tomaram o comando do navio. Enquanto decidiam o que fazer com ele - as opiniões dividiam-se entre lançá-lo ao mar ou dar-lhe uma sova - pousaram-no na amurada. A discussão foi-se arrastando, uma, duas horas, até que por fim André soltou um grande brado: «Ou para dentro ou para fora, malandragem! Aqui é que não que já me doem as costas!».
Queres saber, amor, porque te conto este episódio? Porque, como ao meu primo André, inquieta-me menos o meu destino do que esta absurda espera. Escreve, diz-me o que decidiste. Condena-me ao Inverno ou salva-me dele.

Teu,


Fradique


P.S.
Os marinheiros puxaram André para dentro, desamarraram-no e ele retomou o comando do navio. Nenhum foi castigado.


José Eduardo Agualusa (in Nação Crioula, 1997)

05 abril 2007

Como amar uma mulher (e sobreviver)

Esta é uma conversa só para homens. Minhas senho­ras, queridas leitoras, por favor saiam neste parágrafo e fechem a página. Saíram?

Será que saíram todas?


Estamos então entre nós. Bom, é que eu preciso de desabafar. Sou um homem que gosta de mulheres. Muita gente acha que não há nisto nada de extraor­dinário. Enganam-se: são poucos os homens que gos­tam de mulheres. É para estes, na verdade, que escrevo esta crónica. Os outros, os que pensam que gostam de mulheres - mas nunca entrançaram os cabelos do seu amor -, esses podem também fechar a página.

Agora, sim, estamos entre nós. Dizia eu que gosto de mulheres. O problema é que, por vezes, sinto uma enorme dificuldade em tolerar certas manifestações da natureza feminina. Por exemplo a mania da ordem. Ordenar é sempre uma violência. Nós, homens, res­peitamos as obscuras leis da física. Sabemos que o Uni­verso caminha para o caos.
Contrariar o caos parece­-nos uma impiedade. Há uma lógica indomável na desordem natural que um escritório adquire ao fim de largos anos de intensivo uso masculino. Cada coisa no seu lugar incerto. Mostrem-me um escritório arrumado e eu mostrar-vos-ei um espírito desocupado. Mostrem­-me uma repartição impecavelmente limpa e ordenada e eu mostrar-vos-ei um dormidouro de apáticos e negli­gentes.

A paciente desorganização do universo, no entanto, não resiste à fúria arrumadora das mulheres. Um homem leva anos para transtornar convenientemente o seu local de trabalho. E então distrai-se, ou apai­xona-se (é a mesma coisa), permite que uma mulher aceda a esse lugar sagrado e em escassas horas ela vira­-o de pernas para o ar - isto é, arruma-o.

As mulheres não conseguem compreender porque é que guardamos as esferográficas dentro de um sapato velho. Nós também não compreendemos, mas - meu Deus! - sabemos que isso não é coisa para ser compreendida. É aquele o lugar das esferográficas, certo? Isso basta-nos.


Podia falar ainda da clássica guerra da tampa da sanita mas falta-me espaço. Não resisto no entanto a deixar aqui uma anedota feminista de circulação recente ­Pergunta: quantos homens são necessários para mudar um rolo de papel higiénico? Resposta: não se sabe, nunca aconteceu. Acredito. Durante muito tempo pen­sei que aquilo fosse um processo automático, sei lá, que eles se mudassem a si próprios. E pronto, desabafei.


Querem saber agora qual o segredo para amar uma mulher e sobreviver? Eu também.


José Eduardo Agualusa

18 março 2007

As cores do céu

Virgílio estranhou a cor do céu e a sua textura. Largas manchas de tinta escura alastravam, como uma aguarela melancólica, sobre o frio fulgor da tarde. O céu está sempre por cima de nós, mas raramente nos detemos a olhá-lo. A maioria das pessoas anda pelas ruas das grandes cidades de olhos baixos, com receio de pisar em cocó de cão, ou até pior, e por isso não repara na cor do céu. As pessoas estão mais atentas ao cocó, digamos assim, do que ao espectáculo da luz.
Virgílio, pelo contrário, andava sempre com a cabeça erguida, como as figuras do carioca Heitor dos Prazeres, pintor ingénuo, compositor e boémio, que passou boa parte da vida a desenhar gafieiras e rodas de samba. Os personagens de Heitor dos Prazeres têm invariavelmente a cabeça levantada, de um jeito um pouco estranho, quer estejam a dançar (e quase sempre estão a dançar) ou a trabalhar no campo. Riem muito. A vida para eles é uma festa perpétua.
Virgílio parecia saído de uma tela de Heitor dos Prazeres. Sentou-se no banco de um jardim a olhar o céu. Veio-lhe à memória uma cena, no filme de Peter Webber, "Rapariga com Brinco de Pérola", em que Johannes Vermeer abre a janela e mostra o céu à rapariga. "De que cor são as nuvens?". Ela hesita: "Brancas?", e logo corrige: "Não. São amarelas, rosadas, azuis, têm muitas cores".


Certo, concordou Virgílio. O céu é uma tela imensa e nela acontecem todas as cores, e os seus infinitos tons e cambiantes - veja-se um arco-íris, um crepúsculo africano, uma aurora boreal. Há até cores que apenas existem, aladas e efémeras, em certos céus mais recônditos.
Numa outra cena do filme de Peter Webber, o mecenas de Vermeer lembra que o amarelo da índia, muito utilizado pelos pintores da época, provinha de um pigmento extraído da urina de vacas alimentadas exclusivamente com folhas de mangueira. Virgílio reflectiu um pouco. Concluiu que a beleza pode encontrar-se nos lugares mais improváveis. O amarelo da Índia foi descoberto porque alguém se debruçou um dia sobre a urina de uma vaca que se alimentava de folhas de mangueira.

Virgílio riu-se, surpreendido com o achado, e ali mesmo tomou a decisão de baixar mais vezes os olhos enquanto caminhasse. Levantou-se e experimentou percorrer alguns metros de olhos baixos. Fê-lo com certa dificuldade, em primeiro lugar porque se habituara a trazer o pescoço erguido, e a nova posição provocava-lhe cãibras, e, por outro lado,porque "não conseguia distinguir, no chão, sujo e desarrumado, beleza alguma. Ocorreu-lhe que a beleza está em toda a parte mas que as pessoas precisam de se exercitar para a descobrir. Muitas pessoas olham para as nuvens, por exemplo, e só vêem nuvens. Nuvens brancas. Antes da descoberta do amarelo da Índia milhões de camponeses devem ter-se debruçado sobre a urina das vacas, e o que viram foi apenas xixi, um pouco mais escuro por causa da dieta alimentar a que as vacas estavam sujeitas. Certamente é mais fácil descobrir a beleza olhando para o céu do que olhando para o chão. Ele deveria exercitar-se mais a olhar para o chão. Voltou a erguer os olhos e foi então que a viu. Era uma rapariga pálida, alta e frágil, e estava sentada num banco desdobrável, diante de um cavalete, a pintar. Aproximou-se dela. A cidade estendia-se, alguns metros abaixo, até ao rio. Na tela, porém, não havia nenhuma indicação da presença da cidade. O que se via era apenas o céu. Largas manchas de tinta "escura sobre o frio fulgor da tarde. A rapariga pousou o pincel e encarou-o:


"Conheço-o?", perguntou-lhe: "tenho a sensação que já o vi antes .... "

Virgílio suspirou:

"Não creio. Eu lembrar-me-ia."

"Sim, sim!", teimou a rapariga. Sorriu num esplendor: "Já sei. Vi-o no Museu Internacional de Arte Naif, no Cosme Velho, no Rio. Acho que você estava numa tela de Heitor dos Prazeres ... "


"Estou em quase todas", confirmou Virgílio. Sentou-se na relva, ao lado dela, segurando os joelhos com as mãos. Ficaram em silêncio. A rapariga misturou um pouco de branco com amarelo e iluminou as nuvens.
O céu abriu-se um pouco. Fazia frio, mas não ali.


-José Eduardo Agualusa-


(mais um texto "roubado" do conversas... mas gostei imenso... :-)))))) realmente, às vezes as coisas que valem a pena surgem nas nossas vidas da forma mais inesperada... mas não é sobre isso que tenho dissertado no pendulices??????? )

13 novembro 2006

O homem que ouvia os girassóis

Noite morna. Sábado. Ricardo vagueava alheio ao mundo, amargurado, pensando na vida. Deteve-se um instante (fatal instante) diante de um boteco esquivo, no Leblon, e reparou numa mulher, negra, belíssima, dançando sozinha ao ritmo de um velho samba da Portela. A mulher chamou-o com um riso esplêndido e ele entrou. Conversaram? Ricardo não se recorda. Ela estendeu-lhe um copo. O meu amigo bebeu. O líquido era gelado e guardava no fundo um gosto turvo, amargo, que hoje ele se esforça, inutilmente, por decifrar. Acordou de madrugada, descalço e sem carteira, num ónibus atulhado de gente.

- Onde estou?

Podia ter perguntado antes, "quem sou eu?". Sentia-se propenso à filosofia. Não esperava que lhe respondessem. Uma matrona luzidia, sentada ao seu lado, informou-o com um sorriso manso:


- Estamos na Cidade de Deus, meu bem.


Ricardo assustou-se: "Jesus!", pensou: "Querem lá ver? Morri!"


Espreitou pela janela e viu o Inferno deslizar à luz cinzenta do amanhecer. Barracos de tijolo, placas de betão, depósitos de água, antenas parabólicas - enfim, uma favela carioca. Sentiu que o seu cérebro se punha lentamente em marcha, como uma locomotiva fatigada, enquanto lhe vinham à memória as terríveis parangonas dos jornais. Cidade de Deus, claro!, a grande favela de Jacarepaguá. O ónibus deixou-o, já o Sol galgara o horizonte, na Lagoa Rodrigues de Freitas.

Ricardo aproximou-se vacilante do brilho das águas, sentou-se num pequeno molhe de madeira, bebeu a brisa húmida da manhã. Tinha chovido durante a noite. Ao fundo, suspensos sobre as águas, erguiam-se dois grandes morros. Prédios cresciam no sopé dos mesmos, torpes e escuros
como uma doença de pele. Duas garças pousaram ao seu lado, enormes, as patas amarelas, lustrosas como se fossem feitas de plástico. Um barco flutuava, ancorado, um pouco à frente. Uma dezena de grandes aves pretas, biguás, permaneciam em pé e imóveis, no seu interior, muito bem alinhadas, o bico voltado na direcção do vento. Ricardo fechou os olhos. Quando os reabriu o mundo já não era o mesmo. Um arco-íris desenrolava-se à sua frente como uma cobra. Viu-lhe as escamas rebrilhando no dorso, e cada cor cantava, e no conjunto aquilo pareceu-lhe mais largo, sonoro e arrebatador do que qualquer uma das nove sinfonias de Beethoven. Maravilhou-se: ouvia as cores! Sim, podia ouvir as cores.


A sensação não desapareceu nos dias seguintes, antes pelo contrário, intensificou-se. O espectáculo do Sol, ao crepúsculo, incendiando as nuvens, ganhou, para ele, uma dimensão inédita. Tapava os olhos para não escutar, à beira das estradas, a estridência selvagem das buganvílias em flor, ou, ainda mais doloroso, o uivo amarelo dos girassóis. Passou a amar, porém, a melodia alegre das telas de Miró.


Foi de propósito ao Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, MOMA, ouvir as cores dissonantes de Jackson Pollock. As piscinas de David Hockney, essas, cantavam só para ele melodias refrescantes. "Bossa nova", disse-me um dia, "ou alguma coisa do género, sei lá, samba de salão."


Depois, pouco a pouco, Ricardo voltou a ser um de nós. Hoje percorre os bares de Ipanema e Leblon contando a quem estiver disposto a ouvi-lo a sua incrível história. Acho que ele próprio se escuta, a cada dia, com crescente incredulidade. Procura ansiosamente a bela mulher negra que numa noite de sábado o chamou para dentro de um bar com um sorriso luminoso, o envenenou, e lhe roubou a carteira e os sapatos. Não conheço ninguém que busque quem o assaltou com tal amor, tanto carinho, tamanho desvelo. "Meu irmão", confessou-me recentemente com os olhos rasos de água, "faço qualquer coisa para voltar a ouvir o pôr-do-sol no Arpoador."


-José Eduardo Agualusa-

30 setembro 2006

O peixinho que descobriu o mar

Cristóbal nasceu num aquário. O mundo dele resumia-se a um pouco de água entre quatro paredes de vidro. Isso, alguma areia, algas, pedras de diversos tamanhos, a miniatura em madeira de uma caravela naufragada. Ah! E trinta e sete outros peixinhos, quase todos irmãos de Cristóbal, ou primos, tios, parentes próximos. Havia ainda uma velha tartaruga, chamada Alice, que já vivia no aquário quando os avós dos avós de Cristóbal nasceram. Os peixes acreditavam que Alice vivia no aquário desde a criação do Universo e ela deixava que eles acreditassem naquilo.

Às vezes os peixes mais velhos contavam histórias que tinham escutado aos seus avós. Diziam que, para além das paredes do aquário, longe dali, muito longe dali, havia água, tanta água que um peixe podia passar a vida inteira a nadar, sempre em linha recta, sem nunca bater de encontro a um vidro. A essa água imensa, onde tinham nascido os primeiros peixes, chamava-se Mar.

Os peixes falavam do Mar como quem fala de um sonho. Cristóbal tantas vezes escutou aquela história que um dia decidiu perguntar a Alice. A tartaruga era velhíssima, devia saber, tinha de saber. Encontrou-a a tomar sol em cima de uma pedra. Cristóbal prendeu a respiração, ergueu a cabeça acima da água, e fez-lhe a pergunta. Alice torceu a boca numa careta de troça: "Disparate: o Mar não existe! Não existe nada para além daquelas quatro paredes de vidro. O universo inteiro somos nós".

Cristóbal foi-se embora pensativo. Sempre que ouvia falar no mar o aquário parecia-lhe mais pequeno. Não achava possível que os peixes, seus avós, tendo vivido sempre dentro de um aquário, tivessem conseguido inventar uma coisa tão grande como o Mar. Ele tinha de saber a verdade. Ele queria saltar as paredes de vidro e ir à procura do Mar.

Os outros peixinhos não compreendiam a angústia de Cristóbal: "Não estás bem aqui?", perguntavam-lhe, "não tens aqui tudo o que precisas?". Cristóbal olhava para eles, aflito, incapaz de explicar aquela vontade de partir que sentia crescer, todos os dias, dentro do seu coração e o empurrava contra as paredes do aquário, tentando espreitar, para além delas, um outro mundo. O que via, porém, eram os seus próprios olhos reflectidos no vidro gelado.

Uma manhã, muito cedo, ainda todos os peixes dormiam, Cristóbal encheu-se de coragem, tomou balanço, e saltou. Percebeu imediatamente que o mundo não terminava no aquário. Percebeu também, assustadíssimo, que o resto do mundo era um lugar tão seco quanto a pedra onde Alice costumava descansar. Percebeu isso tarde de mais.

Estava estendido num chão de madeira e não conseguia respirar. Foi então que viu o gato. Ele não sabia o que era um gato. Nunca tinha visto nenhum. O gato, no entanto, sabia o que era um peixe. Os peixes, na opinião do gato, eram comida. Cristóbal viu o gato e gritou:

- Ajuda-me! Vou morrer!...

- Pois vais - disse o gato, que aliás, não era um gato, era uma gata, e por sinal lindíssima -, eu vou-te comer.

Cristóbal conseguia ver o aquário e do lado de lá do vidro os outros peixes. Mas eles não o podiam ver.

- Não me comas - pediu -, eu quero ver o Mar.

A gata olhou para ele admirada:

- O Mar? Tu nunca viste o Mar?

Cristóbal, com dificuldade, porque fora da água não conseguia respirar, contou-lhe a sua história. Verónica - era assim que se chamava a gata -, ficou com pena dele. Agarrou-o com a boca, cuidadosamente, para não o magoar, e colocou-o numa tigela de água.

- Vou-te ajudar - disse-lhe -, porque nunca conheci ninguém tão corajoso como tu.

Nessa tarde a gatinha saiu pelos telhados à procura de Nicolau, o albatroz, um pássaro enorme, bico largo e fundo, capaz de transportar lá dentro uma enorme quantidade de peixes. Nicolau, velho amigo, recebeu-a com alegria. Verónica contou-lhe a história de Cristóbal e pediu-lhe para levar o peixinho até ao mar. O albatroz achou a ideia um pouco estranha: afinal ele tirava os peixes do mar para os comer. Mas quando Verónica o apresentou a Cristóbal depressa se convenceu. Colocou então o peixinho dentro do bico, com uma larga porção de água, para que ele não sentisse dificuldades em respirar, e levantou voo.

Voavam há quase uma hora quando Nicolau abriu o bico e disse a Cristóbal para espreitar. Cristóbal ergueu a cabeça e o que viu deixou-o mudo de espanto:

O Mar brilhava imenso à sua frente. Era muita água. Havia muitíssimo mais água ali do que dentro do seu aquário, muito, muito mais, muito mais do que ele alguma vez se tinha atrevido a imaginar.

Nicolau abriu as grandes asas e começou a descer em direcção ao imenso azul, lá embaixo, ao salgado rumor das ondas. Gritou:

- Adeus, amigo. Boa sorte!

Sacudiu o bico e soltou Cristóbal. O peixinho olhou para cima, antes de mergulhar nas águas livres do Mar, e ainda o viu agitando as asas, adeus, adeus, e desaparecer entre as nuvens altas.
Longe dali, Verónica, a gata, pensava em Cristóbal. A partir daquela data ela nunca mais foi capaz de comer peixe. Coitada, hoje, só come vegetais. "


-José Eduardo Agualusa-