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17 abril 2015

...falta de espelhos...



...tenho algumas pessoas assim na minha lista... acho que nunca perceberão a pobreza franciscana que lhes assola a alma...

17 janeiro 2015

...mas a raiz do Sonho não desiste...



 
 
PARÁBOLA
 

No silêncio do parque abandonado
O repuxo prossegue a sua luta;
É um desejar alado
A sair duma gruta.

Ergue-se a pino no céu como uma lança;
Ergue-se a pino, e sobe na ilusão;
Até que flor do ímpeto se cansa
E cai morta no chão.

Mas a raiz do Sonho não desiste;
Subir, subir ao céu, alto e fechado!
E o repuxo persiste
Na solidão do parque abandonado.

-Miguel Torga-

01 janeiro 2011

...de nenhum fruto queiras só metade...


Recomeça…


Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…
Miguel Torga








...de facto, comigo não costuma haver meio-termo: dou tudo o que tenho, mas também sou bastante exigente...

24 dezembro 2010

...e neve, neve, a caiar de triste melancolia...

Natal divino ao rés-do-chão humano,


Sem um anjo a cantar a cada ouvido.

Encolhido

À lareira,

Ao que pergunto

Respondo

Com as achas que vou pondo

Na fogueira.



O mito apenas velado

Como um cadáver

Familiar…

E neve, neve, a caiar

De triste melancolia

Os caminhos onde um dia

Vi os Magos galopar…



Miguel Torga

31 outubro 2010

...de nenhum fruto queiras só metade....


...nos últimos tempos não tenho deixado grande coisa neste cantinho. Sinceramente, a altura da Latada nos últimos anos acaba por entreabrir algumas gavetas que supunha estarem arrumadas. E acontece o inevitável: continuo a questionar-me sobre o que aconteceu em tempos e como consegui acreditar. Mas, na altura, sentia uma cumplicidade tão forte que, de facto, era impossível não acreditar. E durante uns dias, sinto-me bucólica, com uma nostalgia enorme e, pior do que isso, continuo a não perceber o desfecho. Já usei de todas as possibilidades para terminar este puzzle, mas há algumas peças que teimam em não encaixar. E, eu acredito que tudo tem uma razão e, por um motivo que desconheço, não consigo descobrir as razões de tudo isto. Sinto-me como Sisífo, condenada pelos deuses a empurrar pela encosta acima um pedregulho imenso, até a pedra rolar pela outra encosta abaixo, para ele voltar a empurrá-la, até ela voltar a cair, assim gastando a sua vida, sem progresso aparente, sem utilidade alguma. E o meu pedregulho consiste em terminar este puzzle e conseguir perceber o que não encaixa e,  por mais que me esforce e tente, não consigo... uma e outra e outra vez... E isto vai corroendo por dentro, até porque, normalmente, não reajo assim. Normalmente, não continuo a remoer o passado. Mas há algo de irracional e superior a mim em tudo isto, que eu tento perceber e não consigo... há DEMASIADO tempo... e apenas quero perceber o porquê, nada mais... e fechar de vez estas gavetas...


Recomeça…




Se puderes,


Sem angústia e sem pressa.


E os passos que deres,


Nesse caminho duro


Do futuro,


Dá-os em liberdade.


Enquanto não alcances


Não descanses.


De nenhum fruto queiras só metade.






E, nunca saciado,


Vai colhendo


Ilusões sucessivas no pomar


E vendo


Acordado,


O logro da aventura.


És homem, não te esqueças!


Só é tua a loucura


Onde, com lucidez, te reconheças.









Miguel Torga, Diário XIII

21 maio 2010

...agora retrocedo, leio os versos, conto as desilusões no rol do coração...




Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram.
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido.
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão.



Miguel Torga

21 fevereiro 2010

...sabes que tudo é pouco mais que nada...




Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só a metade
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado
O logro da aventura
És Homem, não te esqueças!
Só é a tua loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.


Miguel Torga





...e e facto, assim é!!! E quando isso acontece, importa recomeçar... "de nenhum fruto queiras só a metade!!!!!!!" - e este tema dos "meninos" sempre me fez recordar este poema do Miguel Torga...

26 julho 2009

...a vida disse que era tarde demais...


Frustração

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.

Miguel Torga
in 'Diário XV'

06 abril 2009

...agora, somos dois obstinados, que apenas vão a par na teimosia...





DESFECHO

Não tenho mais palavras
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda parte,)
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...
E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão,
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo que te dizia...
Agora, somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

03 abril 2009

...deixa-me ser feliz...não perturbes a paz que me foi dada...





Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

01 abril 2009

...e ter depois um amigo que faça o pino, a voar...



Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...


(...longa se torna a espera...)

28 fevereiro 2009

...perde-se a vida a desejá-la tanto... não perturbes a paz que me foi dada...





Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor durou
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Miguel Torga




...apesar de não estar contente com o desfecho, fiz mais do que o que devia... e sinto-me aliviada por me ter libertado de fantasmas e de ilusões... agora é seguir em frente, tendo cuidado com a água que escolho para matar a sede...

07 maio 2008

...gasto as horas e os dias a endurecer a forma da emoção...

Identidade



Matei a lua e o luar difuso.

Quero os versos de ferro e de cimento.

E em vez de rimas, uso

As consonâncias que há no sofrimento.



Universal e aberto, o meu instinto acode

A todo o coração que se debate aflito.

E luta como sabe e como pode:

Dá beleza e sentido a cada grito.


Mas como as inscrições nas penedias

Tem maior duração,

Gasto as horas e os dias

A endurecer a forma da emoção.


-Miguel Torga-

30 abril 2008

...mas a raiz do Sonho não desiste...


PARÁBOLA



No silêncio do parque abandonado
O repuxo prossegue a sua luta;
É um desejar alado
A sair duma gruta.

Ergue-se a pino no céu como uma lança;
Ergue-se a pino, e sobe na ilusão;
Até que flor do ímpeto se cansa
E cai morta no chão.

Mas a raiz do Sonho não desiste;
Subir, subir ao céu, alto e fechado!
E o repuxo persiste
Na solidão do parque abandonado.

-Miguel Torga-

28 abril 2008

...e é nela que é preciso procurar o velho paraíso que perdemos...





Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.


-Miguel Torga-

16 março 2008

...de nenhum fruto queiras só metade...

...realmente, os últimos 25 anos de esforço e sonhos culminaram em coisa nenhuma... qual "trabalho de Sísifo"... e para ter desistido, é porque... não há saída... já que um dos lemas da minha vida (talvez o mais importante) é mesmo "De nenhum fruto queiras só metade..."






Sísifo


Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar

E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII

21 agosto 2007

Melancolia




Longamente esperei.
Nenhum encontro estava combinado.
Era apenas fiado
Na intuição do amor
Que confiava.
Afinal, não vieste.
E adivinho o motivo:
O lume da velhice não aquece.
Arde e parece
Vivo,
Mas arrefece.

Miguel Torga
Coimbra, 10 de Junho de 1980



...há dias em que me sinto assim... melancólica... esperando em vão...

18 agosto 2007

Um Poema

Não tenhas medo, ouve:

É um poema.

Um misto de oração e de feitiço...

Sem qualquer compromisso,

Ouve-o atentamente,

De coração lavado.

Poderás decorá-lo

E rezá-lo

Ao deitar,

Ao levantar,

Ou nas restantes horas de tristeza.

Na segura certeza

De que mal não te faz.

E pode acontecer que te dê paz...


-Miguel Torga-
(in "Diário XIII", 1983; "Poesia Completa", 2000)