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08 abril 2015

...quantos dias demorarei a esquecer o teu rosto...

5. Quantos dias demorarei a esquecer o teu rosto?

Lembro-te a cada minuto. Parcela a parcela, para não te perder. Para me perder inteiro nesse objecto móvel que tu foste. Os olhos negros, escavados, sempre olheirentos. As tais sobrancelhas Kahlo. O nariz adunco que te fazia fugir dos retratos de peról. O sinal no pescoço alto, à direita. Os braços ossudos, compridos. As mãos quadradas,como as unhas, sempre cortadas rente. Sem verniz. Ainda e sempre uma questão de princípio; o verniz das unhas era mais um símbolo veemente da submissão das mulheres aos homens, se mais não fosse, pelo tempo que é necessário investir nessa actividade. Eu concordava contigo, mas por razões estéticas: garras coloridas e afiadas remetiam-me para costumes bárbaros, odores de bairro da lata, rituais primitivos. A graça dos teus cotovelos pontiagudos espetados na mesa, as mãos rasgando a noite mais depressa do que as palavras. A boca grande, com uma fila imensa de dentes irregulares sempre a postos para a próxima gargalhada.

Uma vez procuraste-me, numa vernissage qualquer, com os olhos afogados em lágrimas, porque uma qualquer marquesa ou assimilada te tinha dito, com um sorriso benfeitor que conhecia um óptimo dentista a que te aconselhava que fosses para resolveres o teu problema com os dentes. Responderas-Lhe, evidentemente, que não tinhas qualquer problema e que os dentes tortos faziam parte do teu encanto particular, ao que a marquesa retorquira, com um esgar em dó menor, que ainda bem que há pessoas felizes de serem como são. Contaste-me tudo isto de rajada, ao ouvido, numa voz trémula que me indignou.

Dei-te o braço, dirigimo-nos à dama, osculei-Lhe a pata com olhos de encornador e depois recitei-Lhe: "Não leve a mal, mas hoje já há tratamento para essas manchas tão desagradáveis que surgem nas mãos com a idade. Terei todo o gosto em indicar-Lhe um excelente dermatologista, que faz autênticos milagres." Não o fiz só por ti, miúda. Experimentava um prazer maligno em desmoronar este género de bichos; a passagem instantânea do deslumbramento ao horror desfigurava-os, revelando-Lhes a caveira escamosa de crocodilos interplanetários. Tornámo-nos profissionais deste jogo da verdade, para o qual recolhêramos inspiração no They Live do John Carpenter, um dos muitos filmes que nos caçaram juntos.

A princípio, declaravas que se tratava de uma obra menor, tão simpática quanto primária. Mas à medida que te alagavas na estrumeira da política, apanhavas o rigor exacto da fita. De facto, eles vivem, e só com uns especialíssimos óculos escuros alguns de nós conseguem vê-los. Outros, como tu, tentam mesmo eliminá-los, para que o mundo seja esse lugar humano que ainda não chegou a ser. O problema, queridíssima, é que os que mais tentam parecem destinados a finar-se num fósforo.

O raio do teu Deus, se existe, é muito mais pérfido que nós os dois juntos. Desde que tu lerpaste, só consigo ver crocodilos. E tens razão: eles vestem fatos Hugo Boss, camisas Ralph Lauren. Concedo: até lenços de seda italiana, como eu. A identificação pelo aparato, brincavas tu. Como nos povos primitivos, afirmativo. Mas não seremos todos, mesmo os que o sabem, seres tribais, regidos pelo princípio de participação?

Que lógica há neste discorrer caótico que me liga a ti, que me faz procurar-te no verde cruel desta Primavera falsa?

Não acredito em deuses nem em demónios. Todavia registo os teus sinais, tranco-me na solidão para te escutar. Quero a luz escura dos sonhos contagiados/ As sobras das almas que inventámos/ O coração ardido dos antigos namorados/ As histórias que afinal não contámos. A voz do teu amigo Pascoal, um dos sortudos que te encantaram antes de mim.

Ontem tive a nítida impressão de que me pedias que te fizesse ouvir uma série de cançonetas daquelas de que tu gostavas.

Estranhamente, obedeci-te - eu, que abomino essa corruptela a que chamam música ligeira. Dizias que, se a música fosse uma grande arte, haveria um cortejo de compositoras. Mas não há uma só mulher entre os grandes compositores. Em contrapartida, todos os ditadores são melómanos. Para ti, estas eram as provas irrefutáveis de que a música era apenas uma artezita corriqueira. Curiosamente, desculpa a observação, os teus cançonetistas também são quase todos homens, minha querida.

Pior do que isso; homens comoventes.


Inês Pedrosa

in "Fazes-me Falta"


 
 
 
...porque há dias em que ligamos o computador e alguns velhos fantasmas despertam... será que alguma vez estiveram adormecidos??

23 fevereiro 2011

...o meu além eras tu...

"Como sabes eu vivo de relâmpagos; contigo partilhei uma trovoada um pouco mais longa do que o habitual. Foi apenas isso. De qualquer modo, a morte espreita sobre todos os prazeres dessa cronologia a que nos agarramos para escapar ao tempo. O que somos para além do que vamos sendo? O meu além eras tu- íman da minha íntima, impessoal temporalidade. Redenção dos males que me amputaram. Tu. (...)"

Excerto do livro "Fazes-me Falta", Inês Pedrosa

12 dezembro 2010

...já é tarde demais...

Estamos sempre meio mortos, muito queixosos mas ao mesmo tempo julgamos que somos eternos, adiando o que há para fazer e para perceber. E às vezes, quando acordamos para a realidade, já é tarde demais.




Inês Pedrosa
in "Os íntimos"


02 novembro 2010

...não era esta a vitória que querias de mim, pois não?...

"Ganhastes, Sininho: o Deus da Culpa agarrou-se-me aos ossos. Mas não era esta a vitória que querias de mim, pois não? O prazer da culpa, esse prazer gastronómico de demorar no corpo a dor que fomos capazes de causar. Ou o prazer mais rápido de sacudir a culpa sobre o corpo do outro. A culpa precisa sempre de corpo. Agora, pela primeira vez, preciso do teu corpo."

Inês Pedrosa
in "Fazes-me falta"



 
 
...ou não...

24 setembro 2010

...sabem de nós mais do que somos capazes de lhes dizer...



"Os amigos.
Entrariam por uma casa em chamas para nos salvarem. Mentem por nós à nossa própria mãe. Sabem de nós mais do que somos capazes de lhes dizer. Jurariam que à hora do crime estávamos a tomar chá com eles. Mesmo que a polícia nos encontrasse com as mãos cheias de sangue. "São rosas, senhores. Andei com ela toda a tarde a cortar rosas, senhores. Sangue de espinhos, senhores."
Eles exigem-nos coisas de nada. As nossas lágrimas. O nosso lenço de assoar. A pele dos nossos inimigos. As batatas fritas do nosso bife. A nossa melhor roupa, por uma noite. Exigem-nos tudo o que nos dão. É preciso regá-los regularmente: é nos ombros deles que cai toda a água dos nossos olhos. Eles espevitam-nos o sentido de humor quando menos nos apetece. E depois ficam connosco quando as luzes se apagam e toda a gente se foi embora. Só aos amigos é dado o espectáculo da nossa miséria." 

 Inês Pedrosa
in A Instrução dos Amantes


...levei hoje o livro comigo, para acabar de o reler e esta é uma das partes marcadas do livro, desde a primeira vez que o li... porque parece que há mais pessoas para além de mim a pensar assim..

09 setembro 2010

...no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela...

"Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio - nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência."




...outra prova é esta Sua compaixão para com as saudades que tenho de ti...

Porque te escolho, neste sussurro sem retorno? Porque te quero no meu sono, se iluminaste sobretudo o que não fui? Morreste-me antes que eu morresse – e não consigo morrer sem ti. Nunca consegui. Todos os dias da minha vida estive contigo – como se todas as amizades anteriores fossem só o caminho para chegar a ti, como se todas as amizades posteriores fossem apenas a ausência de ti. Mais delicadas, mais ritmadas, mais claras – menos tu.






Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como sobreviver ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua? (…)



Foi sem querer. Se te deixei de comover, de te divertir, de te inspirar, meu querido, foi sem querer. Se perdi a capacidade de te ferir e fazer sangrar, foi sem querer. Foi sem querer que te copiei, para não te perder, para não perceberes que se calhar não era capaz. Foi sem querer que se calhar não fui mesmo capaz – preguiçosa, timorata, escondida na gruta da perfeição impossível. Foi sem querer que te morri, em vez de ter engolido uns comprimidos e pegado num telefone para te dizer que me estava a matar. (…) Se eu imaginasse que continuaria dentro da morte a chorar por ti, ter-te-ia procurado em vida para te matar. (…)



Eu queria salvar o mundo. Queria também que me vissem salvar o mundo, sim. Tinha ideias muito precisas sobre como o fazer. (…) Tudo era uma questão de ideias simples, investimento maciço na ingenuidade humana, na qual já ninguém parecia acreditar.



Sabia também como acabar com a tristeza ou solidão de qualquer dos meus amigos. (…) Às vezes magoava-me ligeiramente ouvir, às seis da manhã, depois de uma noite inteira a requentar corações:



– Tu não és capaz de viver sozinha



num tom insidiosamente paternalista. Eu a aguentar o sorriso com uma grua imaginária, pensando nos meus livros, nos testes para corrigir, no estado em que chegaria à reunião da manhã seguinte, e afinal, aquele coração maltratado estava ali a fazer-me um favor. A beber o meu whisky, o meu sono, a parte mais generosa do meu coração, e afinal só porque eu não era capaz de viver sozinha.



É verdade que não sou capaz de morrer sozinha. Ninguém é. Mas morre-se melhor quando não ouvimos a morte a bater à porta, quando ela nos irrompe pela casa como uma visita inesperada.



Sempre gostei de visitas inesperadas – nisso éramos completamente diferentes. Sonhei a vida inteira com uma festa-surpresa que nunca me fizeram – a páginas tantas, tu e todos os outros começaram a dizer-me que já não era possível fazerem-me a tal festa, porque eu vivia em ansiedade à espera dela. «Já não seria surpresa, percebes?». Não, nunca percebi. O Natal não deixava de ser uma surpresa só porque eu já sabia que ele ia chegar. Vivia a sonhar com esse dia em que um de vocês me atrairia a um restaurante à beira-mar onde estariam todos os meus amigos e amores, rodeados de rosas brancas e balões coloridos, com um piano e a guitarra do Pascoal, para me receberem em apoteose ao som de A Sombra das Nuvens no Mar.



Deus não tem particular queda para a música – afinou alguns pássaros, certos tipos de chuva e as ondas do mar, mas deixou aos homens o sublime do som. Sempre tive a impressão de que Deus era mulher – e a Sua falta de talento para a música, se acreditarmos nas análises estatísticas sobre o sexo dos grandes compositores, prova-o. Outra prova é esta Sua compaixão para com as saudades que tenho de ti – uma forma de malícia, claro, mas nem por isso menos compassiva. Faz-me falta a música para dançar ao teu lado neste noante em que vogo. Tive a minha festa-surpresa, sim – apareceram-me todos, carregados de flores, ao lado do caixão. Mas só tu cantas encostado ao gelo da minha boca azul.

 

01 julho 2010

...Há quanto tempo não me arde o coração?...


"E eis-me preso à memória escura dos teus olhos, dos teus passos saltitantes, da tua alegria convicta que a partir de certa altura começou a açucarar demasiado a minha vida. Não consigo concentrar-me. Passo os dias com os olhos sobre as letras dos livros que tenho de ler e não consigo entrar neles. E ouço muitas vezes a canção de Pascoal:

«A sombra das nuvens no mar / O vento na chuva a dançar / Uma chávena a fumegar / Tudo me falava de ti / A sombra das nuvens desceu / O céu alto arrefeceu / E o mar bravio perdeu / A luz que lhe vinha de ti.» Há quanto tempo não me arde o coração?"



Inês Pedrosa

in "Fazes-me falta"



...como esquecer algo que faz parte de nós???...

18 junho 2010

...são apenas fragmentos de uma história, que continua para lá dela...






«Não importa o que se ama. ...
Importa a matéria desse amor.
As sucessivas camadas de vida ,
que se atiram para dentro desse amor.
As palavras são só um princípio - nem sequer o princípio.
Porque no amor os princípios, os meios, os fins,
são apenas fragmentos de uma história,
que continua para lá dela,
antes e depois do sangue breve de uma vida.»

Inês Pedrosa
in "Fazes-me Falta"

28 janeiro 2010

...há quanto tempo não me arde o coração?...

Não importa o que se ama.
Importa a matéria desse amor.
As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor.
As palavras são só um princípio - nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins, são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida.

...


E eis-me preso à memória escura dos teus olhos, dos teus passos saltitantes, da tua alegria convicta que a partir de certa altura começou a açucarar demasiado a minha vida. Não consigo concentrar-me. Passo os dias com os olhos sobre as letras dos livros que tenho de ler e não consigo entrar neles. E ouço muitas vezes a canção de Pascoal:


"A sombra das nuvens no mar / O vento na chuva a dançar / Uma chávena a fumegar / Tudo me falava de ti / A sombra das nuvens desceu / O céu alto arrefeceu / E o mar bravio perdeu / A luz que lhe vinha de ti."
Há quanto tempo não me arde o coração?

Inês Pedrosa
in «Fazes-me Falta»



16 setembro 2009

...todas as noites sinto o castanho dos teus olhos grandes dissolvendo-se nos meus com uma felicidade quente, imensa...




Enquanto os nossos camaradas celebravam nas ruas, nós fabricávamos o amor a partir do zero, no deslumbramento silencioso de um deus que subitamente descobrisse as coisas de que era capaz. Amávamo-nos como se o amor fosse apenas um suplente íntimo dessa revolução que nunca mais chegava. A revolução já tinha chegado, mas nós não sabíamos. Só em Junho de 1974 se lembraram de nós, fechados naquela casa clandestina. Muitas vezes, ao longo da minha vida, desejei que nos tivessem esquecido ali para sempre. Desejo ingrato, infantil. Tive uma vida boa. Consegui ser a advogada que queria ser, cobrar bem aos ricos para defender melhor os pobres. Encontrei um homem que entende o amor como partilha absoluta - nunca senti o peso do trabalho doméstico ou da educação dos filhos. Tive dois filhos que só me trouxeram alegria e serenidade, e tenho já um neto que parece um reclame sobre o brilho da vida. E tive-te, atrás do espelho, todas as manhãs da minha vida. Porque foi sempre para ti que me quis bonita, mesmo nos dias escuros. É em ti que penso, quando escolho a roupa ou escovo o cabelo, todos os dias. Na possibilidade de te encontrar, no acaso de uma esquina. Lisboa é tão grande e tão pequena - porque não havia de te encontrar? Queria ser a mesma, nesse encontro. A mesma, com a luz das rugas que me faltavam no tempo em que nos metíamos por dentro do corpo um do outro como se sozinhos fôssemos apenas pedaços de um corpo mutilado.

Adormeci todas as noites da minha vida nos teus ombros estreitos de adolescente eterno. Nunca foste bonito, mas possuías um não-sei-quê de juventude ancorada que te tornava imediatamente comovente. Usavas e abusavas desse não-sei-quê. Não acreditavas em nada, vivias num aquário de sonhos impossíveis que fazia de ti um anjo negro, abismo de lágrimas congeladas. Eras ardiloso, sorrateiro e impaciente como as crianças; cruzaste-te comigo duas vezes em reuniões de célula e pouco depois fechavam-nos juntos naquela casa clandestina. Nem sob tortura confessarias que tinhas movido os teus cordelinhos para ires viver comigo. Entre o segundo encontro e a nossa definitiva "coincidência no mesmo espaço", como diria a Madalena, perita em justificações espaciais, o teu íntimo amigo António descaíra-se, numa noite de copos. Ralhou-me por causa do meu namorado imberbe e pequeno-burguês e revelou-me que tu me achavas linda e lastimavas que eu nem sequer olhasse para ti. Esta curta e embriagada confissão em diferido mudou a minha vida. Provavelmente encomendaste-a, nunca o cheguei a saber. Quando, há meia dúzia de anos, fui ver o António ao hospital, encontrei-o tão próximo da morte que já não tive coragem de esclarecer os bastidores desta frase minúscula que mudou a minha vida inteira. Não quis que o António percebesse que era ainda para o ouvir falar de ti que precisava dele.

Depois de sairmos de casa, deixaste de me procurar. Creio que te fazias encontrado comigo, mas como eu também me fazia encontrada contigo, nunca cheguei a ter a certeza de que, de facto, me procuravas. Repetir-me-ias muitas e muitas vezes que não eras talhado para a vida conjugal. "Mas nós já vivemos juntos", disse-te eu, uma vez, desesperada. Sorriste, e era um sorriso tão meigo quando sarcástico - ou pelo menos assim me lembro dele: "Só por necessidades imperiosas da revolução". De outra vez disseste-me que, na vida real, eu não aguentaria uma semana contigo. Ou talvez eu tenha inventado que tu me disseste isto. Pouco importa. Posso ter inventado tudo, menos o fulgor perfeito dos nossos corpos juntos. Uma vida inteira não basta para apagar da pele o peso magnífico desse folgor. Só sexo, disseram-me as amigas íntimas, quando eu ainda chorava com elas a saudade do êxtase. Só sexo, fogo e palha, talvez tenham razão. Mas é disso que trata a vida, a minha vida: só sexo. Contigo. O prazer que o meu corpo conhece é o que aprendeu no teu, e foi esse que o meu corpo ensinou aos outros homens, aos vários em que tentou enganar a tua ausência, ao único que soube contornar a tua ausência para permanecer em mim.

Todas as noites me acaricio com os teus dedos, fecho os olhos e sugo os teus dedos sob o contorno dos meus e conduzo-te pelo meu corpo como tu me conduzias. Todas as noites rebolamos da cama para o chão e do chão para cima da cómoda do teu quarto e para a mesa da sala e para as lajes frias da cozinha, todas as noites percorremos abraçados a casa velha onde já não moras, a casa velha que se calhar já se desmoronou sem a nossa ajuda. Todas as noites tu entras em mim por todas as portas, a tua língua silenciosa desperta vertigens desconhecidas nas partes secretas das minhas orelhas e das minhas pernas e dos meus pés. Todas as noites sinto o castanho dos teus olhos grandes dissolvendo-se nos meus com uma felicidade quente, imensa, vejo os teus quadris estreitos de rapaz dançando sobre o redondo do meu ventre, das minhas nádegas, todas as noites os teus dentes mordem o meu pescoço no sítio exacto em que o meu corpo guardava a última fechadura, todas as noites volto a subir a esse monte dos vendavais só nosso. Só sexo, seja.

Tantas vezes te pedi: "Diz-me que me amas, diz só uma vez. Mesmo que seja mentira. Diz-me. Só para eu guardar o som da tua voz a dizer essa palavra". Tinha vinte e três anos, e tu tinhas vinte e nove. Depois dos trinta, deixei de te fazer declarações de amor. Julgava-me madura, ardilosa - pensava que bastava prescindir das palavras para não te perder. Mas não eram as minhas palavras que te perdiam. Tu eras um pintor e já não ias ser pintor. Só com o tempo foste lendo o resto, o resto dos restos que era tudo: que eu sabia que tu eras pintor. O artista do meu corpo secreto, uivante, um tecido de fios de luz que só os teus dedos acendiam, e rios, rochas, relvados amaciados pela tua lingua, uma asa à medida do teu voo, uma casa em que tu moravas de todas as maneiras. Falavas pouco, quase nada, por isso me lembro tanto das tuas palavras todas: "Este apartamento já conheço, podemos passar ao outro?", perguntaste. Se eu contasse às minhas amigas que as tuas palavras eram estas, apenas estas, sussuradas com um sorriso trocista de timidez, elas fariam troça de mim. De nós. Por isso contei apenas o essencial: que tu me fazias sentir bela. Que conseguiste que eu me sentisse bela a vida inteira. De cada vez que o espelho me anunciava mais uma marca do tempo, mais uma prega na carne, eu acariciava-a com os teus dedos, sentindo o prazer que tu sentirias, ao descobrires novas rotas no mapa do meu corpo. No início, dizias-me também às vezes: "És tão nova". Não era um elogio; havia um tom de decepção ou desencontro nesse teu comentário. E eu tinha pressa de encarquilhar, de envelhecer até ficar parecida com as mulheres que amaras antes de mim. Nunca me elogiaste. Encontrávamo-nos por causa do Partido, levavas-me para tua casa, com os pretextos mais nevoentos - um debate político na televisão, o ofício que ias entregar ao Ministério -, e quando fechavas a porta começavas a beijar-me. As pálpebras, o lóbulo da orelha, a curva do pescoço ou o espaço entre os dedos. Só sexo. Nunca começavas como nos filmes. Também nunca perguntaste essas patetices deprimentes que as pessoas copiam dos filmes: "Foi bom?".

Saí do consultório e pensei que tinha de te encontrar. Não sabia como. Há pelo menos vinte anos que não tenho o teu telefone. Um dia desisti de ti. Tive medo de deixar de fazer parte do mundo, de continuar sozinha contigo, só sexo. Conheci um homem que seria indigno trair, um homem que me seduziu porque era o oposto de ti. E decidi ser feliz. Sei vagamente onde moras, ou onde moravas, há cerca de cinco anos cruzei-me com a tua mulher numa festa e percebi que ela dizia: "desde o meu divórcio". Claro que podia estar a falar do seu primeiro casamento. Mas como mudou de assunto assim que me viu, pareceu-me que só podia estar a falar de ti. Nunca fomos apresentadas, eu e a tua mulher, ou ex-mulher. Mas eu sei que ela sabe muito de mim. Os olhos da mulher de um homem que nos ama são indiscretos. Também nos olhos dela encontrei o teu amor por mim. Amor não é a palavra exacta. Amor é o que eu sinto pelos meus netos, pelos meus filhos, pelo pai deles, até pelo meu cão. Pobre cão. Se calhar vai deixar de comer quando eu morrer. Vai ficar sentado à porta, esperando por mim até à morte. Os cães não conhecem a morte, por isso podem morrer de amor. Ficam à espera até ao fim, não se deixam consolar.

Tu tens alma de cão vadio, sabes amar sem desconsolo. Se fosses morrer daqui a um mês ou dois, como eu, saberias fazer-te encontrado comigo? Talvez soubesses. Da última vez que te vi - há nove anos, no cinema - aproximei-me para te pedir um cigarro e disse-te, mesmo antes de ti: "Que disparate. Deixaste de fumar há uma semana, bem sei, desculpa". Como é que sabes?" - perguntaste-me, atónito. Sorri, encolhi os ombros, não cheguei a responder-te. Como é que eu sabia? - Ora, como sei tudo de ti. Através dos sonhos. Agora sento-me no café em frente do Ministério, à espera que tu saias e venhas ter comigo. O Ministério mudou de nome, mas de certeza que tu ainda lá trabalhas. Sempre foste um homem de hábitos e nunca cultivaste grandes ambições. Peço uma bica e começo a fazer contas. Oxalá a tua ambição tenha sido pelo menos suficiente para te afastar da pré-reforma. Também não te imagino em casa, a fazer palavras cruzadas o dia inteiro. Do Partido desististe muito antes da moda da renovação.


Cinco e trinta e cinco. Lá vens tu, de pasta na mão, com o mesmo andar sorrateiro, falsamente tímido, de rapaz antigo. Entras no café. Levanto-me. Os teus olhos crescem e iluminam-se para me ver. Acaricias-me o cabelo, e dizes: "Tens outra vez o cabelo muito comprido". Isto é um elogio. Nem tu sabes ainda como me vai ser útil esse teu elogio, nos meses que faltam. Comprarei um cabelo igual para tu veres. Neste, ainda o meu, quero que mexas. Prendo-te a mão ao meu cabelo. Falamos de coisas soltas, bebes uma cerveja, prometes uma vez mais que um dia me ensinarás a gostar de cerveja. Depois pegas na pasta e perguntas se por acaso não quero ir até lá a casa ver umas fotografias dos tempos antigos. Fechas a porta e começas a beijar-me, primeiro os olhos, depois o lóbulo da orelha, depois o pescoço, enquanto os teus dedos me abrem a camisa e me procuram os seios. Beijamo-nos de olhos abertos, como sempre, e é de olhos abertos que procuro cada uma das novidades do teu corpo, os sítios onde a tua pele se dobra, o cheiro agora mais adocicado do teu sexo. Entramos um no outro de olhos abertos, como se mergulhássemos num mar de silêncio e fogo escuro. A meio da noite peço-te que me deixes ficar contigo um mês - "só um mês, prometo. Posso?" Não me respondes, claro. A não ser que os beijos sejam uma resposta, e eu preciso de acreditar que sim. Preciso dessa vida verdadeira que escondi debaixo da tua pele, antes que o cabelo me caia, antes que comecem os enjoos e as dores, antes que o meu corpo seja tomado pelo cheiro miserável da doença. Talvez para morrer eu precise do amor e da família. Mas para acabar de viver, só preciso de ti, desta febre azul a que os outros chamam só sexo.



Inês Pedrosa
"Só sexo", in "INTIMIDADES. ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS FEMININOS".

...Há quanto tempo não me arde o coração?...






"E eis-me preso à memória escura dos teus olhos, dos teus passos saltitantes, da tua alegria convicta que a partir de certa altura começou a açucarar demasiado a minha vida. Não consigo concentrar-me. Passo os dias com os olhos sobre as letras dos livros que tenho de ler e não consigo entrar neles. E ouço muitas vezes a canção de Pascoal:

«A sombra das nuvens no mar / O vento na chuva a dançar / Uma chávena a fumegar / Tudo me falava de ti / A sombra das nuvens desceu / O céu alto arrefeceu / E o mar bravio perdeu / A luz que lhe vinha de ti.» Há quanto tempo não me arde o coração?"



Inês Pedrosa
in "Fazes-me Falta"

14 setembro 2009

...apenas com a diferença da aura, que é afinal tudo...





"Habituamo-nos a tratar os amores como electrodomésticos: quando se escangalham, vamos ao supermercado comprar um novo, igualzinho ao que o outro era. Consertar? Não compensa: o arranjo sai caro, além de que nunca sabe muito bem procurar a peça que falta. Substituímos a eternidade pela repetição, e o mundo começou a tornar-se monótono como uma lição de solfejo. Tememos a maior das vertigens, que é a duração. Mas no fim de cada sucesso há um cemitério como o de Julieta e Romeu, apenas com a diferença da aura, que é afinal tudo."



Inês Pedrosa
in "Nas tuas mãos"





...parece-me que muitas vezes é mais isto... querer rever num novo amor um antigo, esquecendo-nos que as pessoas são diferentes... e acaba por se coleccionar pessoas, como quem colecciona cromos ou pacotes de açúcar...

13 setembro 2009

...alguma vez o quiseste??...








Estou sozinho. Sozinho com o coração em bocados espalhados pelas tuas imagens. Já não posso oferecer-te o meu coração numa salva de prata. Alguma vez o quis? Alguma vez o quiseste? Dava-se agora jeito um deus qualquer para moço de recados. Um deus que te afagasse os cabelos e me recordasse como eram macios.



Inês Pedrosa

in "Fazes-me falta"

11 setembro 2009

...amigos, nunca mais seremos, tens razão...





Devo-te muito, Emanuel. Devo-te acima de tudo a certeza de que nunca mais experimentarei a sensação de que devo alguma coisa a alguém. Tornaste-me outra vez mulher, e, pela primeira vez, livre. Amo-me muito melhor desde que te amo a ti - e é por isso que nunca deixarei de te amar, mesmo quando formos já só amigos. Só amigos, nunca mais seremos, tens razão: o prazer explosivo dos nossos dois corpos juntos iluminar-nos-á em definitivo, quando isso a que chamamos amor se tiver despedaçado contra a banalidade dos dias, que é sempre maior do que a pobre banalidade humana. Um dia, Emanuel, o meu estômago deixará de estremecer à aproximação do teu perfume, o meu coração deixará de palpitar ao escutar os teus passos, e a minha cabeça terá de imaginar histórias perversas para que meu corpo consiga molhar-se de desejo pelo teu. Nesse dia, espero que consigamos o feito da amizade. Espero que consigas gostar tanto de mim que transportes a lembrança do nosso encontro para o segredo da intimidade que depois de mim vais encontrar noutras mulheres. Pedes-me que me cale. Dizes que pensar no futuro arruína o encanto do presente. Dizes que tentar dizer tudo é estragar tudo. Tens razão, Emanuel. Mas tentar fixar o presente em imagens, como tu fazes, é também matá-lo depressa, e tu não dás por isso. Os teus filmes congelam a vida, tanto como minhas palavras. Eu não posso ver os teus filmes, e tu amas-me em silêncio. Assim duraremos.

Inês Pedrosa
in "A Eternidade e o Desejo"

26 julho 2009

...uma cúmplice à qual podia dizer tudo, mesmo tudo...





Os Degraus do Coração
Inês Pedrosa


- Vai ser óptimo. Mas já sabes: às sete e meia da manhã, ponho-te na rua.

Ela riu-se. No momento ela riu-se, porque no momento estava concentrada em ser a deusa da graça e da alegria, de forma a que ele não pudesse esquecê-la. No momento todos os seus sentidos convergiam para aquela essência do feminino que tanto criticava, nas suas conferências. No momento, ela deixara de ser a exemplar funcionária do Centro Nacional dos Direitos das Mulheres. No momento, ela sonhava-se
pura encarnação do mais clássico dos sonhos masculinos: a apaixonada leve.

Os transeuntes que olhassem agora para aquela mulher de olhos esborratados, chorando, por entre o fumo dos cigarros, no carro estacionado, não imaginariam que há quinze minutos, meia hora, uma hora, os olhos dela, maquilhados a versículo de revistas femininas, cintilavam e sorriam, sobre uma mesa do restaurante ali ao lado. Mas agora, nem os transeuntes olhavam para ela. Toda a gente tinha mais
que fazer. A começar por ela: um colóquio internacional a tratar, do princípio ao fim, os papéis dos impostos, o supermercado, o bolo para a festa dos seus quarenta anos. Festa sem bolo não era festa, diria a família, se ela se esquecesse. E ela não podia decepcionar a família.
Sobretudo no dia dos seus quarenta anos.

- Vai ser óptimo. Mas já sabes: às sete e meia da manhã, ponho-te na rua.

Bem. Assim tão a correr, nem sei se vale a pena, acho que é melhor
nem dormir contigo. Não gosto dessa frase, ponho-te na rua.

- Vá lá, não vais interpretar a frase à letra, pois não? Estava só a brincar.

Pois. Ele estava só a brincar com ela, tudo aquilo era apenas uma risonha, delirante, infantil e erótica brincadeira. Riam-se muito os dois, e ele fazia questão de almoçar com ela sempre que, como naquele dia, tinha uma horita livre, para lhe demonstrar que não estava só interessado em ir para a cama com ela. Que não era desses. Era um homem de princípios. De esquerda, evidentemente. Não se lembrara do aniversário dela porque, à partida, não ocupava a cabeça com tralhas
irrelevantes. À partida, repetia ele, a propósito de tudo e de nada. À
partida, por exemplo, estaria disponível no dia tal. A chegada, logo
se veria. Até era bom que não se lembrasse do aniversário dela.
Quarenta é um número demasiado pesado, sobretudo para um homem casado com uma mulher de trinta e poucos. Trinta e três, trinta e quatro. Ele não tinha bem a certeza. Tinha sempre mais em que pensar.

Ela fez-lhe uma festa na cara, ele olhou para o relógio, tinha uma reunião às três, eram duas e um quarto, a conta já pousada na mesa, aquele restaurante podia não ser grande coisa mas pelo menos era rápido, e ele pensou que assim ainda tinha tempo de fazer o depósito bancário que se esquecera de fazer de manhã, e disse-lhe isso mesmo.
Ele dizia-lhe tudo, gostava de partilhar com ela todos os detalhes da sua vida de intensas reuniões e transacções financeiras. Gostava de a tratar como uma amiga cúmplice, com um respeito que a distinguia de uma vulgar amante. Uma cúmplice à qual podia dizer tudo, mesmo tudo.
Havia dois dias, por exemplo, dissera-lhe que tinha de mandar alargar a aliança de casado. Se ela não lhe tivesse perguntado porque é que não usava aliança, ele não teria sentido necessidade de lhe dar aquela resposta, simples e verdadeira, enquanto fumavam o cigarro, depois do prazer a que também não se podia chamar amor. Amor, afinal de contas, é uma palavra vaga, mete-se lá tanta coisa, tudo o que não fomos
capazes de ser e de fazer, não é? E ele gostava da verdade das coisas concretas, até nas palavras. As vezes dizia-lhe: «adoro-te.» Era um adorável adorador, nos momentos em que se dispunha a adorar.


- Nada se compara a esta sensação de estarmos apaixonados - dissera-lhe ela.

- Atenção. Eu não estou apaixonado por ti.

- Mas não disseste que me adoravas?


- E adoro. Mas posso adorar peixe sem deixar de gostar de carne.


Se ao menos ele tivesse um padrão metafórico um bocadinho menos alimentar, pensava ela. Descarrilamentos do coração: ele adorava tudo nela, mas não estava apaixonado por ela. Quanto a ela, por mais que enumerasse os defeitos dele, as múltiplas coisas de que não gostava nele, não conseguia deixar de o querer, a todas as horas do dia.
Queria-o também, em sobressalto, a meio da noite - acordava angustiada ao lado do homem errado, e ia para o computador escrever-lhe cartas às quais, desde que se tornara de facto seu amante, ele deixara de responder. Dizia que não tinha tempo.


- A paixão é o resultado da evolução de uma relação, o ponto mais alto, percebes? Não digo que não possa, um dia, chegar a apaixonar-me por ti. Vamos vivendo, construindo, e logo se vê.

Pobre rapaz. Tão irracionalmente racional, a querer à força transformar o coração numa escadaria monumental, com vista para os manhãs cantantes dos seus ideais juvenis. Não conseguira também justificar construtivamente o Muro de Berlim, e depois o seu instantâneo desabamento?

Porque choraria ela tanto, agora, no carro - em vez de voltar para o trabalho, com a alegria cândida de mais um picante almoço clandestino?

Era muito importante que ele não se sentisse pressionado. Que fosse livre. Livre como ela descobrira que queria ser, por acaso, nos braços dele. Só por acaso, repetia ela, de si para si. O reencontro com aquela paixão de juventude significava apenas o reencontro com um lugar de si mesma há muito sufocado. O lugar da intimidade. O lugar dos sonhos.


O teu sonho não vai poder realizar-se. Nesta fase do trabalho, é-me impossível tirar um dia.

O meu sonho? Foste tu quem falou em passarmos duas noites inteiras juntos. E duas noites inteiras, aqui, na minha cidade, não posso. Só se disser que vou para fora em serviço. Mas para isso tenho mesmo de ir para fora, não é?


O sonho dela. Claro. Ele apenas tinha perguntado se ela não podia passar duas noites inteiras no hotel. E isto porque ela tinha comentado que o marido estaria ausente naquela semana. Claro. Era muito mais confortável dormir com ela do que ter de içar forças para se vestir e a levar a casa, quando já estava estonteado de sono.
Ela insistia em voltar para casa de táxi. Mas ele era um cavalheiro.
Levantava-se estoicamente e levava-a a casa. Uma, duas. A ilusão dos números. Uma noite era um prolongamento da amizade colorida. Duas, uma promessa romântica. Pelo menos para ela, que começou imediatamente a procurar na internet hotéis à beira-mar. Deixando para trás a preparação do colóquio internacional, note-se. Depois queixem-se de que as mulheres são preteridas nos lugares de responsabilidade. Ele nunca deixaria que o seu entusiasmo por ela interferisse, um minuto que fosse, no seu trabalho.
Ele não perdia tempo a ler romances, como aquele, do reaccionário Milan Kundera, que distinguia o sexo do sono partilhado. Como era a frase? «A partilha do sono era o corpo de delito do amor». Literatura. Rememorou as noites que partilhara com ele na juventude. Tinham dormido juntos num hotel barato de Paris, no comboio de Paris a Lisboa, e, depois, em casa de vários amigos em
várias cidades. E essas noites infinitas tinham caído num buraco negro, durante quase vinte anos.

- O teu sonho não vai poder realizar-se - dissera ele, sorrindo.

No carro, no meio dos cigarros e da voz da Adriana Calcanhotto, sambando incessantemente: «por você não há o que eu não faça», aquela frase queimava-lhe o coração. Sentia o coração a arder tanto que precisava de um imenso rio de lágrimas para conseguir regressar ao trabalho. Ela passava a vida a dizer que homens e mulheres são feitos das mesmas matérias incandescentes e frias. Agora percebia que não era bem assim. Ali, no carro, com os olhos esborratados, acendendo uns cigarros nos outros, desejou transplantar aquele coração em labaredas por outro, de amianto. Pensou que ser homem era saber fazer capas de amianto para o coração. Sim, claro que havia homens e homens, mulheres e mulheres, que só os ignorantes generalizam. Mas ali, no carro, ela era só mais uma das muitas mulheres ignorantes que choram nos carros, depois de almoçarem a correr com homens que, entre duas corridas, esvaziam nelas as tensões do dia e os sonhos esquecidos. Queimava-a a recordação daquele exacto sorriso dele, doce e rápido como um quadrado de chocolate - exactamente igual ao quadrado de chocolate do café que, para não engordar, ela guardara no bolso do casaco para dar ao filho, quando chegasse a casa. A casa onde tudo dependia das mãos dela: aquilo que se comia e as camas onde se dormia e a roupa que se usava e as luzes que se acendiam e as máquinas que lavavam. Mas agora a casa dela era o carro, o carro onde ela podia encher-se de cigarros e chorar. E sonhar, no meio das lágrimas, um sonho sólido como uma casa que pudesse ainda realizar-se. Deu a volta à chave da sua casa volante e navegou, por entre as lágrimas, para fora da cidade. Seguiu pela auto-estrada em direcção ao sul, conduzindo horas a fio, até se encontrar, de olhos secos, sozinha, diante da noite do mar.




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...e na falta de corações de amianto, há alguns que se transformam em autênticos icebergs...

(...prefiro este tema "Metade" ao tema "Pelos Ares"... e foi um dos temas que eu ouvi repetidas vezes...)

13 junho 2009

...sentimento...


“A música da dor é tão repetitiva que, ao fim de algum tempo, todos os seres concretos que nos torturaram se misturam até formar um pequeno céu de desespero que nos envolve como uma redoma.”


Inês Pedrosa
in "Fazes-me falta"

12 junho 2009

...creio sem crer, como uma condenada... afinal de contas, não tenho nada a perder...




"Prefiro esquecer, esquecer-te até se preciso for, para viver como tu vivias, apreciando cada momento - sobretudo os dolorosos, pela lucidez que trazem como bónus - desta tão precária maravilha a que chamamos existência. Tantas vezes te aconselhei as virtudes do silêncio. Queria calar-te para te proteger, sim. Há poucas pessoas apetrechadas para a verdade - mesmo nós, quantas vezes não fechámos à chave umas verdadezitas mais cortantes para não nos magoarmos? Creio que me fazes - schiuuu! - assim, com uma vagar de embalo, sempre que a voz da minha consciência (seja lá isso o que for) sobe o tom para me acusar pelo que não te dei. Creio sem crer, como um condenado. Afinal de contas, não tenho nada a perder. Mesmo que os anjos não existam, as asas com que te vejo, sentada na beira da minha cama, do cume enlouquecendo da minha insónia, ficam-te melhor do que todas as toilettes. Esforço a imaginação, estendo-a até aos teus dedos, mas não consigo mais do que um ligeiro raçagar de asas. São lençóis que agito, bem sei - mas não me concederás a graça de transformar a fímbria do meu lençol na ponta dos teus dedos?"



Inês Pedrosa
in "Fazes-me Falta

30 setembro 2008

...quantas vezes não fechámos à chave umas verdadezitas mais cortantes para não nos magoarmos?...




"Prefiro esquecer, esquecer-te até se preciso for, para viver como tu vivias, apreciando cada momento - sobretudo os dolorosos, pela lucidez que trazem como bónus - desta tão precária maravilha a que chamamos existência. Tantas vezes te aconselhei as virtudes do silêncio. Queria calar-te para te proteger, sim. Há poucas pessoas apetrechadas para a verdade - mesmo nós, quantas vezes não fechámos à chave umas verdadezitas mais cortantes para não nos magoarmos? Creio que me fazes - schiuuu! - assim, com uma vagar de embalo, sempre que a voz da minha consciência ( seja lá isso o que for) sobe o tom para me acusar pelo que não te dei. Creio sem crer, como um condenado. Afinal de contas, não tenho nada a perder. Mesmo que os anjos não existam, as asas com que te vejo, sentada na beira da minha cama, do cume enlouquecendo da minha insónia, ficam-te melhor do que todas as toilettes. Esforço a imaginação, estendo-a até aos teus dedos, mas não consigo mais do que um ligeiro raçagar de asas. São lençóis que agito, bem sei - mas não me concederás a graça de transformar a fímbria do meu lençol na ponta dos teus dedos?"



Inês Pedrosa
in "Fazes-me Falta"
...às vezes afastarmo-nos é a única forma de seguir em frente... porque também temos sentimentos e porque se os outros não cedem, não adianta continuarmos a fantasiar a realidade e a ceder sempre... nada irá mudar. E por muito que nos custe, só nos resta seguir noutra direcção...

13 setembro 2008

...mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha...




(...) Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?(...)


Excerto do livro "Fazes-me falta" de Inês Pedrosa




...fazes-me falta... mas nada irá mudar isto -afinal, os milagres parece que só acontecem nos filmes, nos livros ou na vida dos outros... mais do que tudo, sinto a falta dos teus abraços, que me faziam sentir que tudo estava bem, mesmo quando o mundo desabava à minha volta... como hoje, em que os velhos fantasmas regressaram... e nada faz sentido... e há coisas que por mais que lute e tente mudar, não consigo... e não me consigo resignar... e o pior é que já nada há a fazer, e cada dia é mais difícil seguir... e nem o muito trabalho consegue tirar-me tempo para pensar nesta merda de vida...