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21 março 2015

...deixa que ele venha pelo riso das crianças...

 
 
 
 
 




Não procures o poema, me disseste.

Deixa que ele venha por sinuosos trilhos,
ou pelo riso das crianças,
ou pelo cantar dos pássaros,
ou pelo nome rasurado dos mortos,
ou pelo transparente caminho do coração.
 
Graça Pires in "Caderno de significados" (2013)

18 janeiro 2015

...um dilúvio começa ao largo do desespero...

 
 
Chove perto dos olhos manchados de errância.
Um dilúvio começa ao largo do desespero.
Pensámos que, de noite, a mendicidade
das mãos passava despercebida.
Partilhámos enigmas e abismos,
procurando uma margem, um horizonte,
ou apenas uma sede
tão imediata como as lágrimas.
Porém, a cidade não consente vadios
à porta do futuro.
Por isso nos abrigámos nos indícios
da casa ou do caos.
Hoje não lamentamos a brevidade dos desejos
porque somos personagens
de uma parábola em sangue.

-Graça Pires-

29 setembro 2010

...deixo, então, que soltem tuas cinzas na mancha desta página, onde ainda ressoam os teus passos...

Morreste sem alarido.


De que morte?

me pergunto.

Descentrado no tempo,

rasgavas o silêncio

dos caminhos que te perseguiam.

A via-láctea, entretecendo

teu delírio, nunca me devolveu

a forma imprecisa do teu vulto.

Inclino o rosto

para a luz dispersa da lua

e vejo o teu nome

nas pupilas das aves nocturnas.

Deixo, então, que soltem tuas cinzas

na mancha desta página,

onde ainda ressoam os teus passos.



Graça Pires
in "Uma extensa mancha de sonhos" (2008)

14 novembro 2009

...só um milagre me salvou de uma solidão definitiva...



Pelo vértice dos abismos
posso espreitar o fulgor inventado
da sombra que me precede.
Todos os sinais do rosto
se tornam tão palpáveis
como a paisagem dos dias,
em que a luz, trémula,
junto à fronte me deixou,
no fundo do olhar, para sempre,
uma ilha cercada por sombras,
tão cheias de orfandade,
que só um milagre me salvou
de uma solidão definitiva.


Graça Pires
in "Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos" (2007)

14 agosto 2009

...devolve-me o temor de múltiplas solidões...


Às vezes
não sei por que motivo
afogo o olhar
em trágicos silêncios.
Para encontrar a luz
me bastava enfrentar
a noite, porque possuo
nos olhos o apelo
errante das sombras.
Pequenas traições
tatuadas na pele
são apenas pretextos
para disfarçar os medos.
Um remorso
germinando na lembrança
devolve-me o temor
de múltiplas solidões.


Graça Pires

...há que tempos que não ia ao "Ortografia do Olhar"... mea culpa...

17 junho 2009

...fui, eu sei, uma suspeita de luz em teu olhar...





Todos me falam de ti
com palavras ambíguas.
Fui, eu sei, uma suspeita
de luz em teu olhar.
Virados a levante,
os meus cabelos
eram labaredas em teus dedos.
Na hora do combate
me nomeavas,
como se rezasses.
Pinto-a na minha imaginação
como a desejo, tanto na beleza
como na nobreza, disseste.
E vejo a minha expressão
na cor dos teus olhos.
Tão cúmplice, eu,
de tamanho assombro.

20 janeiro 2009

...e direi onde começa e acaba o secreto destino do silêncio...



Da tua ausência


Voltarei sempre às paisagens da tua sombra
enfeitada de madressilvas.
Gravarei o teu nome em todas as árvores,
sem marginalizar as razões da tua ausência.
Cantarei palavras sem espessura,
como moinhos de vento,
ou o frágil sabor da chuva.
Dançarei contigo na periferia da manhã
e direi onde começa e acaba
o secreto destino do silêncio.


Graça Pires

17 outubro 2008

...hoje nasce-me no olhar uma luz quase cruel...



É POSSÍVEL

É possível que já não haja pássaros
a esvoaçar em torno das palavras
com que calei
o desespero das manhãs
quando tinha do cosmos
uma visão romântica.
Hoje nasce-me no olhar
uma luz quase cruel
com que ilumino
a linha de sombra
que me cerca as mãos.


-Graça Pires-

20 agosto 2008

...um desvio de malícia denuncia a suspeita cumplicidade da brisa que nos brinca no rosto...



Poema de amor


Enquanto os meus passos procuram
nos teus a ressonância da alegria
e ambos reconhecemos a luz fascinada
do olhar, dá-me a tua mão.
O nosso caminho não é a tristeza,
nem a raiva, nem o medo.
O rio conhece-nos a voz
porque transportamos no coração
pássaros em chamas e vagueamos lado
a lado, sem tempo, sem idade.
Um desvio de malícia denuncia
a suspeita cumplicidade da brisa
que nos brinca no rosto.
Uma densa névoa lambe,
tumultuada, a pele da noite,
Ao amanhecer, quase inesperadamente,
far-se-à verão em nossas bocas.
O teu nome e o meu nome serão frutos
de esperma e saliva presos à língua.
Os teus olhos : inquietos,
deslumbrados, transparentes.

Graça Pires

17 maio 2008

...refaço a espera...






Veio, devagar, um pássaro
sobrevoar minhas mãos
tão adiadas das tuas.
Refaço a espera.
Digo o teu nome para que voltes.
Foi secreto e breve o nosso encontro.
Nenhum registo o mencionou.
Vieste, lembro,
como quem vem por uma noite:
ansioso e clandestino
Esqueci já o lugar.
Não o brilho dos teus olhos.
Uma sensata loucura
me tornou cúmplice
dessa paixão quase marginal.
Nunca se viu uma história
onde se ache um cavaleiro andante
sem amores, disseste,
como quem justifica
o paradoxo de um amor assim.


-Graça Pires-

19 abril 2008

Certos pressentimentos






Os últimos nós do silêncio,
nos cantos da boca gritam
que há lugares onde se cobre de lodo
o destino dos homens e se rasgam,
em dolorosos pedaços,
os sonhos fraternos.
Envelhecem, em meus dedos
certos pressentimentos.
Digo e desdigo a tristeza.
Frente a frente com o texto,
incluo-me na desmedida
demência das palavras.

-Graça Pires-


(espero que a Sessão de Lançamento do novo livro tenha corrido bem... :)) )

05 fevereiro 2008

...um dilúvio começa ao largo do desespero...




Chove perto dos olhos manchados de errância.
Um dilúvio começa ao largo do desespero.
Pensámos que, de noite, a mendicidade
das mãos passava despercebida.
Partilhámos enigmas e abismos,
procurando uma margem, um horizonte,
ou apenas uma sede
tão imediata como as lágrimas.
Porém, a cidade não consente vadios
à porta do futuro.
Por isso nos abrigámos nos indícios
da casa ou do caos.
Hoje não lamentamos a brevidade dos desejos
porque somos personagens
de uma parábola em sangue.

-Graça Pires-

17 outubro 2007

...urgente de viver..




Contra o peito da noite me aconchego
sem medo da manhã.

Sei que não sou rival do vento,
nem é minha irmã a lua cheia.
Urgente de viver, simulo o futuro,
como quem saboreia a pureza
no limiar do pecado
.
Deitada sobre a terra gravo,
nas paredes côncavas do firmamento,
uma palavra de amor recém-nascida.
E, nem o mais leve movimento das mãos,
abertas sobre a fantasia,
mostrará a dança das sílabas sobre a boca,
onde existe um barco de vidro gritando por um rio.


-Graça Pires-

06 outubro 2007

Castelos encantados...





Que podemos fazer, se as núvens
tecem no azul castelos encantados?
Ou serão as sombras dos barcos sem rota,
esperando os marinheiros perdidos
e desvairados do apelo do mar?
Que fazer quando, de olhar assombrado,
é infrutífera qualquer tentativa
de suspeitar dos sentidos?

-Graça Pires-


às vezes, no meio da nossa imensa felicidade, construímos castelos de núvens... e quando damos conta, os castelos encantados caiem e ficamos perdidos, sem saber para onde seguir.

Resta-nos apenas uma solução: seguir em frente, apesar da dor, e deixar de sonhar em futuros... vivendo um dia de cada vez e aprendendo a valorizar as coisas boas que nos acontecem na vida.. "las pequeñas cosas de la vida"... a isto creio que se chama "crescer"... :)

04 outubro 2007

Do lado mais perfeito do silêncio...




Do lado mais perfeito do silêncio
seguro as palavras, ombro a ombro,
como um vício inexplicável.
Deixem-me refazer as noites
da inocência, para que a caligrafia
não apodreça nos meus dedos.
Um brilho oblíquo, escurece,
em meu olhar, um tempo diferido,
que condena e absolve qualquer erro.


-Graça Pires-

29 setembro 2007

Já não posso olhar as palavras como dantes...


Já não posso olhar as palavras como dantes.

O tempo apagou-me das mãos tantos desejos.

É possível que a minha boca

se encha de silêncios,

à míngua de alegria,

como se uma noite inquieta

me ardesse nos ossos

e as aves me segredassem

ausências sem recuo.

Porém, já outros pássaros

reiniciam um voo mais que perfeito,

à procura de um lugar

onde, transfigurados, possam tecer, de novo, as suas asas.


-Graça Pires-