
"Nunca soube o seu nome. Julgo que era russo, mas não tenho a certeza.
Conheci-o em Paris, num Chartier gorduroso do Boul'Mich, nos meus tempos de estudante falido de medicina.
Todas as tardes jantávamos à mesma mesa, de modo que um dia entabulámos conversa.
Era um espírito original e interessantíssimo: tinha opiniões bizarras, ideias estranhas - como estranhas eram as suas palavras, extravagantes os seus gestos. Aquele homem parecia-me um mistério. Não me enganava, soube-o mais tarde: era um homem feliz. Não estou divagando: era um homem inteiramente feliz - tão feliz que nada lhe poderia aniquilar a sua felicidade. Eu costumo dizer, até, aos meus amigos que o facto mais singular da minha vida é ter conhecido um homem feliz.
O mistério penetrei-o numa noite de chuva - uma noite muito densa, frigidíssima. Eu começara amaldiçoando a vida, e, num tom que não lhe era habitual, o meu homem apoiou:
- " Tem razão, muita razão! É uma coisa horrível esta vida - tão horrível que se não pode tornar bela! Olhe um homem que tenha tudo: saúde, dinhiro, glória e amor. É-lhe impossível desejar mais, porque possuiu tudo quanto de formoso existe. Atingiu a máxima ventura, e é um desgraçado. Pois há lá desgraça maior que a impossibilidade de desejar!... "
In
"O Homem dos Sonhos" de Mário de Sá Carneiro