Mostrar mensagens com a etiqueta Mário de Sá Carneiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário de Sá Carneiro. Mostrar todas as mensagens

10 julho 2008

...a um morto nada se recusa...



FIM

"Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro. "


Mário de Sá Carneiro

02 maio 2008

...balouço à beira dum poço bem difícil de montar...

...ontem o Angel lembrou-me este poema... que vem mesmo "a calhar" com o que se passa cá dentro... :))







O recreio


de Mário de Sá-Carneiro

Na minh'Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço
Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia,
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...

12 fevereiro 2008

o grande sonho ... quase vivido...



Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...

Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro

05 setembro 2006

Um homem feliz



"Nunca soube o seu nome. Julgo que era russo, mas não tenho a certeza.
Conheci-o em Paris, num Chartier gorduroso do Boul'Mich, nos meus tempos de estudante falido de medicina.

Todas as tardes jantávamos à mesma mesa, de modo que um dia entabulámos conversa.
Era um espírito original e interessantíssimo: tinha opiniões bizarras, ideias estranhas - como estranhas eram as suas palavras, extravagantes os seus gestos. Aquele homem parecia-me um mistério. Não me enganava, soube-o mais tarde: era um homem feliz. Não estou divagando: era um homem inteiramente feliz - tão feliz que nada lhe poderia aniquilar a sua felicidade. Eu costumo dizer, até, aos meus amigos que o facto mais singular da minha vida é ter conhecido um homem feliz.

O mistério penetrei-o numa noite de chuva - uma noite muito densa, frigidíssima. Eu começara amaldiçoando a vida, e, num tom que não lhe era habitual, o meu homem apoiou:

- " Tem razão, muita razão! É uma coisa horrível esta vida - tão horrível que se não pode tornar bela! Olhe um homem que tenha tudo: saúde, dinhiro, glória e amor. É-lhe impossível desejar mais, porque possuiu tudo quanto de formoso existe. Atingiu a máxima ventura, e é um desgraçado. Pois há lá desgraça maior que a impossibilidade de desejar!... "
In
"O Homem dos Sonhos" de Mário de Sá Carneiro