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05 janeiro 2016

...para quem esteja na disposição de ver, há museus em toda a parte, tudo pode ser um museu...


BENS DE CONSUMO
Sob as luzes demasiado brancas dos supermercados, aprendem-se grandes lições. Só raramente os roteiros turísticos incluem visitas a supermercados, ainda assim, há muita informação que não se encontra em monumentos. Para o visitante interessado e atento, os supermercados são retratos da economia, da gastronomia, de inúmeras faces da cultura real, da identidade de um país.

Nessas prateleiras, estão os produtos tradicionais, consequências da história, mas também está aquela pasta de dentes com uma embalagem amarela e preta, fórmula química e industrial que todos os portugueses de certa idade recordam, publicitada durante anos na televisão. Ou, mesmo ao lado, está o restaurador capilar Olex, símbolo de uma época, frase publicitária lembrada por tantos que, nesse tempo, estavam longe de ter falta de cabelo. E é possível sentir saudades daqueles carrinhos de linhas, daqueles rebuçados para a tosse ou daqueles algodões para limpar os dourados e os prateados.

Nos anos oitenta, eu ia à mercearia. Com o dinheiro trocado, notas e moedas, pedia o que levava escrito num papel. O balcão tinha um tampo de mármore e chegava-me à altura do peito. Enquanto a senhora Dalila procurava o que lhe pedia, eu ficava a olhar para os brinquedos que estavam expostos, se fosse perto do Natal, havia comboios a pilhas e guarda-chuvas de chocolate; havia fotografias de gelados nos meses do verão. Não era habitual que a conta incluísse essas extravagâncias, mas olhar para elas também tinha valor, também me alimentava o desejo.

Depois, quando chegaram os hipermercados a Portugal, a minha família e eu surpreendíamo-nos com os preços de tudo, as promoções eram loucas e enlouqueciam-nos. Ao longo de corredores, eu empurrava carros com pilhas de detergente para a roupa, tínhamos de aproveitar a viagem. No parque de estacionamento, só o meu pai, com grande arte, conseguia encontrar espaço no porta-bagagens para todas as compras que fazíamos a pensar no mês seguinte, pelo menos. Voltávamos para casa com as vozes dos altifalantes a ecoarem-nos na cabeça, alguém precisava de ir à caixa número não-sei-quantos, alguém precisava de ir com muita urgência e repetidamente à caixa número não-sei-quantos.

Hoje é tudo igual? Não concordo. Uma Coca-Cola com o rótulo em alfabeto cirílico, mandarim, árabe ou hindi tem muita diferença de uma Coca-Cola com o rótulo em inglês, Coke comprada numa loja de conveniência em Manhattan. Mesmo que a composição seja exatamente a mesma, o sabor será tão distinto como o cenário, o preço ou a história que essa bebida possui naquele lugar, o que representa ali.

Para quem esteja na disposição de ver, há museus em toda a parte, tudo pode ser um museu.

Pasta medicinal Couto, a minha mãe ainda prefere essa marca. Atualmente, dá-se a grandes trabalhos para achá-la, mas vale sempre a pena.

Sentiremos saudades de muitas coisas que hoje parecem banais. Nada é suficientemente industrializado ou massificado a ponto de não poder ser recordado com nostalgia. Essa saudade somos nós, é o próprio tempo.

por José Luís Peixoto, in Revista UP

11 maio 2015

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.



O meu lugar
 
 
Quando era pequeno, rodava sobre mim próprio com as pontas dos pés. Rodar-rodar-rodar: as formas a saírem dos contornos, as cores a misturarem-se demasiado rápidas e, depois, ao parar de repente, o chão como um barco debaixo da tempestade, a paisagem inteira a oscilar desgovernada, eu a tentar equilibrar-me e, ao mesmo tempo, criança, a apreciar esse caos. A seguir, a pouco e pouco, o horizonte abrandava e voltava a fixar-se.
 
Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.
 
Posso estar a falar com a minha mãe, como há dois dias atrás, e ela diz-me:aquele sobreiro que fica entre o campo da bola e o Monte da Torre. E, entre tantos, eu sei exactamente qual o sobreiro a que se refere. Essa é a precisão com que sei o meu lugar. As ruas, calcetadas com paralelos, suportam o meu pensamento desde que nasci. Em gestos largos, os muros são caiados anualmente porque o branco precisa de renovação, a pureza é uma tarefa permanente.

Esses foram os anos em que viajou pelo mundo inteiro. Não sei que voz irá dizer esta frase sobre a minha vida neste tempo. O mais provável será ser eu próprio a dizê-la: Esses foram os anos em que viajei pelo mundo inteiro. Em qualquer dos casos, essa frase será dita quando já não aguentar o ritmo deste tempo, desta idade em que atravesso oceanos como se rodasse sobre mim próprio. Com os olhos cheios, quando paro de repente, o chão balança, a paisagem ondula. É então que o meu lugar, paz/certeza, me nivela.
 
Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

Com tantas viagens, como é que consegue escrever? Ouço esta questão de muitas vozes, em muitas línguas, vinda de pessoas que nunca se conhecerão umas às outras. Dou qualquer resposta que me pareça satisfazê-las rapidamente. Às vezes, nem preciso usar palavras, basta sorrir. Quem faz perguntas não está sempre interessado em saber as respostas.
 
No tom prosaico dessas conversas, seria difícil explicar que eu tenho um lugar, está sempre comigo. É visível e invisível. Há oliveiras centenárias agarradas a essa terra. Há uma forma de respirar que só é possível sob essa aragem. Há fontes de bicas fartas, onde jorra tudo o que amo e me ama.
 
Quando era pequeno, os campos eram enormes. Cresci mais do que podia imaginar e, no entanto, os campos continuam enormes. Entre o que me puxa de um lado e de outro, há o meu lugar a manter-me firme, a fornecer-me equilíbrio infinito. A diferença de forças é incomparável. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.
 
Levo comigo uma origem e um destino. Levo comigo um sentido. Irreversível como um mergulho, não me perturbo. Eu tenho um lugar. Sinto que lhe conheço cada detalhe e, no entanto, todos os dias o exploro e lhe encontro novidade. No meu lugar, os sinos do adro dão as horas.
 
É difícil vermo-nos a nós próprios, sei bem. Falta a perspectiva da distância, os espelhos distorcem, o rosto com que nos olham está sempre tingindo pela cor que trazem por dentro. É também por isso que me faz tanta falta o meu lugar. Sem ele, talvez acreditasse no primeiro reflexo que me apresentassem. Sem ele, talvez dependesse desses humores para imaginar quem sou.
 
Assim, estou preparado para atravessar o mundo inteiro. E, se mais mundo houver, mais mundo será tocado pela minha pele. Mi-nha pe-le, palavras pronunciadas sílaba a sílaba. E nenhum continente é demasiado grande ou demasiado estéril para me impedir de atravessá-lo. E nenhum detector de metais conseguirá identificar o tamanho e os ângulos do lugar que levo comigo: amor. Repito: amor.
 
Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.
 
Ainda rodo sobre mim próprio e, depois do mundo fosco, preciso de acreditar na nitidez que transporto, esse lugar meu, onde descanso e onde não sou um postal de tiragens sem fim, sempre deturpado um pouco mais, um pouco mais, milímetro a milímetro. Agradeço todo o contraste que consigo trazer para o caminho que construo. Não coloco limites nas temperaturas a que quero sujeitar os meus sentidos e nas lições que quero aprender. Mas felizmente, tenho o meu lugar. Acompanha-me como um deus.
 
 
 
 
José Luís Peixoto, in revista Visão (Agosto, 2013)

01 abril 2015

...o que vivemos ainda está aqui, só quem fomos desapareceu para sempre...



Creio que já te falei do atletismo. Nas corridas de Carnaval, a meta era traçada com uma trincha no chão do terreiro. Para além de nós, que vínhamos de casa a pé, havia rapazes e raparigas que chegavam em carrinhas cedidas por juntas ou câmaras de lugares como Montargil, Elvas ou Figueira e Barros. Os da minha idade eram infantis, iniciados ou juniores. Prendiam os números na camisola com alfinetes e faziam exercícios de aquecimento em frente à igreja da Misericórdia. Desembrulhavam guardanapos para encontrar papo-secos com qualquer conduto ou analisavam moedas na palma da mão, que trocavam no café do ti João de Oliveira por pacotes pequenos de bolachas de baunilha, batatas fritas ou amendoins. Ao entrarem no café, passavam pela mesa dos prémios, estava na rua, encostada à vitrina. Havia medalhas, taças, enchidos, botas caneleiras, latas de tinta e outros produtos oferecidos pelos comerciantes.

Mas gostava de falar-te de uma memória bastante específica. Talvez me engane, mas acredito que poucos se lembrarão. Em alguns desses domingos dos anos oitenta, por ser Carnaval, a organização apresentou novas modalidades. A corrida dos mascarados, por exemplo, a que chamávamos "ensaiados", juntava na linha de partida uma pequena multidão de gente desigual, usavam caraças de plástico e roupas velhas que não combinavam umas com as outras, deixavam cair todo o tipo de peças nos poucos metros de percurso. Havia também uma corrida de sacos, claro, era ganha por alguém que, atravessando um túnel de vozes, gritos de um lado e de outro, conseguia dar saltos longos e rijos. Entre estas modalidades de Carnaval, durante um par de anos talvez, houve uma corrida de bicicletas, era desta que te queria falar.

Ao contrário de todas as outras provas, em que se premiava os mais rápidos, nesta corrida de bicicletas ganhava o último a chegar à meta. Eram desclassificados aqueles que pousassem os pés no chão ou que andassem para trás. Durante cerca de cem metros, os inscritos tentavam andar o mais devagar que conseguissem. O vencedor era sempre um rapaz da rua de São João, o irmão mais velho do meu amigo Belarmino, que, nessa altura, conseguia equilibrar-se durante muito tempo, quase sem sair do lugar. Após a partida, rapazes em bicicletas de vários feitios, pasteleiras, bmx, levantavam o rabo do selim e davam meias pedaladas. Os mais novos eram os primeiros a pousarem os pés no chão. Às vezes, fingiam que não tinha acontecido nada e continuavam como se, debaixo de todos aqueles olhares, fosse possível que ninguém tivesse visto. Eu era um desses pequenos a que faltava paciência. Tinha uma bicicleta Órbita trazida de Águeda pelo meu pai, diretamente da fábrica, era a melhor bicicleta do mundo.

Mas gostava que reparasses nisto: uma corrida ganha pelo último a chegar à meta. A metáfora é evidente.

Os velhos acreditam que têm mais passado do que futuro. Por isso, prestam mais atenção a memórias do que a previsões. Interessa menos o futuro em que não se imaginam do que o passado ainda disponível para esmiuçar infinitamente, não faltam reflexões possíveis sobre o que sabem que existiu, o que testemunharam e sentiram com a força e a verdade dos sentidos. Sim, existe uma verdade nos sentidos, é inegável para quem a viveu. É ela que dá substância às metáforas, mesmo que seja preciso anos para reconhecê-la.

Os velhos não têm dúvidas de que o passado ainda não passou, como escreveu Faulkner. Aquilo que só hoje soubemos acerca do que já passou é presente e, como um gancho, puxa esse episódio para o tempo em que estamos. Se achávamos que o passado era uma coisa e, depois, percebemos que era outra, então o passado ainda está em evolução, ainda não passou.

Nas corridas de Carnaval, nessas bicicletas em que tentávamos andar tão lentamente como se não andássemos sequer, subtraíamos tempo ao tempo, resistíamos. Onde estarão agora esses segundos ou minutos? Procuro-os à minha volta. Velho, distingo restos dessas manhãs entre o que sou capaz de pensar. O que vivemos ainda está aqui, só quem fomos desapareceu para sempre.
 
 

06 agosto 2013

A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO

A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO
José Luís Peixoto

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

in A Casa, a Escuridão (2002)



18 março 2012

... continuamos. Estamos vivos. Ou acreditamos que estamos vivos, o que é, talvez, a mesma coisa...

Não Podemos Ter a Certeza de Nada



Somos todos iguais na fragilidade com que percebemos que temos um corpo e ilusões. As ambições que demorámos anos a acreditar que alcançávamos, a pouco e pouco, a pouco e pouco, não são nada quando vistas de uma perspectiva apenas ligeiramente diferente. Daqui, de onde estou, tudo me parece muito diferente da maneira como esse tudo é visto daí, de onde estás. Depois, há os olhos que estão ainda mais longe dos teus e dos meus. Para esses olhos, esse tudo é nada. Ou esse tudo é ainda mais tudo. Ou esse tudo é mil coisas vezes mil coisas que nos são impossíveis de compreender, apreender, porque só temos uma única vida. 
— Porquê, pai?

— Não sei. Mas creio que é assim. Só temos uma única vida. E foi-nos dado um corpo sem respostas. E, para nos defendermos dessa indefinição, transformámos as certezas que construímos na nossa própria biologia. Fomos e somos capazes de acreditar que a nossa existência dependia delas e que não seríamos capazes de continuar sem elas. Aquilo em que queremos acreditar corre no nosso sangue, é o nosso sangue. Mas, em consciência absoluta, não podemos ter a certeza de nada. Nem de nada de nada, nem de nada de nada de nada. Assim, repetido até nos sentirmos ridículos. E sentimo-nos ridículos muitas vezes e, em cada uma delas, a única razão desse ridículo é não conseguirmos expulsar da nossa biologia, do nosso sangue, dos nossos órgãos, essas certezas injustificadas, ou justificadas por palavras sempre incompletas. Mas é bom que seja assim. Porque podemos continuar e, enquanto continuamos, continuamos. Estamos vivos. Ou acreditamos que estamos vivos, o que é, talvez, a mesma coisa. 
— Porquê, pai? 
Porque o amor, filho. 

José Luís Peixoto, in 'Abraço' 

17 novembro 2011

...aquilo em que queremos acreditar corre no nosso sangue... porque o amor...

Não Podemos Ter a Certeza de Nada

Somos todos iguais na fragilidade com que percebemos que temos um corpo e ilusões. As ambições que demorámos anos a acreditar que alcançávamos, a pouco e pouco, a pouco e pouco, não são nada quando vistas de uma perspectiva apenas ligeiramente diferente. Daqui, de onde estou, tudo me parece muito diferente da maneira como esse tudo é visto daí, de onde estás. Depois, há os olhos que estão ainda mais longe dos teus e dos meus. Para esses olhos, esse tudo é nada. Ou esse tudo é ainda mais tudo. Ou esse tudo é mil coisas vezes mil coisas que nos são impossíveis de compreender, apreender, porque só temos uma única vida. 

— Porquê, pai? 

— Não sei. Mas creio que é assim. Só temos uma única vida. E foi-nos dado um corpo sem respostas. E, para nos defendermos dessa indefinição, transformámos as certezas que construímos na nossa própria biologia. Fomos e somos capazes de acreditar que a nossa existência dependia delas e que não seríamos capazes de continuar sem elas. Aquilo em que queremos acreditar corre no nosso sangue, é o nosso sangue. Mas, em consciência absoluta, não podemos ter a certeza de nada. Nem de nada de nada, nem de nada de nada de nada. Assim, repetido até nos sentirmos ridículos. E sentimo-nos ridículos muitas vezes e, em cada uma delas, a única razão desse ridículo é não conseguirmos expulsar da nossa biologia, do nosso sangue, dos nossos órgãos, essas certezas injustificadas, ou justificadas por palavras sempre incompletas. Mas é bom que seja assim. Porque podemos continuar e, enquanto continuamos, continuamos. Estamos vivos. Ou acreditamos que estamos vivos, o que é, talvez, a mesma coisa. 

— Porquê, pai? 

— Porque o amor, filho. 

José Luís Peixoto, in 'Abraço'

03 novembro 2011

...Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei...

Escuta, Amor


Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.

Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.

Escuta,
ouve.
Amor.
Amor.

José Luís Peixoto,in 'Abraço'


...encontrei casualmente este excerto maravilhoso do último livro do JL Peixoto e não hesitei em transcrever para o meu cantinho... tudo o que está ali, senti em tempos em relação a alguém. Tudo o que senti era imenso e parecia que, de facto "Mesmo quando não estava(s) lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos." Apesar de tudo ter mudado drasticamente, de facto há pessoas que não fazem parte do nosso presente, mas que mudaram radicalmente o que somos ao abanarem tudo aquilo em que a nossa vida assentava... 



("Futuro que era brilhante
Embaciou-se a pouco e pouco
Os passos ficaram lentos
Dando certezas de louco


O desencanto é tão seco

Como a luz que me rodeia

E as coisas que não fiz
Envolvem-me como a teia


X&P")

25 julho 2011

...eu vou pra longe, pra muito longe...

A música que nos elevava, que nos agarrava pelo centro e que levantava cada poro da nossa sensibilidade, era repugnante para quase todos(...)Era triste não dividirmos a intensidade dessa música com aqueles que eram importantes para nós, mas era bom, muito bom, o muro que essa música levantava entre nós e aqueles que agrediam a nossa adolescência. Todo o tamanho dessa música era um mundo sem eles.


José Luis Peixoto
in Jornal de Letras









(e hoje, com a neurose com que estou, apetecia-me mesmo partir...)

16 maio 2011



...passados 7 anos a saudade ainda deixa marca...

19 abril 2011

...os assuntos que julgámos mais profundos, transformam-se devagar em tempo...



Explicação da Eternidade



devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"







...tudo passa, mesmo quando as marcas ainda são muitas...

05 janeiro 2011

...sinto falta de mim em mim...

ESTOU SÓZINHO



Estou sózinho de olhos abertos para a escuridão. estou sózinho.

estou sózinho e nunca aprendi a estar sozinho. estou sózinho.

sinto falta de palavras. estou sózinho. estou sózinho.

sinto falta de uns olhos onde possa imaginar. estou sózinho.

sinto falta de mim em mim. estou sózinho. estou sózinho.

estou sózinho.



José Luís Peixoto

26 dezembro 2010

...faço o caminho solitário por entre as ruínas da vida...

"O teu olhar ficará no meu olhar quando morrer e, morto, contemplar as planícies que serão o teu olhar a anoitecer lento. O teu olhar ficará nas minhas mãos esquecidas e ninguém se lembrará de o procurar aí. Penso: nunca ninguém se lembra de procurar as coisas onde elas estão, porque nunca ninguém sabe o que pensa o fumo, ou as nuvens, ou um olhar. E tu. Continuarás perdendo o silêncio por mãos esquecidas, irá a enterrar o teu silêncio dentro do meu peito. Mulher tantas vezes. Mulher repetida na respiração de um lugar passado ou morto. Tempo e vida. Mulher, não sei o que fomos. Sei que, hoje, te possuo. Hoje conheço-te. É meu o teu olhar e o teu silêncio. E de nada me serve já, porque avanço para onde os homens deixam de ser homens. Faço o caminho solitário por entre as ruínas da vida. O caminho onde tudo é muito pouco, e cada uma dessas coisas pequenas é demasiada."






José Luís Peixoto
in "Nenhum olhar"

09 setembro 2010

...de mãos dadas, arrancámos todas as cordas que nos prendem, voltámos a acreditar e, juntos, soubemos que tínhamos de continuar a viver...

Juntos








Continuámos deitados.







A respiração diminuía de ritmo, aproximava-se da tranquilidade, como um rio depois das chuvas. A luz da noite abrandava também, perdia força quando atravessava a cortina da janela do quarto e se estendia leve sobre nós. Os sons da rua recomeçavam lentamente. O mundo recomeçava.







A imperfeição regressava aos objectos, cobria-os. Não fui capaz de dizer nenhuma palavra. As palavras eram a imperfeição. Os dias regressavam aos calendários. Regressavam as memórias e o peso insuportável do futuro. Com os dias, chegava outra vez a terrível incompreensão dos mistérios e chegavam todas as perguntas. No entanto, continuámos deitados.







Em silêncio, refaziam-se as cordas invioláveis que nos prendem e que nos obrigam a nunca acreditar naquilo que recebemos sem pedir. Em silêncio, os deuses renasciam e, na penumbra do quarto, os seus rostos invisíveis voltavam aos contornos que haviam perdido. Lá fora, a cidade erguia-se de novo nos olhares dos homens que caminham sozinhos na noite, nas luzes abandonadas em ruas vazias, no medo. Tão devagar, o frio reencontrava um lugar nos nossos corpos. A nossa pele voltava a não nos pertencer.







No entanto, continuámos deitados.







As nossas mãos atravessaram os lençóis e encontraram-se. Através delas, dissemos o que não poderia ser dito por palavras. De mãos dadas, ficámos juntos contra os dias, prontos para resistir às memórias e ao futuro, prontos para sermos destruídos pela fúria dos deuses, prontos para enfrentar a solidão e o medo.







De mãos dadas, sob a respiração, a luz da noite, os sons da rua, continuámos deitados, recuperámos a nossa própria pele ao frio, arrancámos todas as cordas que nos prendem, voltámos a acreditar e, juntos, soubemos que tínhamos de continuar a viver.