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26 fevereiro 2008

...por isso... não me deixes...





Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia
caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer
o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.
Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.


Francisco José Viegas


(sim... foi a minha ultima aquisição em termos de poesia... e gostei muito de alguns poemas... este fim-de-semana tive tempo de ler alguns poemas com mais atenção... este encontra-se na contracapa, dá nome ao livro e gostei da dualidade... )

25 fevereiro 2008

...desengana-te acerca da poesia...




O NÚMERO DOS VERSOS

É muito igual a literatura, o que fica guardado nos livros.
Com o tempo mudou o verso, a curva, o arco,
o declive, o mal-estar, a maneira de enumerar as paisagens,
as coisas desconformes. Imagina tu as palavras que se repetem
à saída dos cinemas de província, atravessando o nevoeiro
das noites de Inverno; imagina tu estas ruas que ficam desertas
com o crepúsculo, os campos de batalha, os recados e bilhetes
de amor que nunca foram entregues, os caminhos
que levam da madrugada até ao coração da morte.
Poesia fácil, prosa quase; a música vem da sua melancolia
e não da aritmética sentimental, daquelas palavras
(sangue, grito, coração, litoral). Mais de um halo,
do sopro dos pinhais, dos destroços de um amor de toda a vida.
Desengana-te acerca da poesia, da elevação,
da circunstância, fala apenas - como os antigos - da aventura
de um solitário entre ruínas, levantando as pedras,
reerguendo muros, contando o número de vítimas.
Depois deste haverá outro terramoto, recordarás o vento
nas eiras, o musgo entre os carvalhos, o rio dobrando-se
numa curva onde há mais choupos, esse areal, essa ventania.

[Francisco José Viegas
in "Se me Comovesse o Amor", Quasi, 2007]