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29 dezembro 2015

...nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...



Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.



Clarice Lispector





...a propósito das minhas conversas de "confessionário" e dos meus pensamentos dos últimos tempos, tentando perceber algumas atitudes... creio que consegui... a vida continua... e obrigado áqueles que me aceitam com a minha lista enorme de defeitos, sem exigir que deixe de ser eu...

28 dezembro 2015

...e sinto-me feliz por nada, por tudo...


 




Quantas Vezes a Insónia é um Dom

Mas quantas vezes a insónia é um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solidão. Quase nenhum ruído. Só o das ondas do mar batendo na praia. E tomo café com gosto, toda sozinha no mundo. Ninguém me interrompe o nada. É um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque súbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol às vezes pálido como uma lua, às vezes de fogo puro. Vou ao terraço e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar é meu, o sol é meu, a terra é minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo. Até que, como o sol subindo, a casa vai acordando e há o reencontro com meus filhos sonolentos.

Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'

08 abril 2015

...não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos...




Ulisses ouvira de testa franzida. E depois dissera:

— E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.

Lóri sempre se espantava de como Ulisses a conhecia. Mas apesar de ele poder compreender, receava sua censura ou de que ele desanimasse e a abandonasse, e nunca lhe dissera que o "mal" muitas vezes voltava: o ar dentro dela tinha então cheiro de poeira molhada. Vai recomeçar, meu Deus? Perguntava-se então. E reunia toda a sua força para parar a dor. Que dor era? A de existir? A de pertencer a alguma coisa desconhecida? A de ter nascido?

E depois, estancada a dor como se não tivesse sequer havido, exausta, após ter nadado quilômetros no universo vazio, ficara ofegante, jogava-se nas areias brilhantes de um planeta, imóvel, de bruços.
Clarice Lispector
in "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres"

02 abril 2015

...going on...



...e a minha tem seguido em frente... da melhor forma...

21 março 2015

...apesar de, se deve amar...

 
 
 
 
 
“E umas das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi criadora de minha própria vida.”
 
Clarice Lispector

18 fevereiro 2015

...a dança dos erros...

 


Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

17 janeiro 2015

...e a noite incomensurável dos sonhos começou...



A Bravata

 

Z. M. sentia que a vida lhe fugia por entre os dedos. Na sua humildade esquecia que ela mesma era fonte de vida e de criação. Então saía pouco, não aceitava convites. Não era mulher de perceber quando um homem estava interessado nela a menos que ele o dissesse - então se surpreen­dia e aceitava.

De tarde - era primavera, primeiro dia de primavera - foi visitar uma amiga que a pôs em brios. Como então ela, uma mulher feita, era tão humilde? como é que não percebia que vários homens a queriam? como não percebia que devia, dentro de sua própria dignidade, ter um caso de amor? Disse ainda que a vira entrar numa sala onde todos eram conhecidos. E por acaso nenhum dos presentes chegava a seus pés. E no entanto entrou tímida como ausente, como uma corça de cabeça baixa. "Você precisa andar de cabeça levantada, você tem que sofrer porque você é diferente, cosmicamente diferente, então aceite que você não pode ter a vida burguesa, e entre numa sala com a cabeça levantada." "Mas entrar sozinha numa sala cheia de gente?" "Exatamente. Você não precisa de companhia para ir, você mesma é bastante."

Lembrou-se que no fim da tarde havia uma espécie de coquetel para os professores primários, em férias. Lembrou-se da atitude nova que de­sejava, não combinou a ida com nenhum professor ou professora ­arriscar-se-ia toda só. Vestiu um vestido mais ou menos novo, mas a coragem não vinha. Então - só o entendeu depois - pintou demais os olhos e demais a boca até que seu rosto parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo. Esse alguém era exatamente o que ela não era. Mas na hora de sair de casa, fraquejou: não estaria exigindo demais de si mesma? Toda vestida, com uma másca­ra de pintura no rosto - ah persona, como não te usar e enfim ser! -, sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão conhecida e seu co­ração pedia para ela não ir. Parecia que previa que ia se machucar muito e ela não era masoquista. Enfim apagou o cigarro-de-coragem, levantou-­se e foi.

Pareceu-lhe que as torturas de uma pessoa tímida jamais foram com­pletamente descritas. No táxi que rolava ela morria um pouco.

E ei-la de repente diante de um salão enorme com talvez muitas pes­soas, mas pareciam poucas dentro do descomunal espaço onde se pro­cessava como um ritual moderno o coquetel.

Quanto tempo suportou de cabeça falsamente erguida? A máscara a incomodava, ela sabia ainda por cima que era mais bonita sem pintura. Mas sem pintura seria a nudez da alma. E ela não podia se arriscar nem se dar esse luxo.

Falava sorrindo com um, falava sorrindo com outro. Mas como em todos os coquetéis, nesse era impossível a conversa e quando ela viu estava de novo sozinha.

Viu um homem que tinha sido seu amante. E ela pensou: por mais amor que este homem tenha recebido, fui eu que lhe dei toda a minha alma e todo o meu corpo. Os dois se olharam, perscrutaram-se, ele com certeza espantado com a máscara de pintura. Não soube o que fazer senão perguntar-lhe se ele era seu amigo, se podia ser. Ele disse que sim, para sempre.

Até que sentiu que não suportava mais manter a cabeça de pé. Mas como atravessar a enorme extensão até a porta? Sozinha, como uma fugida? Então em meias palavras confessou seu drama a uma das profes­soras e ela levou-a pela enorme extensão até a porta.

E no escuro da noite primaveril ela era uma mulher infeliz. Sim, era diferente. Mas sim, era tímida. Sim, era supersensível. Sim, vira um amor passado. O escuro e o perfume da primavera. O coração do mundo batia-lhe no peito. Sempre soubera sentir o cheiro da natureza. Achou finalmente um táxi onde se sentou quase em lágrimas de alívio, lem­brando-se que em Paris lhe acontecera o mesmo porém pior ainda. Foi para casa como uma foragida do mundo. Era inútil esconder: a verdade é que não sabia viver. Em casa estava agasalhante, ela se olhou ao espe­lho quando estava lavando as mãos e viu a persona afivelada no seu rosto: a persona tinha um sorriso parado de palhaço. Então lavou o rosto e com alívio estava de novo de alma nua. Tomou então uma pílula para dormir. Antes que chegasse o sono, ficou alerta e se prometeu que nunca mais se arriscaria sem proteção. A pílula de dormir começava a apaziguá-la. E a noite incomensurável dos sonhos começou.

Clarice Lispector

12 janeiro 2015

...curiosity...

Às vezes me dá enjôo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta. E é só.

Clarice Lispector










...às vezes, na fase de decisão "mudar de prateleira vs caixote do lixo", cuscamos um bocado, para tentarmos perceber qual a decisão certa... a maioria das vezes é mesmo o caixote do lixo. E cuscar é perder tempo. Se a pessoa mostrou que não lhe fazemos falta, para quê implorar o que só faz sentido quando é oferecido e partilhado? No entanto, a fase da cusquice é comum a toda a gente, mesmo quando se nega - afinal, é difícil cortar laços... mas, por experiência própria, sei que o momento em que deixamos de sentir essa curiosidade mórbida de querer saber como está, o que faz, o que fez, qual o grupo de amigos, que desgraças aconteceram (e ficar "feliz" com essas desgraças, com um sentimento de "vingança realizada") conseguimos cortar os laços... e é uma excelente sensação, essa... é curioso que raras vezes fechei uma porta de vez... e das vezes que o fiz, senti um alívio tremendo e poucas vezes senti vontade de saber o que se passa... desejo que sejam felizes, mas de preferência longe de mim... e desculpem lá qualquer coisinha por ser humana e sincera...








25 outubro 2011

...abraços...

Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.




...de facto...

01 novembro 2010

...seus olhos faiscavam como o sol que morria...


"Saiu da casa da cartomante aos tropeços e parou no beco escurecido pelo crepúsculo - crepúsculo que é hora de ninguém. Mas ela de olhos ofuscados como se o último final da tarde fosse mancha de sangue e ouro quase negro. Tanta riqueza de atmosfera a recebeu e o primeiro esgar da noite que, sim, sim, era funda e faustosa. Macabéa ficou um pouco aturdida sem saber se atravessaria a rua pois sua vida já estava mudada. E mudada por palavras - desde Moisés se sabe que a palavra é divina. Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro. Sentia em si uma esperança tão violenta como jamais sentira tamanho desespero. Se ela não era mais ela mesma, isso significava uma perda que valia por um ganho. Assim como havia sentença de morte, a cartomante lhe decretara sentença de vida. Tudo de repente era muito e muito e tão amplo que ela sentiu vontade de chorar. Mas não chorou: seus olhos faiscavam como o sol que morria."




(Clarice Lispector - A Hora da Estrela)



 
 
(...é disto que sinto falta... de SONHAR...)

04 setembro 2010

...eu gosto da praia à hora das gaivotas...

"Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda haveria de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gesta¬ção da infância e de sua dolorosa imaturidade reben¬taria seu próprio ser, enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, so¬bretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mes¬ma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fun¬dido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreen¬são de mim mesma em certos momentos brancos por¬que basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo."

Clarice Lispector
in "Perto do Coração Selvagem"



...as férias estão a chegar ao fim. Depois de almoço, apeteceu-me ir até à Figueira e nada como ter uma boa surpresa ao chegar à praia: menos de 20 pessoas no areal, uma temperatura agradável e pouco vento... e poder ficar até à hora das gaivotas, que andavam a tomar conta do seu território, foi uma boa forma de acabar as férias... a juntar a isso, conseguir acabar um dos livros empilhados na mesa (Perto do Coração Selvagem), marcados a meio... acho que mais uns dias assim resolviam muitos dos meus problemas... e de facto, preciso de tempo para mim: essa é a resolução deste novo ano de trabalho! Esta correria constante desgasta e sei que alguns dos problemas de saúde são agravados pelo stresse...

...mas dei por mim a pensar na minha vida e senti-me bem. Bem comigo e com o mundo. Tenho problemas como toda a gente, mas comparados com a tormenta que enfrentei há 6 anos atrás, estes problemas do dia-a-dia parecem-me insignificantes. Acho que uma hecatombe consegue mudar a nossa perspectiva de vida e tudo afinal é tão relativo!!! Creio que resolvi todos os problemas pessoais que tinha e exorcisei os meus fantasmas. Isso tranquilizou-me. Algumas pessoas passaram pela minha vida e quase não deixaram marca. E como percebi que estava melhor afastada, afastei-me de vez. Outras, deixaram grandes marcas. A maioria continua a fazer parte da minha vida e sabe que pode contar comigo até debaixo de água. E eu tenho contado com eles. Sempre que estou numa fase de maré vaza, aparece um sms ou uma mensagem providencial. Outros, fizeram parte da minha vida, foram importantes num dado momento e de certa forma ajudaram-me a chegar até onde estou. Mas sairam numa estação qualquer e já não fazem parte desta minha longa viagem. E este comboio não passa duas vezes na mesma estação. As circunstâncias mudam e fazem-nos mudar também. É apenas a lei da vida. Não se pode querer retroceder no tempo e imaginar uma dada pessoa como era há 6 ou 7 anos atrás. Nem eu sou igual ao que fui. Nem voltarei a ser exactamente igual ao que sou agora.
Em termos de trabalho, nem tudo é perfeito, mas neste último ano consegui colher alguns frutos de muitos anos de trabalho: publicar trabalho ainda de doutoramento, que estava na gaveta, conseguir ir a congressos internacionais, voltar outra vez a pensar em investigação... ver finalmente algum do muito trabalho reconhecido e perceber que consigo atingir os meus objectivos se me esforçar e acima de tudo se acreditar em mim, pois ao contrário do que várias vezes me fizeram sentir, não tenho menos valor que outros (possivelmente apenas não serei tão ambiciosa e costumo mostrar o meu jogo sem fazer "bluff").
Acho que neste momento, para conseguir concretizar os meus sonhos, falta apenas um pormaior... não é fácil, mas vou conseguir. As dificuldades nunca me meteram medo e eu sei que se vai concretizar um destes dias... talvez num momento mais certo...

21 agosto 2010

... corpo é a sombra de minha alma...

De repente as coisas não precisam mais fazer sentido. Satisfaço-me em ser.

Tu és?

Tenho certeza que sim.

O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de complacência.

De certo tudo deve estar sendo o que é.

Hoje está um dia de nada. Hoje é zero hora.

Existe por acaso um número que não é nada? que é menos que zero?

que começa no que nunca começou porque sempre era? e era antes de sempre?

Ligo-me a esta ausência vital e rejuvenesço-me todo, ao mesmo tempo contido e total.

Redondo sem início e sem fim, eu sou o ponto antes do zero e do ponto final.

Do zero ao infinito vou caminhando sem parar. Mas ao mesmo tempo tudo é tão fugaz.

Eu sempre fui e imediatamente não era mais.

O dia corre lá fora à toa e há abismos de silêncio em mim.

A sombra de minha alma é o corpo. O corpo é a sombra de minha alma.






 Clarice Lispector
in «Um sopro de vida» 

31 julho 2010

...sensibilidade...


Sabe o que eu quero de verdade?! Jamais perder a sensibilidade. Mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma. Porque sem ela não poderia sentir a mim mesma.







Clarice Lispector

20 abril 2010

...Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós...


Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.


Clarice Lispector





...porque não é todos os dias que se entra no quarto e se têm rosas vermelhas na cama... nem quero saber porquê...

04 abril 2010

...a realidade é inacreditável...





"- A noite de hoje está me parecendo um sonho.
- Mas não é. É que a realidade é inacreditável."


Clarice Lispector

in "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres"




(...talvez porque vou dormir com as tarefas que pretendia fazer todas feitinhas... dormir o verdadeiro sono dos justos...)

02 abril 2010

...anúncio no jornal...


Anúncio no jornal

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.

PS- Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

23 março 2010

...defeitos...


"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."




...e isto a propósito de mudarmos para agradar a alguém - quem não nos consegue aceitar como somos, com o menu de defeitos e virtudes que cada um de nós possui, não merece que percamos tempo a tentar mudar... devemos mudar sim, mas para nos sentirmos melhor connosco...

26 outubro 2009

...existe um sentir que é entre o sentir (...)e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio...




DÁ-ME A TUA MÃO


Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.


Clarice Lispector
in "A Descoberta do Mundo"

12 outubro 2009

...não empurres com a palavra incauta o nosso barco para sempre ao mar...


O SEGREDO


Há uma palavra que pertence a um reino que me deixa muda de horror. Não espantes o nosso mundo, não empurres com a palavra incauta o nosso barco para sempre ao mar. Temo que depois da palavra tocada fiquemos puros demais. Que faríamos de nossa vida pura? Deixa o céu à esperança apenas, com os dedos trêmulos cerro os teus lábios, não a digas. Há tanto tempo eu de medo a escondo que esqueci que a desconheço, e dela fiz o meu segredo mortal.


Clarice Lispector
in "Para não esquecer"

20 setembro 2009

...houve o que se chama de comunhão perfeita...




"Olhei para você fixamente por uns instantes. Tais momentos são meus segredos. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade."

Clarice Lispector




(...pelo menos assim pensei... afinal foi só um engano meu... "siga a Marinha"...)