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20 agosto 2009

...sentindo o coração pesado como um pássaro morto...




Neste momento
um pássaro qualquer
canta, explica as flores
perto da margem do rio.

Nunca ouvi esse pássaro cantar
nem sei onde o rio corre...


Mas todas as noites no meu quarto
tento aprender de cor
essa melodia que não ouço
- sentindo o coração pesado
como um pássaro morto.


José Gomes Ferreira

26 julho 2008

...o teu corpo é mais do que tu....








TU


Tu.

Última ilha antes do Silêncio.
Ponte inquieta, engenharia de névoa
com pilares de suor encantado.

Simplicidade de dois braços a limitarem o mundo
com ímpeto de calor de frutos,
fonte de nuvens para os olhos cegos.

Árvore com duas mãos quentes de lágrimas
a taparem o céu da inutilidade do mistério.

Tu.

Olha-te religiosamente ao espelho,
ó meu amor do desânimo da tarde.

O teu corpo é mais do que tu.
É a vida a desejar-me.


José Gomes Ferreira

02 maio 2008

Remorso




todos os punhais que fulgem nos gritos,
todas as fomes que doem no pão
todo o suor que luz nas estrelas
todas as lanças nos dedos da reza,
todos os soluços para ressuscitar os filhos mortos,
todos os desejos nos alçapões do frio,
todas as jóias nos pescoços dos espelhos rachados
todos os assassinos que andaram aos colo das mães,
todos os atestados de pobreza com lágrimas de carimbo,
todos os murmúrios do sol no quarto ao lado à hora da morte
tudo, tudo, tudo
se condensou de repente
numa nuvem negra de milhões de lágrimas
a humilharem-me de ternura
eu que quero ser alheio, duro, indiferente
enquanto os outros dançam, cantam, bebem,
vivem, amam, riem, suam
neste pobre planeta
magoado das pedras e dos homens
onde cresceu por acaso o meu coração no musgo
aberto para a consciência absurda
deste remorso sem sentido.

José Gomes Ferreira

06 janeiro 2008

O amor que sinto...


O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo,
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto.


José Gomes Ferreira

Viver sempre também cansa!




"Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."

-José Gomes Ferreira-

26 agosto 2007

Porque é que este sonho absurdo...


Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?


Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.


José Gomes Ferreira

25 agosto 2007

Não choro...


Não choro.


A dor não me pertence.


Vive fora de mim na natureza
livre como electricidade.


Carrega os céus de sombra,
entra nas plantas,
desfaz as flores...


Corre nas veias do ar,
atrai nos abismos,
curva os pinheiros...


E em certos momentos de penumbra
iguala-me à paisagem.
Surge nos meus olhos
presa a um pássaro a morrer
no céu indiferente.


Mas não choro. Não vale a pena!
A dor não é humana.


José Gomes Ferreira