10 agosto 2006

Será isto a que chamam de... nostalgia???????



Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.


Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.


Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus.



Eugénio de Andrade

3 comentários:

100nada disse...

Olá! Já cá cheguei. Bem vinda à blogosfera. :DD
Beijocas.

Dina disse...

Gosto muito desse poema. Tive asorte de conhecer pessoalmente o autor numa homenagem que lhe fizeram no Museu de Arte Contemporânea de Badajoz no ano 2000.

Pêndulo disse...

eu estive ontem na biblioteca Eugénio de Andrade no Fundão... e a propósito de umas conversas cruzadas nos ultimos dias lembrei-me deste poema...

beijos