12 setembro 2006

O amor silencioso

Temos o hábito de exaltar os amores passados, presentes e futuros, aqueles amores que nos marcaram, aqueles que vivemos com intensidade, aqueles que, enfim, sonhamos ainda poder viver. Eu prefiro de todos os amores, recordar aqueles que nunca foram mais que a troca quase envergonhada de olhares, quase receosos que essa troca se transformasse em algo palpável.

Quando e onde foi? Com quem e porque aconteceu? Não me parece que o tempo possa ser sequer medido, nem me parece que haja qualquer interesse em situar o tempo dum amor, dar-lhe um rosto e um nome, porque isso retirar-lhe-ia aquilo que o amor tem de mais sublime: o facto de permanecer mesmo quando nos parece ter desaparecido, de, tal qual um livro, poder sempre ser relido, ser aberto num ponto que escolhemos, às vezes ser aberto ao acaso… mas ter sempre novas leituras, de cada vez que o relemos e recordamos.

Desses amores impalpáveis, desses amores que nunca consumamos, resta o sonho com que os vivemos. Dos outros restam memórias fortes, às vezes doces e às vezes amargas, mas bem localizadas. Sabemos sempre dizer quando estivemos loucamente apaixonados, e sabemos também localizar o momento em que essas paixões esfriaram, e o que delas restou. São-nos preciosas – mas não indispensáveis.

Mas aqueles amores impossíveis – aqueles amores que nada mais são que o desejo de estar perto de alguém, alguém esse que sabe perfeitamente o porquê de ali estarmos – são os amores que iremos sempre recordar, dando-lhes um desenrolar nos nossos sonhos que na realidade não tiveram, nem nunca poderiam ter.

São os amores que quase tememos, ainda que tal pareça o oposto do que seria suposto um amor ser, porque receamos a resposta que poderíamos ouvir, sendo que qualquer das duas hipóteses é assustadora. Saber que quem amamos vai dizer não e com isso destruir sonhos feitos de castelos de nuvens e que, como elas, tão instáveis e frágeis.

Ou pior ainda. Saber que quem amamos pode dizer sim, e destruir completamente a nossa vida até aí tão cuidadosamente construída e tão previsivelmente ordenada.

Tive um sonho, em tempos. E se de dia vivo a realidade como sempre vivi de noite o sonho permanece, ansiando e temendo a resposta que ouviria dos lábios que nunca se abriram em mais do que um sorriso, para mim, por julgar sabê-la no que os seus olhos me diziam.


1 comentário:

Anónimo disse...

Este texto, é um hino ao amor..
pois por vêzes passa pela nossa vida,apressada ou demoradamente,
mas vai passando...

Beijinho