13 novembro 2006

O homem que ouvia os girassóis

Noite morna. Sábado. Ricardo vagueava alheio ao mundo, amargurado, pensando na vida. Deteve-se um instante (fatal instante) diante de um boteco esquivo, no Leblon, e reparou numa mulher, negra, belíssima, dançando sozinha ao ritmo de um velho samba da Portela. A mulher chamou-o com um riso esplêndido e ele entrou. Conversaram? Ricardo não se recorda. Ela estendeu-lhe um copo. O meu amigo bebeu. O líquido era gelado e guardava no fundo um gosto turvo, amargo, que hoje ele se esforça, inutilmente, por decifrar. Acordou de madrugada, descalço e sem carteira, num ónibus atulhado de gente.

- Onde estou?

Podia ter perguntado antes, "quem sou eu?". Sentia-se propenso à filosofia. Não esperava que lhe respondessem. Uma matrona luzidia, sentada ao seu lado, informou-o com um sorriso manso:


- Estamos na Cidade de Deus, meu bem.


Ricardo assustou-se: "Jesus!", pensou: "Querem lá ver? Morri!"


Espreitou pela janela e viu o Inferno deslizar à luz cinzenta do amanhecer. Barracos de tijolo, placas de betão, depósitos de água, antenas parabólicas - enfim, uma favela carioca. Sentiu que o seu cérebro se punha lentamente em marcha, como uma locomotiva fatigada, enquanto lhe vinham à memória as terríveis parangonas dos jornais. Cidade de Deus, claro!, a grande favela de Jacarepaguá. O ónibus deixou-o, já o Sol galgara o horizonte, na Lagoa Rodrigues de Freitas.

Ricardo aproximou-se vacilante do brilho das águas, sentou-se num pequeno molhe de madeira, bebeu a brisa húmida da manhã. Tinha chovido durante a noite. Ao fundo, suspensos sobre as águas, erguiam-se dois grandes morros. Prédios cresciam no sopé dos mesmos, torpes e escuros
como uma doença de pele. Duas garças pousaram ao seu lado, enormes, as patas amarelas, lustrosas como se fossem feitas de plástico. Um barco flutuava, ancorado, um pouco à frente. Uma dezena de grandes aves pretas, biguás, permaneciam em pé e imóveis, no seu interior, muito bem alinhadas, o bico voltado na direcção do vento. Ricardo fechou os olhos. Quando os reabriu o mundo já não era o mesmo. Um arco-íris desenrolava-se à sua frente como uma cobra. Viu-lhe as escamas rebrilhando no dorso, e cada cor cantava, e no conjunto aquilo pareceu-lhe mais largo, sonoro e arrebatador do que qualquer uma das nove sinfonias de Beethoven. Maravilhou-se: ouvia as cores! Sim, podia ouvir as cores.


A sensação não desapareceu nos dias seguintes, antes pelo contrário, intensificou-se. O espectáculo do Sol, ao crepúsculo, incendiando as nuvens, ganhou, para ele, uma dimensão inédita. Tapava os olhos para não escutar, à beira das estradas, a estridência selvagem das buganvílias em flor, ou, ainda mais doloroso, o uivo amarelo dos girassóis. Passou a amar, porém, a melodia alegre das telas de Miró.


Foi de propósito ao Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, MOMA, ouvir as cores dissonantes de Jackson Pollock. As piscinas de David Hockney, essas, cantavam só para ele melodias refrescantes. "Bossa nova", disse-me um dia, "ou alguma coisa do género, sei lá, samba de salão."


Depois, pouco a pouco, Ricardo voltou a ser um de nós. Hoje percorre os bares de Ipanema e Leblon contando a quem estiver disposto a ouvi-lo a sua incrível história. Acho que ele próprio se escuta, a cada dia, com crescente incredulidade. Procura ansiosamente a bela mulher negra que numa noite de sábado o chamou para dentro de um bar com um sorriso luminoso, o envenenou, e lhe roubou a carteira e os sapatos. Não conheço ninguém que busque quem o assaltou com tal amor, tanto carinho, tamanho desvelo. "Meu irmão", confessou-me recentemente com os olhos rasos de água, "faço qualquer coisa para voltar a ouvir o pôr-do-sol no Arpoador."


-José Eduardo Agualusa-

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