O Privilégio da Morte
Olhei-a bem de frente muitas vezes – mais do que eu poderia ter imaginado algum dia – e nunca ela parou para me prestar atenção. Falo da morte, claro. Algo que para vós é um conceito, um facto que terão de enfrentar num futuro que esperam longínquo, mas que evitam quando a escarnecem, quando a esquecem, enfim, quando evitam pronunciar o seu nome, preferindo as palavras que a possam romancear, torná-la uma quimera, como tantas outras de que é feito o nosso dia a dia.Mas a morte é, para mim, a realidade e uma necessidade. Talvez não possam compreender… e no entanto, nada seria mais verdadeiro do que esta afirmação. Porque eu vivi, vivo e suponho que hei-de viver com a sua companhia.
Não por escolha minha, acreditem. Não que tenha nisso um prazer desmedido, que seja mórbido. Vivo com o mesmo prazer que vós tendes, pelo tempo que me for concedido.
Tentem compreender: uns têm o dom de ouvir música em tudo o que os cerca, e fazem disso o objectivo da sua vida. Morrem, e tornam – se imortais. Outros transformam em palavras o mais vulgar momento ou situação e essas palavras vivem também para sempre, ao perderem o momento que as criou. Outros, ainda, preferem deixar numa tela, numa rocha, num bloco de mármore o que souberam captar – e com isso conquistaram também o próprio tempo. Terão compreendido que com isso entraram no plano onde ela reina? Se o fizeram, cuidaram de que ninguém o soubesse, para que a magia nunca se quebrasse.
E eu caminho lado a lado com ela – algo que me foi concedido e que eu aceito, como aceitaria a dádiva de escrever, de compor música ou de pintar. Sou o seu cronista, ainda que apenas possa relatar e não penetrar a sua natureza. Sei que ela existe, e sei que ela sabe que eu caminho a seu lado. Mas da mesma forma que eu tenho consciência da minha sombra, também não perco um momento a tentar comunicar com ela. E dessa forma quase absurda, a morte tem consciência que eu existo, e tem consciência que nada mais sou que uma sombra: revelo todos os pormenores da sua existência, revelo tudo o que ela faz com uma exactidão que muitos diriam desconcertante, e aí termina o nosso contacto. É essa a minha maldição e a minha recompensa.
Viverei enquanto houver morte – ou enquanto os homens tomarem consciência do que é a morte. Depois, e cumprida a minha missão, desaparecerei, como desaparece a sombra quando o sol se esconde. Penso que nem sequer de tal tomarei consciência – mas sei que reaparecerei, quando a morte reaparecer.
E assim vivo, dia após dia, não mais que a sombra de uma sombra, até ao dia em que dela obtiver o privilégio da morte.



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