ESTA CANÇÃO ESTAVA CAÍDA NO CHÃO

Esta canção estava caída no chão,
como uma folha morta, sem palavras;
acharam-na uns homens que logo ma deram
porque tiveram medo de aprender a cantá-la.
Então eu ignorava que também as canções,
como as folhas mortas caíam das árvores;
não sabia que a lua se enredava nos ramos
náufragos que sonham sob o cristal da água,
nem que comiam os peixes pedacinhos de estrelas
no silêncio das noites claras.
Então eu ignorava muitas coisas iguais
que eram todas possíveis na terra do vento,
onde a lenda não é uma maléfica erva
crescida nas ribeiras, mas uma árvore de vozes
com as quais dialogam as sombras e as pedras.
Então eu ignorava muitas coisas iguais
quando ainda não era minha
esta canção que estava caída no chão,
como uma folha morta, sem palavras;
porém agora já sei das formas distintas
que precedem o olho da carne que mira,
e até posso dizer porque caem de joelhos,
nas olheiras longas que circundam a noite,
as diluídas sombras dos pássaros.
(FRANKLIN MIESES BURGOS, trad. Paulo Rato)



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