...também os caules crescem sem nunca se encontrarem...

Travessia
Talvez não saibas por onde se pode passar
para o outro lado; não pela ponte, que está fechada para quem
apenas leva a imaginação: mas por um caminho
que junta quem olha, de ambos os lados, as nuvens
de chuva que o mar empurra para terra. É um caminho
com as cores do arco-íris. As suas pedras fazem doer
a alma, mais do que os pés; e se um de nós pega
numa dessas pedras para a meter no bolso, ela desfaz-se,
como se fosse areia.
Encontramo-nos a meio da travessia, num lugar em que
olhamos para os dois lados de onde cada um de nós
partiu. Os dois lados são iguais, com as mesmas árvores
e as mesmas casas. Mas falas-me de uma sensação de
distância que, apesar de estarmos juntos, trazemos
connosco. Também os caules crescem sem nunca se
encontrarem; e se o vento os empurra, cada um segue
uma direcção inversa. Por isso, não nos vemos, neste fim
de tarde, nem ouvimos o que temos para nos dizer.
Para quê, então, atravessar as pontes abstractas que nos
levam uns em direcção aos outros? Que distâncias se podem
evitar quando julgamos que os seres coincidem
no instante de um olhar?
-Nuno Júdice-



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