19 junho 2008

...navego em centro aberto, o olhar e o sonho...




NUVENS



Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas

locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo

eram frontes do universo deslumbrantes.

Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro

e luminoso, tão suave na visão que se dilata.



Que clamor, que clamores mas em silêncio

na brancura unânime! Um sopro do desejo

que repousa no seio do movimento, que modela

as formas amorosas, os cavalos, os barcos

com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.



Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.

Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva

ao espaço inteiro, à luz ilimitada.

No gozo de ver num sono transparente

navego em centro aberto, o olhar e o sonho.



António Ramos Rosa


(...já que descemos das nuvens e aterramos na miserável vidinha real...)

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