...e o poema é esse nada, esse momento...

Um poema escreve-se entre a noite e a manhã
quando as águas irrompem na memória
e sob a página deixam a espuma branca
de um amor já distante um rosto um resto
um rasto um cheiro um som coisa nenhuma.
Caminha-se de encontro ao desencontro
e mesmo quando há ganho vem a perda
o segredo da História é o momento em que
tudo podia ser diferente. E o poema escreve-se
nesse belo senão. Para que dele fique
um tinir de cristal um fogo fátuo um eco
mesmo que não seja mais do que um virar
de página um imperceptível movimento
um acaso um se um mas que muda a vida.
E o poema é esse nada esse momento.
(...)
Manuel Alegre



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