...não me mentes nem me escondes nada porque te foste embora, leve como os fantasmas e sem ruído algum...

Os Passos
De quem são estes passos? De uma pessoa que morou aqui antes de nós, de ti, de mim que não paro quieto para diante e para trás no corredor, à procura de não sei quê, a tentar desembaraçar-me de não sei quê, a pensar não sei em quê, com medo? Não acredito que meus porque não ando assim neste ritmo, com um dos sapatos mais pesado que o outro, as tábuas não costumam estalar quando caminho e agora estalam, as paredes não costumam vibrar e agora vibram, o pajem de porcelana estremece na cómoda, sente-se a respiração das cortinas, uma vidraça a tremer, uma pausa e logo a seguir os passos de novo. Não me mintas, não me escondas nada, de quem são estes passos que se detêm à entrada da sala, me espiam, continuam? Ouvem-se solas de sapatos novos que parecem rãs de charco, uma respiração acho eu, de tempos a tempos um suspiro que se aproxima e afasta, esses sons da garganta que antecedem a fala e não falam, desistem, dão ideia de se ir embora e não se vão embora, não me deixam, de quem são estes passos? Se eu pudesse levantar-me da cama, vestir o roupão, ir ver. Olha, apareceu-me agora isto de repente, será a morte? Não me cheira que seja a morte porque a morte é uma mulher e os passos de homem ou pelo menos de uma coisa parecida com um homem embora mais pesada que um homem, um fantasma não porque os fantasmas leves e sem sapatos e depois, que eu saiba, os fantasmas não coxeiam nem fazem ruído algum, se calhar é o sangue nos meus ouvidos, qualquer coisa em mim, uma peça sei lá, que se desregulou e cambaleia, se o médico me abrisse a barriga o que encontrava dentro? Uma paisagem de molas, volantes e rodas dentadas como os relógios? Trastes desemparelhados de cave? O meu passado a trouxe-mouxe, a professora de Inglês com óculos escuros, verões na praia, as ondas à noite que não terminam nunca? Ou então nada, eu oco, se calhar eu oco, nem tu comigo, eu sozinho? Não pode ser eu sozinho porque estás aqui, vejo-te, sinto-te a mexer na fronha, a endireitar o cobertor, a sentar-te na borda da cama, a olhar-me. Que cara tão esquisita a tua, que preocupação é essa, porque me empurras contra a almofada, porque me ordenas que me acalme, quase sem voz, em segredo. O que se passa? O que aconteceu? O que tens? Que sinais são esses para uma criatura que não vejo como que a chamá-la? São os passos que chamas? É aos passos que sorris, é para eles que me apontas? Como a luz da mesa-de-cabeceira é fraca não os distingo, parece-me que um cicio e não o oiço, que sinais a explicarem-te o que não entendo, um braço junto ao teu, uma espécie de riso e quem troça de mim, quem espera atrás de ti que a peça desregulada cesse e eu com ela, eu com ela, que eu cesse, fique quieto, acalme, cesse como o relógio do meu pai cessou sem aviso, um belo dia, de manhã, ele imóvel, as asas dos ponteiros abertas e imóvel, dez para as duas e daí para diante, até hoje
(há doze anos)
imóvel, bate-se com o dedo na caixa, bate-se a caixa na prateleira e imóvel, grita-se-lhe
– Anda
e imóvel, pede-se
– Por favor anda
e imóvel, acabou-se e não me atrevo a tirá-lo dali, a guardá-lo na copa, a colocá-lo no passeio até que a camioneta do lixo ou um mendigo o levem, fica conforme os retratos vão ficando, as escovas de cabo de prata da minha mãe vão ficando, eu vou ficando, dentro de doze anos eu nesta cama com a peça desregulada a cambulhar talvez e esta lâmpada, estes remédios, este copo de água, vou ficando talvez mais magro, mais pálido e ficando, apercebendo-me dos passos e ficando, eles para diante e para trás no corredor e eu ficando, de certeza que não me pedirás
– Anda
– Por favor anda
de certeza que não o meu nome
– Jaime
tu calada como nós calados diante do relógio, as mangas do meu pijama dez para as duas sempre e a propósito de pijama acho as riscas amarelas deste ridículas, feias, e as riscas ridículas e feias ficando, um pé que sobra do colchão ficando, a aliança a escorregar-me do dedo, o dedo a escorregar-me da mão, penso
– E se eu perder este dedo?
verifico o dedo e está comigo afinal, cinco dedos, se eu fizer um esforço consigo movê-los, se eu fizer um esforço muito grande esticam e encolhem
(talvez estiquem e encolham)
e depois tornam-se coisas e ficando, ir--te-ás embora e eu ficando, os estores subidos dia e noite ficando, as árvores na rua ficando, nenhum vento a agitá-las e ficando, penso
– O que será de mim?
e vou ficando, apercebo-me dos vizinhos nas escadas, do cão do terceiro esquerdo a ladrar, do sujeito do correio a gritar lá em baixo
– Correio
cortarão a luz, o gás, a água e eu ficando, esta almofada tão incómoda já, as minhas costas que doem, deixam de doer e eu ficando, eu e o relógio frente a frente
(dez para as duas)
ficando, acabaram-se os passos
(um sapato mais pesado que o outro)
nenhuma tábua estala, nenhuma parede vibra, o pajem deixou de estremecer, não me mentes nem me escondes nada porque te foste embora, leve como os fantasmas e sem ruído algum, resta o meu passado a trouxe-mouxe, a professora de Inglês com óculos escuros, os verões na praia, as ondas à noite que não terminam nunca, resto eu e as ondas que não terminam nunca, lá está uma a formar-se ao longe, a crescer, a avançar, azul e verde com um debrum branco de espuma que vai alcançar-me, tocar-me, subir pelos meus pés, os meus joelhos, a minha barriga, o meu peito, o meu pescoço, a minha cara e permanecer para sempre, o que se chama para sempre, e permanecer para sempre a cobrir-me, imóvel sobre mim, desenhando vagamente o meu corpo como um lençol final.
-António Lobo Antunes-



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