...esse reino de oxidados somos nós!...
Era uma vez um reino no qual os cavaleiros se gabavam de ter armaduras oxidadas e as suas donzelas se resignavam a ser conquistadas por eles. Um reino no qual os pais ensinavam aos filhos o que deviam fazer para que as couraças brilhantes com que vinham ao mundo fossem adquirindo aquela pátina de óxido que dá nobreza. Um lugar onde as mães ensinavam as filhas a ver o lado bom da ferrugem e a não se deixarem seduzir pelo brilho metálico dos fidalgos presunçosos. E assim, contra todas as probabilidades, a moda daquele reino remoto, remotíssimo, alastrou-se para além dos seus limites naturais.
A sua maneira de ver as coisas correu mundo. Reinos em que os cavaleiros limpavam diariamente as suas armaduras, batendo-se em justo combate com inimigos ferozes por causa das suas princesas ou pela honra de vencer desafios impossíveis, acabaram por aceitar aquela tendência vinda do estrangeiro, sucumbindo ao seu fulgor opaco.
Foi uma conquista silenciosa, estranha, que nunca exigiu qualquer combate. Se alguma vez um cavaleiro de armadura reluzente dava de caras com outro de armadura oxidada, este último acabava por convencê-lo da comodidade da vida fácil sem sequer desembainhar a espada. «Para que dás tu lustro à tua couraça se a ferrugem lhe dá tanto aprumo?», diziam eles.
E assim, aquelas armaduras pardas foram ganhando terreno lenta mas implacavelmente.
Mas ocorreu uma coisa ainda mais estranha: os dragões ferozes, que noutros tempos enfrentavam os cavaleiros de armaduras resplandecentes, acabaram por se habituar àqueles novos guerreiros de sangue morno, que nunca lhes faziam frente. Os monstros perderam o interesse por sequestrar as donzelas, muitas das quais morriam de pena sem nunca serem reclamadas, e aquelas gestas poderosas que um dia ilustraram os cantares de trovadores e clérigos acabaram por se apagar da memória daquele reino.
Um dia, no entanto, quando os oxidados descansavam da sua falta de trabalho debaixo de uma árvore frondosa, chegou alguém de um mundo que não fora tocado pela ferrugem. Era uma rainha formosa, de personalidade forte, disposta a não ter cavaleiros ferrugentos à sua volta. Aquela rainha sagaz deu-se conta de que o óxido das armas daqueles homens rudes era o reflexo da sua decadência sentimental.
Varões outrora entregue à força do mito, ao valor da luta por ideais, perdiam inexplicavelmente as forças nas suas casas, tombados sobre o sofá. O pior era que sem armadura pronta, tão-pouco havia cálices sagrados para procurar, dragões ou medos interiores para vencer, nem reinos de Avalon ou altas metas para atingir.
O que a rainha descobriu foi terrível: esse reino de oxidados somos nós!
Rosetta Forner
in "A Rainha que Mandou à Fava o Cavaleiro de Armadura Oxidada




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